Todas essas obras podem ser simplesmente picotadas

Sobre destruição de livros da Cosac Naify e ‘transtorno contábil’

Eis um exemplo prático de como certas regras são construídas e, ao mesmo tempo, vazias em sua forma. Quase nunca percebemos isso por estarmos envolvidos demais com elas, como em uma bolha, mas, quando algo foge à nossa vivência, é como se uma cortina se abrisse e pudéssemos ver que aquilo é completamente vazio. Que não faz sentido algum.

Matéria da jornalista Maria Fernanda Rodrigues, no blog Babel, do Estadão, fala da Cosac Naify, editora que, por muitos anos, esteve entre as mais importantes do país e encerrou suas atividades no ano passado. Parte do estoque de livros foi comprado pela Amazon, que segue vendendo-os pela internet. Outra parte continua com a editora. Se esses livros que ainda estão com a Cosac não forem vendidos até o fim deste ano, eles serão destruídos.

Naturalmente, a repórter que noticiou o assunto questionou o diretor financeiro da empresa sobre essa destruição. Não poderiam doar os livros a bibliotecas públicas? Ou entregá-los aos respectivos autores? Ora, se a editora vai destruí-los, então que alguém faça bom proveito. Seria a melhor opção e beneficiaria a todos. A empresa não precisaria mais se preocupar com os custos de armazenamento de toda essa mercadoria, enquanto as bibliotecas, os autores, as escolas os receberiam com alegria, afinal, já viu quanto custa um livro da Cosac?

Mas, para o diretor financeiro da editora, isso não é tão simples. Alguém estabeleceu que é preciso prestar contas, seja à própria empresa, seja ao Estado, e, portanto, se ele fizer uma doação, o valor de cada livro doado deve ser declarado nessa prestação de contas. O resultado seria um déficit exorbitante, que não está nos planos de uma empresa que acaba de fechar.

Por outro lado, colocar esses livros em uma máquina e picotá-los não gera esse mesmo déficit. Talvez, seria como se eles nunca tivessem existido.

Ora, o valor que a empresa gastou para confeccionar esses livros já foi gasto. Destruir as obras não vai trazer esse dinheiro de volta. Doar os livros, também não. A diferença é que, ao doá-los, números que não significam nada devem aparecer em uma certa planilha que significa menos ainda, e isso não seria bom para a empresa. Se essa planilha (ou prestação de contas, como queira chamar) fosse vista como algo construído e sem sentido que é, seria facilmente ignorada e ninguém seria obrigado a destruir obras de altíssimo calibre que são as da Cosac Naify.

A verdade é que estamos acostumados a seguir padrões como se fossem absolutos, sólidos e imutáveis quando, no fundo, são tão sólidos quanto uma neblina densa, que impede de ver o que há além, mas que se dissipa no simples ato de encará-la e avançar em sua direção.

ADENDO: O presidente da Cosac Naify voltou atrás e diz que ainda tenta doar o estoque. Atitude louvável, mas a reflexão que aqui escrevi permanece. A prática de destruir livros encalhados é comum nas editoras.