O que uma temporada num spa de luxo me lembrou sobre minhas próprias prisões


Fim de ano. Diferente da tradição, a família resolveu se separar no Natal. Minha mãe foi para um spa de luxo e meu pai ficou em São Paulo. Eu e a Camila, minha irmã, fomos passar alguns dias com ela pra desligar o painel de controle e descansar.

Mas a chegada foi brutal de várias maneiras.

Depois do motorista no aeroporto, uma casa enorme no estilo colonial nos esperava. Dentro dela, milhares de empregados sorridentes nos receberam e nos conduziram até o salão de almoço.

Lá, garçons igualmente bem-humorados e felizes em servir nos chamaram pelo nome e perguntaram se seguiríamos a programação do spa — e de quantas calorias seria a nossa refeição. Ficamos um pouco confusas, sem saber ao certo o que responder. Diante da dúvida, nos serviram o prato referente à dieta de 800 calorias diárias. Uma salada de entrada e, de principal, uma coxa de frango com molho de iogurte que cabia num prato de sobremesa. Pedi água. Não era possível. No salão de almoço, a ingestão de água era controlada.

Ao nosso lado, muita gente simpática (grande parte mulheres), riam e faziam piada das porções miúdas de comida. Olhavam umas para os pratos das outras na tentativa de advinhar qual é que estava melhor (era possível, no dia anterior, escolher entre algumas opções do menu), reclamavam da quantidade, dividiam alguma angústia com o próprio corpo e seguiam pras suas atividades sem fim.

É claro que algumas pessoas precisavam de ajuda médica e estavam lá pra cuidar da saúde. Sem dúvida. Mas várias outras não. Vi, entre poucos idosos e doentes, mulheres jovens e bonitas acreditando, com todas as forças, que a vida delas dependia de alguns quilos a menos na balança.

Conforme o dia passava, assistíamos o desenrolar de uma novela focada na comida, no corpo e na necessidade — criada — de perder gramas indesejadas. Lanches marcados no relógio pra comer nozes contadas, chás desintoxicantes, a espera ansiosa pelo jantar e a programação cheia de exercícios e tratamentos. Milhares de possibilidades de intervenções estéticas: drenagens, lava vulcânica, pedras quentes e o que mais existir no mundo com a promessa de resultados incríveis.

Nada disso seria um problema pra mim se eu não fosse mulher, nascida e criada numa cultura que me ensina que minha maior contribuição pro mundo é a beleza — que inclui naturalmente a magreza.

Eu, como grande parte das mulheres, fui incentivada desde a infância a lutar contra o meu corpo com dietas esquizofrênicas. E ninguém precisou me dizer o que eu tinha que fazer com todas as letras. Estava lá, na capa da Capricho, da Nova, nos programas de TV, nas meninas que faziam sucesso na escola. Beleza tinha cara, e pesava pouco.

Nos últimos anos tenho feito tentativas conscientes de desprogramar o que a sociedade deu conta de me ensinar. Tem sido uma jornada difícil e bonita, de aceitar as diferenças dos corpos, deixar de admirar padrões de beleza impostos e parar de querer mudar a minha aparência a qualquer custo (e das outras mulheres também). Nesse caminho, uma decisão importante foi combater a cultura do emagrecimento e a indústria que gira em torno disso.

Criei e cultivei, ao longo de 2015, alguns hábitos simples que me ajudaram nessa missão:

1. Parei de fazer dietas

Já fiz loucuras. Atkins, south beach, dieta dos 3 dias, semanas de dieta líquida — tudo o que muita menina já fez pra perder peso, e rápido. Mas não mais. Além de me recusar a fazer qualquer tipo de dieta, não compro revistas e livros sobre o assunto. Procuro cada vez mais entender meu corpo (que é diferente dos outros) com cuidado e curiosidade, investigando o potencial de cada alimento pra mim. Busco me manter saudável e feliz — ainda que isso inclua açúcar e cafezinhos aqui e ali. Seguir uma rotina de exercícios que me façam bem em sentido amplo, o que inclui necessariamente ambiente e pessoas.

