O Herói que Todos Nós Somos
A jornada do herói tem sempre uma lição a ensinar. Existem tantos exemplos desse tipo de história que eu chego a pensar que o ser humano simplesmente não é capaz de aprender a lidar com a dúvida que os heróis são sempre levados a encarar: até que ponto as minhas boas intenções se transformam em boas ações? Jessica Jones, a heroína que estreia a nova série da Marvel no Netflix não fica fora dessa, mas no meio do caminho acaba nos levando a pensar em diversos outros “poréns” que estão contidos em cada ato do nosso cotidiano. Mesmo com sua superforça, Jessica não consegue lutar contra um infortúnio que, querendo ou não, aflige a todos nós: sua própria consciência.

Seja por meio de poderes telepáticos ou não, todo mundo tem um vilão que sussurra no seu ouvido as mais nefastas ordens e, por incrível que pareça, seu poder é tão forte que nós quase sempre seguimos seus comandos. Seja quando pensamos em furar a fila ou quando fingimos que não vimos o troco a mais. Seja quando passamos despercebidamente por um mendigo na rua ou quando fingimos não entender o que se passa na casa do vizinho toda vez que escutamos gritos e choro de criança. A voz sempre está lá… corrompendo nossas ações e corroendo nossos princípios morais.
Diferentemente de Jessica, a nossa voz interior não pertence a ninguém além de nós mesmos. Ela é fruto de uma sociedade individualista que atiça nossas ambições e fomenta as injustiças para que possamos sempre buscar nossas próprias vantagens. A voz está lá quando pensamos “não é da minha conta, não vou ajudar” ou então “tem que sofrer mesmo, ninguém mandou fazer isso”. Esse vilão metafórico se agarra aos nossos preconceitos e se espalha no meio de nossas tradições, infectando nossas relações interpessoais e evitando a solidariedade e a compaixão.
Não é por menos que vemos discurso de ódio ganhando cada vez mais força em todos os lugares. Pessoas querendo pena de morte, regimes totalitários, segregação de outros somente pela cor da pele ou pela condição social… são atos que começam em pequena escala, mas acabam representando verdadeiras atrocidades para o desenvolvimento de uma vida mais harmoniosa para todos.
Seja como for, mesmo sem superforça ou uma pele indestrutível, todos nós podemos ser super-heróis quando se trata disso. Assim como Jessica, nós temos uma pequena parte do cérebro que nunca se entrega ao controle do ódio. Assim como Trish, a irmã de Jessica Jones, nós podemos ter uma vontade de ferro e lutar para conquistar um ambiente propício para que todos possam ser ouvidos sem nenhum discurso criminoso cheio de preconceitos medievais que o atrapalhe. No fim, a maior fraqueza do nosso próprio vilão é aquilo que tanto “importuna” nossos pensamentos: a consciência de que algo pode ser feito e de que todos nós somos aptos para o trabalho.
Dados da Obra
Título: Marvel’s Jessica Jones
Lançamento: 2015
Emissora: Netflix
País de Origem: Estados Unidos da América