© monica march

[quando perder é ganhar]

Um provérbio occitano medieval diz: Tên përdu, jhamâï së rëcôbro (sim, exatamente como parece: tempo perdido jamais se recupera).

Horários. Agenda. Imprevistos. A logística do dia a dia tem o poder de desestabilizar até os mais fortes. Quase todo o tempo (se não em todo ele), não conseguimos cumprir tudo aquilo que colocamos em nossas intermináveis listas de coisas “por fazer”.

Esquecemos que apesar de nossa vontade, de nosso comprometimento ou mesmo de nossa necessidade, o andar da carruagem não depende somente de nós. Sempre há um terceiro, um quarto — a torcida do Corinthians, a população da China — envolvidos naquelas que pareciam, olhadas rapidamente, simples anotações de atividades corriqueiras, comuns, banais.

Há a fila interminável do banco, o trânsito maluco e seu “excesso de veículos” que não respeita mais horários, aquela marcha a-favor-ou-contra-alguma-coisa que bloqueou uma avenida que liga a cidade de norte a sul, o caminhão que tombou na entrada do túnel. E você fica se perguntando: por que bem hoje, por que agora?

Estava atrasado para o médico, as crianças têm prova na escola, a reunião está pra começar… O som do carro abafa os bipes quase ininterruptos do smartphone, o chocolate está terminando e parece que exatamente agora seria ideal conseguir ir ao banheiro. Você, que nunca colocou um cigarro na boca, começa a repensar seus conceitos e desejar dar umas boas baforadas nesse momento.

Mentalmente você percorre a famigerada lista de afazeres (a-fazeres!) e sente uma pontada no estômago. A buzina dos motoboys, os semáforos desincronizados e você ainda nem tomou um café decente. Era isso ou ter tempo para aquela ducha que garantiu que seus olhos se abrissem e enxergassem — de verdade e na medida do possível — o novo dia.

Você maldiz metade das escolhas que fez na vida e aproveita as paradas estratégicas para ler coisas na internet, postar no Twitter, subir fotos no Facebook e lembra (meu deus, isso também?!) que marcou, logo depois da academia, um jantar com o amigo que vai passar somente um dia na cidade depois de 20 anos. Você, que passou a hora do almoço procurando pelo presente certo pra sua mãe-irmã-sogra-etc, de tão feliz ao poder riscar o item vermelho-vivo de sua lista, quase é atropelado por um ônibus.

Passa o dia, a correria se repete. E se repete. E se RE-PE-TE. A semana terminou e agora você tem um pedacinho do sábado e o domingo pra descansar. Finalmente. Ler, passar horas jogado no sofá vendo os DVDs que não conseguiu tirar da caixa nem pra espiar a sinopse. Vai poder preparar comida caseira caprichada para aquela pessoa especial e comer sem pressa, com direito a sorvete de sobremesa.

Mas o domingo amanhece e você, mesmo sabendo que são só 7h da matina, não consegue mais ficar na cama. Seu estômago ronca e suas costas doem, a desculpa perfeita para sair e fazer alguma coisa. Todos os lugares estão lotados. Parece que sua ideia não foi tão original assim e, quando você resolve voltar para o seu doce lar, sua paciência está parecendo a lua de ontem: quase cheia.

Moral da história? Precisamos aprender a gastar nosso tempo conosco. Mesmo que pareça que estamos “perdendo” tempo, que poderíamos estar fazendo “n” outras coisas ou adiantando aquela imensa lista de coisas a fazer que — aceite isso, meu amigo — nunca vai parar de crescer.

O segredo está justamente em sair do piloto-automático e perceber que o tempo que você curte, mesmo que isso signifique fazer quase nada, é aquele que você tanto pediu durante toda a semana e que, se respirar devagar e olhar com cuidado, vai perceber que ganhou somente pra você.

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