Ninguém Quer Falar Sobre a Morte
Eu considero uma história “complexa” quando esta me faz refletir profundamente sobre questões que estão bem além da minha compreensão. Geralmente, me pego pensando sobre a minha relevância num universo tão vasto ou sobre o conceito do infinito até que essa ideia se torna tão insuportável que eu prefiro repelir tais pensamentos. Pode parecer tortura o fato de que eu ainda goste de histórias assim, mas são essas magnitudes incompreensíveis que nos permitem atingir um nível de praticidade que quase nunca poderíamos atingir com uma história qualquer. Sendo assim, Donnie Darko é um perfeito filme complexo, pois me fez pensar sobre a morte, sobre o tempo… e até mesmo sobre as forças que supostamente regem o universo.

No filme, Donnie, um adolescente americano, tem sua morte evitada por uma espécie de alucinação, que o faz perambular pelas ruas durante a noite em que uma turbina de avião misteriosa cai sobre seu quarto. Donnie então segue sua vida normalmente, grato por ter sobrevivido ao acidente que teria sido fatal. O que podemos perceber com isso, no entanto, é a importância que a presença de Donnie tem naquele universo. Com a possibilidade de sua morte, surge também a possibilidade de uma vida, na qual cada ação de Donnie e dos outros ao seu redor resulta em um conjunto diferente de situações, incluindo a morte de uma pessoa que lhe é querida.
A noção de que sua existência afeta a realidade de todos ao seu redor e a sua própria faz com que Donnie e nós, espectadores, nos questionemos a respeito do nosso papel no tempo. Será que as pessoas que amamos viveriam melhor sem nós? Será que podemos realmente atingir o ideal liberalista e sermos livres sem afetar a liberdade dos outros? Essas questões provavelmente nunca serão respondidas, mas isso não significa que elas não devam ser feitas. Questionar-se a respeito da sua importância no mundo pode te levar ao mesmo pragmatismo que Donnie atingiu. Quando tem a chance de reparar a realidade que foi afetada pela sua não-morte, Donnie consegue aceitar todos os seus medos e se encaixar ao cenário.
É através da aceitação, portanto, que podemos atingir a satisfação. Aceitando nossos limites, nossas vontades, nossa realidade e aprendendo a lidar com isso tudo, nós podemos buscar pequenas coisas que nos façam bem. Para Donnie, foi a ideia de que ele faz a diferença no mundo, mesmo que ele não saiba que mundo seja esse. Quando aceitamos a nossa condição limitada e aprendemos a lidar com ela, podemos fazer como Darko e gargalhar frente à morte, sabendo que, querendo ou não, ela chega e tudo o que podemos fazer é tentar viver ao máximo enquanto não sabemos o desfecho dessa aventura.
Dados da obra
Título: Donnie Darko
Direção e Roteiro: Richard Kelly
Lançamento: 2001
País de origem: Estados Unidos da América