Faça mais projetos paralelos.

Nerd, universitário, biofísico, professor, fotógrafo freelancer e… Homem-Aranha nas horas vagas.

A boa e velha pergunta

Desde moleque milhares de pessoas perguntam para a gente:

“O que você quer ser quando crescer?”

Um exercício interessante é a gente parar para relembrar as respostas mirabolantes que dávamos para isso. Surgiriam aquelas sonhadoras, tipo: astronauta, jogador de futebol, bailarina, apresentador de televisão, bombeiro, astro do rock. Outras pessoas apareciam com ideias inspiradas no legado da sua família: médico, engenheiro, advogado, dentista, professor e por aí vai. E outras ainda viriam com ideias mirabolantemente inusitadas: colecionador de coisas que achou na rua, cientista revolucionário, gari, hippie viajante do mundo, um novo super-herói, presidente do mundo, mestre-jedi ou algo do tipo.

Apesar da diversidade (e da loucura) das respostas, duas coisas eram certas:

  1. a gente acreditava muito mais na vontade de fazer coisas, do que na possibilidade dessas coisas darem certo.
  2. a gente não ligava em responder 4 profissões completamente diferentes.

Eu, por exemplo, queria ser: astronauta, nadador profissional, colecionador de coisas que encontrava no chão (seja na rua, na praia, na escola) e, principalmente, gari — eu era apaixonado pela forma que eles passavam gritando e pulando com aquele uniforme laranja todo domingo de manhã (ou será que era de tarde?). Minha mãe conta que eu acreditava fielmente que ser gari era a profissão mais feliz e mais bem remunerada do mundo.

Mas com o passar do tempo nós voltamos para o pensamento linear do sistema escolar, que nos faz ter que passar por dois processos de enfraquecimento do nosso potencial criativo: primeiro nós precisamos filtrar nossas opções de carreira por aquelas que o MEC reconhece; e segundo nós somos levados a acreditar que precisamos escolher uma só dessas profissões e ignorar todas as outras.

Passamos então a desacreditar na possibilidade de experimentar novas coisas e na possibilidade de sustentar mais de uma profissão.

E talvez essa seja a beleza dos projetos paralelos.


O que são Projetos Paralelos?

Projeto paralelo é aquilo que você faz no seu tempo livre, por interesse, paixão ou habilidade — com comprometimento e disciplina. Mas sem deadlines inflexíveis e sem depositar a expectativa de que aquilo seja financeiramente sustentável de um dia para o outro.

É tudo sobre aqueles dois pontos:

Vontade de fazer > Expectativa de dar certo.

Você não começa um projeto paralelo pensando que aquilo vai ser um sucesso absoluto ou que isso vai pagar o seu pão nos próximos 12 meses. A fome do projeto paralelo é outra: é a fome por fazer mais daquilo que te move. Não importa se isso é uma fonte de renda ou não. Não importa se você vai começar sendo o melhor do mundo naquilo. O mais importante é não deixar isso na gaveta por mais 20 e tantos anos.

O projeto paralelo começa como algo que te traz prazer nas horas vagas. Aquelas 2 horas diárias que normalmente você gastaria no feed de notícias do facebook, assistindo Netflix ou então reclamando no Twitter sobre as 6–8h diárias que você ficou naquele trabalho que já não faz mais tanto sentido como antes.

Isso tem se tornado uma alternativa maravilhosa para quem tem como plano A profissional um trampo limitado, que já não explora o melhor de você. E mesmo para quem tem um trabalho interessante, cada vez mais fica claro que nenhum trabalho contemplará tudo o que você se interessa por fazer na vida — vide o próximo item. Mas antes, um esclarecimento:

Não. Não é Hobby.

Se até então você ficou pensando que Projetos Paralelos é a mesma coisa que aquele tal de Hobby, você se enganou. E quem investiga essa diferença com maestria é o Luciano Braga, da Shoot The Shit. Ele diz que:

HOBBY: requer conhecimento prévio, dedicação média, frequência indefinida, sem responsa e sem produto final — ou seja, você realmente faz isso para si mesmo, só por diversão pessoal: o compromisso é só consigo mesmo. Ele compara com quem surfa por diversão, mas só quando tem sol ou quando a turma toda anima ir junto — o que não acontece muito.

PROJETOS PARALELOS: requer conhecimento prévio, dedicação maior, frequência definida, mais responsa e pode possuir produto final — ou seja, não é só algo feito só para você; é algo que também pode ser oferecido para outras pessoas: o compromisso vai além da diversão pessoal. Ele compara com quem tem um blog/vlog feito com carinho, com postagens semanais e com um público constante.

Ou seja, projeto paralelo é criar um plano B. É fazer algo divertido, mas criar comprometimento e propósito com aquilo. Já o Hobby é igual a ir ao cinema, se aventurar na cozinha em ocasiões especiais ou mobilizar a família para passear de bicicleta na Lagoa da Pampulha eventualmente: é diversão, mas não existe comprometimento e o propósito é momentâneo.


