© L’Oubli d’être en Vie, 1967 Marcel Mariën.

(S)enfim

Se for pra sumir, que suma de vez.

Brincadeiras à parte, chega das suas.

Mas vai, me faz rir pelo menos uma última vez. Afinal, tudo que sempre fiz foi rir com você.

Entre uma gargalhada e outra já não te vejo mais.

Sumiu num alegre contrair de olhos.

Mas ao sumir, você já não pode mais saber que os dias passam e seu rosto passa por mim o tempo todo, em qualquer rosto que eu veja na rua.

Sabe que eu deixo meus óculos em casa de propósito?

Às vezes pra te ver onde você não está. Às vezes pra não te ver, caso você apareça.

O primeiro impulso que eu tenho é ir pra longe, mas daí lembro que já estamos longe o bastante. Pra eu não ter como saber de você às quatro da manhã ou às sete da noite.

Mudo meu trajeto. Às vezes pra fugir de você, às vezes pra implorar para o acaso que te empurre para aquela rua comum e improvável ao mesmo tempo.

Corro. Às vezes de você, às vezes de mim.

Entretanto, quando pego um impulso, alguma coisa me joga de volta. Pra minha própria dor ou pra dor que você me causa. Às vezes tanto faz para qual delas. Às vezes não.

Choro, soluço. Depois abro um sorriso.

Que coisa esquisita que você causa em mim.

Alegria por ter te conhecido. Alegria por ter te deixado.

Tristeza por ter tido você na minha vida. Tristeza por não te ter mais.

Insônia pelos sonhos agradáveis com você. Insônia pelos pesadelos em que você me atormenta.

Nunca mais te vi porque quis. Tudo mentira.

Sabe, às vezes minto. Para mim, de que não te quero; para os outros, de que foi tudo um erro.

E então nego. Que te amo, que não te amo mais.

Depois aceito. Que do não pode surgir um sim, até mesmo um talvez.

Talvez, não, com certeza, sim.

Me entrego. Às vezes ao caos de sentir tudo isso, às vezes a um estranho, para tentar não sentir nada disso.

Durmo, acordo e parece que passou.

Alívio. Está passando.

Ou não. Porque aí você insiste em aparecer. Dar um oi pra falar que eu faço falta sem saber da falta que você me faz. Sem fazer ideia que eu sinto que falta tudo, quando queria que não faltasse nada.

Você me diz para demonstrar o que penso ou então para parar de pensar em você. Mais uma equação que fica sem solução, dentre tantas sobre nós.

Me encolho, me espreguiço. Sigo na redundância de sentir tudo igual, num dia diferente.

Levanto e já nem sei mais que ano, que dia, que mês é.

Vou dar uma volta pra esquecer que tudo aconteceu. Que tudo aconteceu de novo.

Chato isso. Chega disso.

Mas aí percebo que deixei meus óculos em casa. Mais uma vez. Acidentalmente de propósito.

E aceito enfim.

Que é assim mesmo, sem fim.

Que não é a gente que escolhe amar.

É o amor que invade a nossa vida, sendo sempre uma perfeita contradição da realidade que a gente acha que vive.

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