Revista Mormaço
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Antes de todos os séculos

Photo by Elia Pellegrini on Unsplash

quando tudo fora é só barulho barulho barulho muitas vozes querendo ser mais do que a noite e eu não posso mais eu não consigo escutar o sol por trás dos arbustos eu fico procurando procurando não sei o que, é uma sensação estranha de que preciso me encontrar, preciso me enxergar, preciso de algo. de algo. de algo que me dê paz, de algo que dê sentido, de algo que estanque a sangria, de algo que possa parar o mundo, de algo que detenha o abismo.

o que será?

o que será isso que busco e por que será que busco tanto sem fim sem nem saber que estou a buscar?

sempre a buscar, parece que nunca estou realmente aqui, nunca sou sincera no simples demorar-se das pequenas coisas do agora, sem pergunta,
sem resposta.
sem busca.
parece que sou incapaz.

E hoje eu enxerguei isso. eu sentei e naturalmente meditei quando o corpo já não aguentaria nada mais e ficou tão claro: é para dentro, o sentido é para dentro. é para dentro que você deve olhar. nada mais importa.

fora são ficções. ficções reais, mas ficções.

histórias que criamos a partir do que escutamos lá dentro. ou não escutamos. nunca entendemos que estamos buscando algo em nós mesmos.
estamos buscando a nós mesmos.

o que buscamos lá fora diz muito sobre o fracasso em encontrar a nós mesmos.

em um nível abissal.

buscamos fora o que em nós é placa tectônica.

e hoje essa outra eu que sou o eu que sempre busco
me disse assim

que ela é a poesia
que ela é essa parte de mim que é morte

ela disse bem assim

eu ouvia ela dizendo em primeira pessoa pra mim

eu sou essa parte tua que não se move
essa parte tua que é morte
eu sou a poesia que buscas
eu sou o silêncio quando tudo rui
eu sou aquilo que você busca em seu desespero

em sua falta de bússola, olha pra fora
olha em volta

olha pra lua
olha pro sol

sim, tudo é você
mas tudo nasce de dentro de você

o cansaço e o desencanto te trouxeram até mim
o erro, a desilusão, as fantasias

após longas estradas, você retornou pra casa
eu sou a tua morada

a tua gota fundamental
eu que sopro as vozes
eu que te faço se sentir estranha

tão estranha

com certeza de que algo está faltando

até você estar a buscar
buscando muito

pensando

às vezes só reflexiva
às vezes pesarosa,
desesperada
com um buraco sem fim

e quando deixa de esperar

eu apareço

apareço porque sempre estou aqui

eu não tenho nome
eu não tenho idade

eu já vi tudo que havia pra ver
e também nada vi

porque não há olhos para mim
porque não há forma em mim

indiferenciada

imersa

no oceano de consciência

assim me expresso em você

sou tuas lágrimas
tua gargalhada

teu coração que quase explode de amor
quando observa os seres, a natureza

sou você

sou o outro

sou ele,
ela
somos

no subterrâneo todos somos esse mesmo ser

nascido antes de todos os séculos

mas o caminho do corpo é de fora pra dentro
dentro do próprio corpo habita o templo

o corpo é o oráculo do tempo
o segredo profundo

pelo qual sempre esperamos
sempre buscamos

e ele nos espera
esperando nossa aceitação
espera um voto de confiança

aguarda o vazio e o silêncio
para assim nos fundirmos

mente-corpo-espírito
filosofia viva
em existência plena

finita-infinita
livre-presa

em vida-morte-vida
na história de toda

natureza.

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Revista eletrônica da Mormaço, editora independente de literatura brasileira contemporânea.

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