Nós temos interesses e habilidades múltiplas: logo também somos multi-profissionais.

Nunca fui muito fã da palavra “vocação”. Dá aquele sentido de que você está pré-disposto à ser um alguém determinado por causa daquele conjuntinho de aptidões que você já tem na hora de fazer um vestibular —aliás, será que talento se resume ao que está na listinha do MEC? — e que definirá o que você vai ser pelo resto da vida. Ou então começamos a acreditar que talento é uma dádiva divina que é dada à crianças prodígios. Resultado disso: nos deparamos com adolescentes-adultos totalmente desacreditados na sua capacidade de desenvolver novas habilidades.

Mas nós podemos encarar o talento como uma habilidade que pode ser desenvolvida com disciplina, paixão e dedicação — independente da idade ou dos rumos que você já traçou até ali. Ainda mais em uma época em que temos tamanho acesso à novas informações e à novos conhecimentos.

Fato é: por não acreditar em vocação, eu prefiro conversar sobre interesses e habilidades. O que te interessa fazer nessa vida está diretamente ligado às habilidades que você está disposto a suar para desenvolver; e, com o ganho de experiência, cada uma dessas habilidades pode se tornar a fonte de um novo trabalho.

Se você seguir esse raciocínio, tudo fará mais sentido. Vamos fazer um teste:

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a) O ser humano possuí interesses múltiplos, logo: você pode amar publicidade, ao mesmo tempo que você pode amar música indie, budismo e ajudar pessoas.

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b) Cada um desses interesses abrem portas para novas habilidades a serem desenvolvidas: posso me graduar em publicidade, aprender a tocar teclado, frequentar semanalmente um centro de meditação budista e ainda participar daquele projeto social que eu fundei com 2 amigos.

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Art by: Thiago Raydan. :)

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c) E todas essas novas habilidades podem se tornar um novo plano profissional: posso virar um consultor de comunicação pra micro-empresas, ao mesmo tempo que toco numa banda cover de Oasis nas sextas à noite, dou workshops de meditação para iniciantes semestralmente e faço uma formação de empreendedorismo social para jovens lideranças. Você não precisa ser o maior especialista do mundo em alguma coisa para começar a passar sua habilidade adiante.

Resumindo:

Todo projeto pode se tornar um novo trabalho. Mas todo novo trabalho precisa antes emergir de um intenso interesse em se jogar e ir desenvolver alguma habilidade nova. Ou seja, você vai precisar sair da sua zona de conforto: e essa é a mágica do negócio.


Mas por quê fazer um Projeto Paralelo?

Para responder isso com a profundidade que o assunto merece, vai aí 7 motivos para você tirar logo um projeto paralelo da gaveta, com alguns links de referência para caso você queira adentrar mais no assunto:

1) Desenvolver novas skills

No seu emprego atual você provavelmente é pago para fazer uma mesma tarefa, repetidamente. Em um Projeto Paralelo, você é forçado (pelas circunstâncias) a ter que participar de todo o processo criativo para fazer a coisa acontecer— muitas vezes sozinho. É difícil pra daná? É. Mas também é uma ótima oportunidade para você desenvolver novas habilidades, que provavelmente você nunca teria contato no seu emprego atual: marketing, relações públicas, design, teamworking, social media, atendimento à clientes, office-boy, contabilidade, administração de conflitos, etc.

2) Aumentar sua zona de conforto

Como você será desafiado a fazer coisas novas, você automaticamente estará dando um salto para além da sua zona de conforto. E esse talvez seja o primeiro passo para uma mudança profissional gradual.

Em tempos de crise — sejam elas sociais (econômica, cultural) ou pessoais (emocional, existencial) — uma coisa é certa: a sua atual zona de conforto já não é tão mais segura assim. É preciso inovar-se. E para criar respostas em tempos de crise, nós precisamos expandir nossa consciência, redesenhar o rumo do barco e abrir portas para novas experiências. Pode parecer piegas, mas fato é que dificilmente novas oportunidades surgirão enquanto você estiver na sua zona de conforto: o novo está ligado ao desconhecido.

“Os dogmas do passado tranquilo não são adequados ao presente tumultuado. O momento agora é marcado pela dificuldade. Como nossa realidade é inédita, precisamos pensar de maneira nova e agir de modo igualmente novo. Precisamos nos libertar primeiro e depois salvar o nosso país.” — Abraham Lincoln, um mês antes da assinatura da Proclamação de Emancipação.
Na estabilidade, sua ZC está alinhada com a ZS. Em crises, as duas se separam — e muitas pessoas não percebem que sua zona de conforto já não é mais tão segura assim. A solução é readaptar-se: expandir sua zona de conforto, para reconectar-se com as novas exigências do seu mercado.