2. Parei de elogiar outras mulheres por perderem peso

"A admiração do emagrecimento, assim como o papo sobre peso, é uma estratégia social difundida e aceita para mulheres se conectarem umas com as outras. Eu sou tão culpada quanto a vizinha por tentar fazer minha amiga se sentir bem celebrando seus quilos a menos. Olhando com mais cuidado, um elogio ligado ao emagrecimento é sempre um tiro no pé. Não importa o tamanho da boa intenção, junto com o elogio, o que também se diz, silenciosamente, é que o outro, quando tinha alguns quilos a mais, não estava nada legal. "— trecho do texto Não me elogie por perder peso, da jornalista australiana Kasey Edwards.

Escolhi não reforçar essa prisão em outras mulheres. De certa forma, incentivar dietas e elogiar amigas porque perderam peso é exatamente isso: dizer, de um jeito sutil, que beleza e magreza são sinônimos, e que o emagrecimento deve ser celebrado em qualquer circunstância.

Conversando sobre o assunto com uma amiga, ela me disse: “Quando terminei o namoro com fulano, sofri muito e perdi muito peso. Estava triste, deprimida, nada saudável. Mas nunca fui tão elogiada na vida.”

Todo mundo já nos diz que sermos magras é motivo de alegria e admiração. Não precisamos estimular isso entre nós. Ao contrário. Temos que nos ajudar a furar bolhas e percepções distorcidas se quisermos mesmo transformar essa cultura opressora com os corpos das mulheres.

3. Parei de comprar produtos e alimentos com promessas milagrosas

Foi uma estratégia importante pra mim. Parei de ler artigos que trazem descobertas “cientificas” do mais novo alimento milagroso e cortei as idas constantes aos mercados naturais pra comprar superfoods. Sim, é legal descobrir coisas novas e aumentar o repertório alimentar. O que não dá é pra achar que goji berry vai te fazer virar capa de revista. Ir atrás do mais novo componente do ano alimentava, no meu caso, uma paranóia com o meu corpo. Me colocava de novo num ciclo um tanto obcecado de buscar "soluções", "respostas", pro meu problema imaginário: minha aparência, meu peso.

Além da necessidade pessoal de quebrar essa lógica, resolvi que dá pra ser feliz e saudável com verduras e frutas simples e orgânicas. Fora as moedas de ouro poupadas a cada pote de farinha de grão de bico que eu deixo de comprar.

4. Digo não para tratamentos estéticos e cosméticos mágicos

Nada tenta mais uma mulher do que uma promessa de beleza em forma de produto: vitaminas, cremes, anti-rugas, anti-celulite, anti-estrias, anti tudo o que é natural. Normal. Além disso, uma indústria de serviços e intervenções: drenagem, congelamento de gordura, lifting natural, peeling de diamante, e por aí vai.

Percebi que fazer qualquer intervenção estética ou comprar produtos cosméticos também estimulava em mim um espaço nocivo, de preocupação exagerada com a aparência e perseguição de um padrão de beleza impossível.

Hoje, prefiro focar em cultivar uma saúde real, natural, que envolve alimentação, corpo e mente. Sem paranóias ou gastos exagerados.

Essas são algumas das várias coisas que me propus a fazer. E mesmo falando sobre isso, escrevendo montes e praticando com a ajuda de outras mulheres que pensam e sentem igual, os dias no spa foram um desafio pra mim. Me vi, a cada minuto, confrontando prisões femininas homéricas, que me rondam desde a infância.

Tive que respirar fundo, me lembrar de toda a trajetória até aqui e resgatar o que é realmente importante pra mim. Recorri também à comunidade de mulheres com quem tenho trocado sobre esses assuntos, no fórum da Comum.

Percebi que num ambiente construído para o emagrecimento (e o cuidado com o corpo), cheio de pessoas vivendo e reproduzindo a ditadura da magreza, é bem fácil emergir todo o tipo de obsessão estética.

Fazendo um paralelo com o dia a dia, ficou claro como a transformação fica mais fácil e rica quando estamos rodeadas de mulheres no mesmo caminho (trocando, dando e oferecendo suporte) e quando escolhemos criar e estar em ambientes — virtuais e reais — que reproduzem noções mais benéficas e menos aprisionantes de beleza.

No fim, a experiência reforçou em mim a importância de nós, mulheres, seguirmos tentando quebrar padrões dentro e fora de nós, em um trabalho constante: hoje é o peso, a gravidez, amanhã o envelhecimento — já que o corpo está sempre mudando.

A gente não pode se distrair. Precisamos checar, todos os dias, o que estamos realmente cultivando em nós e fazendo florescer nas mulheres em volta. Estarmos despertas e atentas faz toda a diferença do mundo.