“ANTIGAMENTE O MORRO DESCIA PRA PRAIA. AGORA É A PRAIA QUE SOBE O MORRO”


Madrugada em um fim de semana qualquer, alto do Morro do Vidigal, entre Leblon e São Conrado: no mesmo ponto que traficantes usavam para vender drogas e torturar inimigos, mais de 300 pessoas dançam até o sol surgir na vista livre de toda a orla da zona sul.

A base do morro — Beto Macedo.

Frequentadas por turistas e por jovens de classe média e alta vindos de bairros nobres do Rio, as festas se tornaram sensação depois de consolidada a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

De janeiro de 2012 para cá, o Vidigal, que sempre se destacou entre as favelas cariocas por paisagem exuberante, grau de urbanização e vocação cultural, passou a ser notícia cada vez menos pelas ocorrências policiais e mais pela agenda social e frequência de celebridades — o ex-jogador inglês David Beckham e o rapper americano Kanye West já compraram casas lá, garantem corretores imobiliários locais.

O Vidigal está na moda. Os dois empreendimentos que mais chamam a atenção no morro são o hotel-butique Mirante do Arvrão, que faz um ano em dezembro, e o hostel e bar Da Laje, inaugurados antes da Copa do Mundo.

É neles que são realizadas as festas e os shows mais badalados do morro, que recebem artistas como Selton Mello, Daniel de Oliveira e Lázaro Ramos, e cuja propaganda foi turbinada pela última novela da TV Globo das 21 horas, Em Família, com cenas gravadas em suas varandas. A Casa da Tapioca, vizinha, também é movimentada.

Zeh Pretim (à esquerda), dono de uma das festas mais desejadas do morro.

O apelido Arvrão se deve à árvore grande que resiste sobre o Morro Dois Irmãos em uma área desmatada desde as primeiras décadas do século passado.

O acesso não é nada fácil: é preciso subir a íngreme via principal, o que, nas noites de festa, é feito em vans, carros contratados e mototáxis — que cobram mais caro de quem não é morador (o valor oficial é R$ 2,50; o desavisado paga R$ 10).

“Não é qualquer pessoa que se hospeda aqui. É o turista cool, que tem entre 18 e 35 anos e quer ter uma experiência diferente”, defende Conrado Denton, sócio do Mirante do Arvrão.

O hotel, cuja suíte principal, de paredes de vidro, tem visão panorâmica da orla e vai custar R$ 1 mil na alta temporada — dali é possível apreciar até o Leme, a dez quilômetros de distância — é projeto do arquiteto Hélio Pellegrino, um dos primeiros a investir no Vidigal pós-UPP.

Vista da suíte no hotel Boutique Mirante do Arvrão.

Se Denton veio do Leblon, Fabíola Barroso, sócia do Da Laje, nasceu no Vidigal, e está entusiasmada, após viver o terror da guerra do tráfico que aterrorizou a comunidade entre 2004 e 2006.

Ela cobra diárias mais modestas, em quartos coletivos, e organiza feijoadas com show de MPB com entradas a R$ 30.

A ideia é atrair também o morador do Vidigal, que se intimida com as novidades. “É tudo muito novo, e o desconhecido dá um certo medo”, diz o líder comunitário Marcelo da Silva.

Clássico pagodinho de domingo no Hostel Da Laje.

Foi dessa mistura de morro e asfalto, de samba com festa, que nasceu o Morro em Festa.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.