O acorda da vida em forma de tapa

Estava no bar em uma noite dessas de inverno que, geralmente, encontro o Gu. Bebendo nossa quarta ou quinta cerveja, aparece Caroline, amiga dele de quando estudavam no ensino médio. Já a conhecia, mas por alternações de destino nunca havíamos sentado para conversar sobre a vida e outras coisas. Carol, já de pé, conseguiu levantar uma questão que fez meus olhos pularem e a boca dizer: “por favor, senta aqui, precisamos conversar sobre isso”.

A vida dela estava ou ainda está trazendo ensinamentos que só quem tem a sensibilidade que ela teve conseguiria pegar para si e aceitar aquilo como algo a ser refletido e somado à evolução do seu ser. De repente, seu caminho começou a botar o pé na frente fazendo ela bater a fuça no chão ou, simplesmente, chegando próximo dela e dando aquele tapa na cara, junto a um sacode pelos ombros gritando: “cara, não é bem assim!”.

Foi assim que tivemos nossa primeira, fria e longa conversa sobre a importância de se levar um tapa na cara. Uma bofetadazinha da vida só para a gente acordar do nosso plano cômodo e pensar além da nossa bolha, das nossas crenças e verdades nada absolutas.

Arrisco dizer que estamos sedentos demais pelo que acreditamos e apenas buscamos ver e entender mais sobre aquilo que acreditamos. Seja nas redes sociais, nas conversas com amigos, discussões na mesa do bar, os tipos de livros que procuramos, como julgamos a vida de um conhecido, como entendemos a existência da vida e do mundo por meio das nossas crenças, como achamos que o outro está errado e por aí vai. Não tem fim a lista dos tipos de posicionamento que a gente finca os dois pés enterrados no chão do nosso umbigo — vê se pode.

No entanto, quando a vida resolve te dar essa pequena porrada, tem que ser sensível para saber como recebê-la. Você pode simplesmente ficar muito brava/o e revidar ou simplesmente aceitar e analisar porque essa ação foi necessária para você. Repensar posicionamentos, atitudes, discursos faz parte da nossa evolução na tentativa de sermos pessoas melhores para nós e para a convivência em sociedade.

Tapas na cara da vida são essenciais para quebrar nossas certezas e expandir nossa mente até onde ela puder alcançar. Também é possível para entender nosso estado emocional e psicológico atual para agir diante de determinadas situações como por quê aquela pessoa acha que ser a “tia da xerox” é a melhor função e você não, e perceber que você merece mais do que recebeu até hoje, mas só não tem porque acredita só numa saída ou que não tem nenhuma.

Nunca fui a favor da violência, mas às vezes as porradas da vida chegam junto a um novo começo. Pena que a gente se fecha tanto nas nossas verdades que só um tapa na nossa cara é capaz de nos fazer enxergar as coisas boas que a vida tem — e as ruins também, pois são necessárias para refletir e nos tornar mais empáticos com os outros e com o mundo.

Não é que a gente, de fato, apanhe da vida, é só que às vezes ela precisa trazer aquele estalo nos dedos, para acordarmos desse sonho utópico de que o mundo fica centrado dentro do nosso umbigo e que tá tudo bem, porque não tá.

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