Uma manifestação masculina do mal

Texto crítico para The Hitch-Hiker (1953), de Ida Lupino

Por Ailton Monteiro*

O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953)

Em um ano em que pudemos conferir, por olhos masculinos, a ascensão do mal na sociedade no evento audiovisual Twin Peaks — O Retorno, de David Lynch e Mark Frost, que expõe atos terríveis praticados por homens principalmente às mulheres, numa visão triste e pessimista da crescente violência que bateu à nossa porta, é no mínimo curioso, no calor deste 2017 (ano em que tantas questões de cunho social surgiram), poder (re)ver e pensar um filme de Ida Lupino, a mais importante diretora de cinema da velha Hollywood, num trabalho que trata justamente da violência masculina.

Lupino, atriz que esteve em alta no auge do film noir em trabalhos como Seu Último Refúgio (1941), de Raoul Walsh, e Cinzas Que Queimam (1951), de Nicholas Ray, construiu uma sólida carreira como diretora em mais de 40 títulos, entre longas-metragens e episódios para séries de televisão. O filme aqui em discussão é The Hitch-Hiker, que no Brasil recebeu o desagradável título O Mundo Odeia-me (1953).

Depois de quatro filmes protagonizados por mulheres, Lupino corroteiriza e dirige seu primeiro trabalho com protagonistas homens. Quase não há mulheres em cena em O Mundo Odeia-me. O que vemos é principalmente um estudo tenso em torno de três homens, com direito a muitos close-ups e aproximações de câmera dos rostos masculinos. A primeira aproximação do rosto do criminoso pela câmera é inesquecível: depois de revelada a arma na mão em rápidas sequências de campo e contracampo dentro do carro, a câmera se move até o personagem, que sai da escuridão para a luz, no belo trabalho de direção de fotografia de Nicholas Musuruca (o mesmo de Fuga ao Passado e Sangue de Pantera).

O Mundo Odeia-me é baseado no caso real de um serial killer, William Cook, que matou seis pessoas que lhe deram carona nos Estados Unidos e no México em 1950. Depois de capturado, Cook foi condenado à morte pela justiça americana e enviado à câmara de gás, três meses antes do lançamento do filme de Lupino.

O nome do psicopata é mudado no filme, assim como seu destino final. Na versão cinematográfica, o criminoso se chama Emmett Myers (William Talman) e possui uma característica física curiosa: devido a uma pálpebra que não fecha, ele permanece com um dos olhos sempre aberto, elemento muito bem utilizado em uma tensa cena de tentativa de fuga.

Na trama, dois amigos, Roy Collins (Edmond O’Brien) e Gilbert Bowen (Frank Lovejoy), viajam para pescar em uma cidade litorânea distante de seus lares, dando a entender que aquela viagem seria uma espécie de fuga do ambiente doméstico. No caminho, perto da fronteira do México, resolvem dar carona a um sujeito que parecia estar com o carro sem gasolina. Logo descobrem, porém, que o homem não é nada amistoso e apresenta uma arma apontada para eles no banco de trás do carro. Os dois homens ajudarão o psicopata a chegar a seu destino, mas ambos não sabem se sairão vivos dessa jornada.

Um dos aspectos mais admiráveis de O Mundo Odeia-me é a narrativa dinâmica, que em apenas 70 minutos de filme é capaz de mexer com os nervos do espectador, trazendo um clima de tensão que não envelheceu nada com o passar dos anos. Bastam sete minutos iniciais para que a situação (o assassino se revelando de imediato no banco de trás do carro e o aprisionamento dos dois homens àquele sujeito) já se estabeleça.

O modo como Myers, o psicopata, é apresentado, do ponto de vista físico, o aproxima de um monstro, em certo sentido, ainda que um pouco disso se dê através de uma deformidade genética: o fato de Myers não conseguir fechar um dos olhos. Myers é resquício da visão dos psicopatas apresentados no cinema nas décadas de 1940, mais masculinos, diferente de um Norman Bates e seu apego com a mãe (ainda que morta), vagamente efeminado e com certa fragilidade física, passando a impressão de ser inofensivo, em Psicose (1960), de Alfred Hitchcock.

Myers é um homem que faz questão de mostrar sua masculinidade, sua crueldade e sua total falta de respeito às leis e às instituições, embora encare a busca dos homens por outras mulheres como fraqueza. Possui fascinação pela própria arma, sempre apontada para os dois reféns, noite e dia, e quase sempre olhando para ela, como fascinado pelo próprio pênis (ou por outro pênis que carrega). Aprecia jogos de sadismo, como o do tiro ao alvo com o rifle e uma latinha, e diverte-se com a crescente perda de controle psicológico das duas vítimas.

Lupino também faz um estudo da amizade dos dois homens, embora não tão terno quanto os bromances dos filmes de Howard Hawks, cineasta contemporâneo da diretora. A amizade masculina de Collins e Bowen contrasta com a preferência de viver longe da sociedade de Myers, de sua maneira de ver a vida como algo a ser roubado, pois presente nenhum jamais lhe foi dado. Eis, aliás, um dos motivos da criação do título brasileiro, que parece querer mostrar um pouco de solidariedade ao vilão, uma tarefa até difícil de alimentar, levando em consideração personagem tão execrável. Que o digam Collins e Bowen, que passaram dias ao lado de uma pessoa que pode ser vista como uma das mais terríveis manifestações do mal.

* Ailton Monteiro é mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará, tendo encerrado o curso com a dissertação A construção da personagem sinha Vitória na tradução de Vidas Secas para as telas. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). Mantém o blog Diário de um Cinéfilo desde 2002 e contribui também com críticas para o site Pipoca Moderna.