3) Autoconhecimento e criatividade

Num projeto paralelo, você é seu chefe. Isso quer dizer que você terá que lidar com duas variáveis cruciais: responsabilidade e liberdade. Com a responsabilidade, você vai aprender sobre como é o seu ritmo, o que te motiva e como gerir suas emoções e objetivos. Com a liberdade, você vai aprender sobre o quão criativo você pode ser quando colocado dentro de um projeto que te dá autonomia e voz para escolher porquê, como e o quê você vai fazer, passo-a-passo. Um depende do outro: o projeto precisa das ideias para sobreviver, assim como da responsabilidade para tirá-las do papel.

4) O futuro do trabalho tende à profissões menos focais e mais distribuídas

Hoje você investe 6–8–12 horas diárias do seu dia no mesmo trabalho, executando uma mesma função, exercendo uma mesma habilidade. Em um cenário hiperconectado e fluido, e com o surgimento de novos valores culturais, o trabalho tende a ir para um caminho onde as pessoas terão multiprofissões, multiescritórios, multiprojetos. E isso não é porque ser multi é mais cool. É porque ser multi é cada vez mais necessário: em níveis pessoais (realização/motivação) e sociais (adaptação ao mercado).

O futuro do trabalho tende à profissões menos focais e mais distribuídas, onde você vai ter a possibilidade de distribuir o seu tempo de trabalho entre mais de um só trampo. Isso faz com que os projetos fiquem menos repetitivos e mecanizados, e mais diversificados e flexíveis.

5) Quando você distribui seu projetos, você divide as suas expectativas — e abre mais portas

A expectativa que temos de ter sucesso no trabalho é alta demais para colocarmos tudo em cima de um só emprego. E aí que entra uma das principais vantagens dos Projetos Paralelos: a partir do momento que você expande seu leque de opções de carreira em atividade, a expectativa que você jogaria inteiramente em cima de um só trabalho começará a ser dividida entre os seus outros projetos paralelos.

O peso que você antes depositava inteiramente em uma só carreira/habilidade começa então a se diluir. E nós precisamos aliviar o peso, caso a gente queira realmente se sentir em paz com a nossa vida — o segredo da felicidade está em aprender a equilibrar as suas expectativas.

Além disso, quanto mais planos você estiver se envolvendo, mais pessoas você estará se conectando. Isso abrirá novas portas, que poderão até mesmo resignificar ou potencializar o seu trabalho principal (Plano A).

Se você tiver uma mesma carga de expectativas profissionais, é melhor diluir ela entre vários projetos do que jogar ela inteira no Plano A.

Só não caia na armadilha de aumentar ainda mais o peso. Muita gente desiste de iniciar um projeto paralelo justamente porque encara ele com as mesmas expectativas que já encarava o seu Plano A. Ou seja: em vez de diluir e aliviar, você multiplica a expectativa e sobrecarrega o peso. E assim o projeto vai para gaveta antes mesmo de entrar em ação, por acharmos que não temos tempo ou bons o suficiente para aquilo. Mas o problema não está no tempo ou na habilidade necessária para fazer ele rodar: está na expectativa do tempo e habilidade que você idealiza— que é totalmente desproporcional à realidade.

Não faça isso.

6) A virada: um dia um Plano B pode virar um plano A

Não tem manual para isso. Mas e se esse projeto ficar tão bacana ao ponto de começar a gerar uma renda interessante? E se essa renda se igualar ou superar a do Plano A? Ou melhor: e se o projeto te tocar ao ponto de você topar baixar seu salário para investir mais tempo ali? Aposto que você conhece histórias de pessoas assim, não é? No ContinueCurioso, por exemplo, tem histórias incríveis sobre pessoas que fizeram essa virada.

7) E se não virar?

Tá tudo bem. O Projeto Paralelo não vive a lógica de uma Startup. O sentido de se fazer ele não é de se fazer coisas com potencial de dominar o mundo. O sentido de se fazer um PP é simples, mas muito forte:

É a vontade de não deixar o tempo passar sem tirar as suas vontades da gaveta. É o desejo de se arriscar em campos novos. É o tesão de fazer alguma coisa do seu jeitinho, com sua cara. É o desafio de ser o seu próprio chefe, pela primeira vez. É o frio na barriga de ver o seu primeiro produto sendo avaliado por um outro alguém além de você. É a realização de começar ganhando uma graninha simbólica, mas super honesta. É a paciência para entender que você está em um eterno processo de aprendizagem. É o brilho no olho de ver pessoas comentando o tanto que ficou bonito o que você fez. E é a certeza de que: a gente é capaz de fazer novas coisas; e de que a vontade de fazer é maior que a de dar certo. ❤

Pode ser perrengue. Pode ser simples. Pode não dar muita grana. O importante é, no fim do dia, valer a pena.