Revista Mormaço
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Revista Mormaço

Um mapa para escrever a vertigem com os próprios dentes

Photo by Denny Müller on Unsplash

O espelho da tragédia é um espelho automático onde só vemos a nós mesmos.
Mas falo aqui da possibilidade de, dentro de um si próprio, brotar nova imagem refletida do totalmente Outro.

Eu rezo para que nunca deixe de te ver me vendo nos espelhos
Para que as palavras tenham sempre o poder mágico de refletir verdades
Para que se reviva a política de dar vida, no abandono da civilização falida.

Porque espelhos é desenterrar histórias;

É escutar os gritos como se escuta o silêncio;

é fazer dos passos de outrem um retorno a si;

recriar a língua, entrelaçada às entranhas terrestres;

devolver novos nomes aos minérios dessas entranhas;

embeber-se de sangue antigo;

reencontrar eros, a política de dar vida a todes;

escrever a vertigem com os próprios dentes;

apagar as feridas geológicas;

invocar apenas o passado grávido de futuro;

dançar com o inenarrável selvagem das coisas;

saber-se cadáver adiado;

beijar a cicatriz diabólica ardendo ao sol;

reencontrar-se com a estrela colapsada que nos criou;

quebrar as antessalas da solidão;

carimbar brasa em sonhos esquecidos;

respirar o chorume da peste e expelir ossos amanhecidos;

um círculo sem começo nem fim onde cantamos todos com um único rosto desfigurado;

ser o próprio magma que a terra oculta;

esburacar as pupilas e assim findar o suicídio.

Babar todo o horror até formar cataratas em enxame enxugando a solidez do dia vindouro.

Versão adaptada de texto de meu próximo livro de poesia, O livro dos espelhos, a ser lançado em 2022 pelo selo Auroras da Editora Penalux. #dasvozespoesia

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Revista eletrônica da Mormaço, editora independente de literatura brasileira contemporânea.

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