PORTFÓLIO | Minecraft poderia nos ajudar a resgatar o básico?

Nessa última madrugada, tomado por uma exaustão espiritual repentina, optei por ficar em casa procrastinando, jogando videogames e assistindo a filmes/séries. Me deparei com um tweet que falava sobre uns produtores independentes de um documentário que colocaram o seu filme no The Pirate Bay propositalmente, com o intuito de divulgar a obra.
O documentário se chama “Minecraft — Story of Mojang” e, para quem não entendeu bulhufas, fala sobre a criação do Minecraft — um jogo criado por um cara simpático chamado Markus “Notch” Persson, e que veio a se tornar um fenômeno cultural e econômico, já que está sendo empregado por escolas mundo afora para ensinar crianças, e por ter vendido mais de 15 milhões de cópias em 2 anos — e, é claro, a Mojang que não é nada mais nada menos que a empresa por trás do game.

Markus “Notch” Persson

[INSERIR VÍDEO DO TRAILER DO DOCUMENTÁRIO SOBRE MINECRAFT]

Baixei o filme e o resultado é que ele mudou não só a minha madrugada, mas trouxe uma reflexão absurda sobre a sociedade em que vivemos. Sério, não estou exagerando. Estou tendo um tsunami cerebral e gostaria de dividir isso com vocês. Então, me dê sua mão e vamos lá!

Mas o que é Minecraft?

Se você procurar no Google Imagens agora por “Minecraft”, podemos dizer que ele é, a princípio, um jogo feio. Porém, me dê uma chance para explicar o porquê desse jogo estar sendo considerado um divisor de águas, e ter vendido mais de 15 milhões de cópias (o que é muito, se você pensar que sua distribuição é puramente digital e foi feito por, basicamente, dois caras).

Com jogos cada vez mais avançados e complexos, uma prática comum hoje em dia é colocar o “tutorial”, que é nada mais nada menos que um passo a passo de aprender a jogar. Como pula? Corre? Anda? Agacha? Atira? Todo jogo parte da premissa de que você precisa aprender para depois desfrutar. É basicamente um treinamento de “é assim que você deve aproveitar esse jogo”. E, nesse mundo cheio de novidades, correria e overdose de entretenimento que temos acesso, parece lógico e necessário receber um passo a passo para qualquer tarefa. Precisamos de instruções para nos divertir.

Minecraft apareceu de forma diferente. Você é jogado num mundo muito parecido com a Terra — com animais, ciclos de dia e noite, grama, montanhas, rochas, metais, cavernas, oceano, rios, lava, neve. Está tudo lá. Um mundo infinito, feito de quadrados. É como ir parar em uma ilha deserta. Nenhuma instrução é dada, e você descobre, na primeira noite, que quando o sol se põe, criaturas malignas que não gostam de luz surgem para te devorar. Desse modo, você precisa construir um abrigo, então você corta árvores, cava, minera e, com os materiais que consegue, constrói ferramentas para facilitar a coleta (pás, picaretas, machados), armas e sua casa. Seu abrigo. Não há limites do que pode ser construído, é realmente como um mundo de LEGO, o limite é o que você impõe como limite.

Não demorou para aparecerem projetos ousadíssimos pelo YouTube: reconstrução da Terra Média, Estrela da Morte, Hogwarts, um instrumento musical gigante que é acionado com alavancas e que, dessa forma, toca notas diferentes (tenta imaginar aí) e, bem, um computador com a capacidade de processamento um pouco acima do Atari. Sim, um computador. Calma, eu também não entendi como isso é possível — um computador DENTRO DE um computador, porra!

Não foram apenas os nerds desocupados que tiraram proveito do game: escolas começaram a adotar o jogo como uma experiência para desenvolver o trabalho em equipe das crianças. Todos os dias, uma turma em uma escola de Nova York tem um desafio diferente dentro do jogo proposta pelo professor. Por exemplo, a turma é separada em grupos e cada grupo deve construir uma casa no jogo utilizando um material diferente (alguns de madeira, outros de tijolo, outros de vidro, outros de pedra e assim por diante). Sim, o jogo tem esse nível de detalhe: colete pedra, faça um forno com elas, colete carvão, faça fogo dentro do forno, colete areia e coloque dentro do forno. Dessa forma, você conseguirá vidro.
Essas situações são mostradas no documentário, dentre muitas outras.

Ainda não está convencido do potencial?

A ONU se uniu à Mojang para lançar o projeto chamado Block by Block. Jovens moradores de áreas mais carentes criam, dentro do jogo, uma representação idêntica do local em que moram e são convidados a construir algumas mudanças que gostariam de ver no mundo real, e a ONU analisa e avalia essas mudanças para viabilizar e alterar de acordo com o pedido da comunidade. Eu não sei que palavra posso usar que represente a satisfação de ver algo tão genial assim sendo feito no mundo. Talvez a expressão “heartwarming”, apontada lá nos comentários, ajude.

