Te ofende?

Eu sou muito suscetível à aderir problematizações, sempre foi extremamente fácil me convencer de que uma coisa não é muito bacana, é só usar um simples argumento, diga: isso ofende a minoria X por isto ou aquilo, e acabou, eu vou me retirar e pensar sobre aquilo. De que forma ofende? Por que ofende? Será que eu já ofendi alguém assim? E é desta forma que tento modificar os conceitos que tenho, melhorar a convivência com outras pessoas e espero que um dia a sociedade melhore e tudo mais. Mas isso também fez com que eu me afastasse de muita gente que não se esforça muito pra ver o problema dos outros, (e eu já retiro os que não se esforçam pra ver problema algum, já que eu é que me esforço pra não conviver com eles) eu me refiro é a pessoas conscientes, geralmente pertencentes a algum tipo de minoria que resolvem que a minoria dos outros não é tão importante assim ou é algum tipo de exagero.

De ontem pra hoje só se falou em campanha da Vogue com atores photoshopados em amputados para representar atletas paralímpicos e assim promover alguma empatia ou representatividade e impulsionar a venda de ingressos da paralimpíada. Olha, não precisei olhar a foto mais de 2 segundos pra pensar “aí não”, eu pensei por meio segundo que se fosse a minha minoria e tivessem fotoshopado minha “diferença” num ator padrão eu não ia achar nada bacana, porque eu aprendi umas coisas muito bacanas nos últimos anos, uma delas é representatividade.

Ok, e que isso significa? Seguindo o exemplo da campanha, cujo o argumento para existir era dar visibilidade aos atletas paralímpicos, e que segundo a Vogue os próprios atletas que tiveram suas deficiências representadas estavam com os atores na hora do ensaio a primeira pergunta que me vem é: E por que não foram eles os fotografados? Por que vocês não os tornaram mais VISÍVEIS colocando-os em um puta ensaio que a Vogue é mega capaz de produzir? Seria muito mais representativo para todos que possuem alguma deficiência ver que seus corpos são igualmente lindos e podem ser VISTOS por todos. Um ator e uma atriz bonitos e com corpos lindamente padronizados não representam nem 95% da população, por que representaria os deficientes?

Até ali foi, meia olhada pra foto e a maior parte dos meus amigos percebeu que não era lá muito legal e viu algum problema, mas aí aconteceu outra coisa muito doida, o “será que não é exagero?”. Essa segunda me deu um susto, confesso. Não esperava que meus amigos inteligentes e problematizadores de tantas coisas estavam achando um exagero. O assunto está sendo muito falado? Sim. Mas quantas vezes no ano se fala em deficientes? cri cri. Ah ta, não se fala, né? Pipoca uma história ou outra de superação que nem admirar o a pessoa a gente admira, só serve pra um choro rápido e pra dizer pro seu filho que ele tem todos os membros e não faz nada. Então tem mais é que falar, tem que levar pra mais e mais pessoas que deficientes possuem sua própria voz e se dermos lugar de fala podemos aprender o que é que estamos fazendo e que os ofende.

Esse assunto sendo muito debatido e as reações estranhas me fizeram lembrar algumas coisas no mínimo curiosas que tenho ouvido ultimamente, amigos que pertencem a uma minoria mas acham que os problemas da outra são exagero, atleta gay que “não entende” que suas piadas são racistas, negros que não gostam de “viadagem”, feminista dizendo que defender o direito de mulher trans é defender “macho”, mulheres trans dizendo que são mulheres completas mas não passam pelo horror nojento que é a menstruação. Ou seja, as minorias sofrem com suas próprias lutas e tentam explica-la aos outros mas não se importa com a luta dos outros. Deveria haver uma união nesse sofrimento, deveria haver no mínimo uma solidariedade com a dificuldade em expor sua causa e invés disso as pessoas não estão se dando ao trabalho. Não estão fazendo nenhuma questão de entender o problema do outro, a luta do outro, e continuam bradando sua própria causa, e reclamando que ninguém escuta… e o ciclo continua.