A excentricidade e compartilhamento de experiências pelo YouTube que cada pessoa tem com o Minecraft foi a principal forma de divulgação do jogo, que não recebeu investimentos em publicidade por se tratar de um jogo independente. A novidade se espalhou e encantou o mundo. Todos que entravam em contato com aquela ideia ousada sentiam a necessidade de experimentar sua própria aventura no mundo dos cubinhos.

E o que podemos tirar para a sociedade com tudo isso?

Houve um tempo em que uma pessoa comum coava e pasteurizava o leite para se ter queijo. Hoje em dia, aposto meu dedão da mão esquerda que muitos não sabem nem o que significa a palavra “coar”. Agora, indústrias fazem esse trabalho, e isso é ótimo. É bom, prático, rápido e ajuda na RODA DA ECONOMIA. O problema é quando você pensa a fundo sobre toda a nossa estrutura e percebe que você sabe fazer sanduíches, mas não sabe fazer pão. Assisti ao documentário e descobri isso, me senti um imbecil. Eu sei mexer lindamente no computador, sei editar arquivos de áudio para fazer podcasts, mas repare no meu olhar apavorado ao pedir para que eu costure uma bermuda rasgada. Provavelmente levarei muito tempo só para passar a linha na maldita agulha, e o resultado final ficará uma merda. Isso se eu conseguir chegar nesse resultado. Com certeza bermudas não rasgadas são mais importantes do que podcasts bem editados, mas eu não havia pensado exatamente nisso até hoje. Há salvação: eu procuro no YouTube e aprendo como costurar a bermuda. Mas eu não me virei sozinho, certo?
Vamos supor que eu acabe me perdendo na zona rural sem internet, e precise costurar a bermuda? Seria um desastre.

Nós sabemos o avançando mas estamos esquecendo o básico. Com certeza algumas crianças já tem dificuldade para escrever em manuscrito, mas digitam mais rápido que todos nós em um computador. Isso não é necessariamente ruim, mas é esquisito e parece ser errado.
Quem aqui sabe cozinhar? Tipo, de verdade? Claro, muitos sabem, mas muitos não sabem. Cozinhar se tornou algo como ler as instruções. As instruções se sobrepuseram ao nosso INSTINTO. Conheço pessoas que não sabem o que é uma BERINGELA. Talvez você não saiba, mas PICLES é o nome dado às conservas. Já ouvi gente achando que PICLES era uma espécie de vegetal, e que haviam plantações dela — gente, picles é, geralmente, pepino. Mas você pode fazer até SALSICHA PICLES, colocando-a em conserva com vinagre e sal. Sabemos onde colocar o picles, como sanduíches, mas não sabemos o que ele é.

Esse é o principal contraste que o Minecraft trouxe. Você até pode achar que eu esteja indo longe demais, afinal, é só um jogo. Mas é um jogo que me fez questionar esses princípios da vida moderna (na verdade o documentário sobre o jogo fez eu questionar, você entendeu). Não há tutorial, instruções. Não há um “for dummies”. Há o “tentar”, “experimentar”, e dessa forma você é desafiado a sobreviver em um mundo que precisa, simplesmente, se virar sozinho. Use sua criatividade para sobreviver e resolver problemas e dificuldades, isso é Minecraft. Indo contra todos os modelos modernos que ensinam você a como aproveitar algo.

Peter Molyneux, um desenvolvedor de jogos consagrado, deu o seguinte exemplo no documentário: pense em LEGO. Antigamente, existia uma caixa de LEGO com peças, e você montava o que bem entendesse. O que quisesse. O que sua imaginação permitisse. Hoje, você compra o LEGO do Star Wars, lê as instruções e segue à risca o “como montar”. Depois, coloca na estante e compra o próximo temático.

Nós podemos abrir os pacotes de biscoito sem usarmos a fita vermelha. Nós podemos comer o sorvete de casquinha por baixo. Pode ser mais difícil, mas é uma nova experiência, mesmo que minimamente. Nós podemos ver como é fazer de uma forma que não nos foi ensinada, só para ver onde vai dar. Talvez esse seja o dever da nossa geração, comer sorvetes de casquinha ao contrário.

Enfim.

O filme foi produzido graças à colaboração no Kickstarter, o que é bem legal e bonito de se ver. Não achei legenda mas confesso que procurei pouco, acabei indo de ouvido mesmo e foi bem tranquilo. Lembrando que ele está disponível para download gratuito no The Pirate Bay, mas se você assistiu e gostou, seria legal comprar no site oficial e ajudar os caras.

Encerro essa recomendação e reflexão com uma frase que vi escrita no filme:
The power of the internet combined with the human need to create makes Minecraft an endlessly evolving celebration of ingenuity and expression.

Até a próxima.

Documentário para download no TPB

Filme no IMDb

Site oficial “Minecraft — Story of Mojang”

Site oficial do Minecraft


O texto acima foi publicado por mim em 23 de dezembro de 2012, no site de cultura descontinuado lizt.com.br. Você pode acessar a publicação original pelo Web Archive aqui.