Jornada Ímpar e como criar uma comunidade

Como foi a experiência de juntar pessoas instigadas a criar o novo e a impactar positivamente o mundo a partir de ferramentas transformadoras que venho aplicando no meu trabalho.

“Cada um tem seus milagres para insistir”. Li no instagram um dia desses e não poderia me identificar mais. Talvez seja um pouco ousado criar uma jornada que mistura de Teoria U à Comunicação Não Violenta, de Design de projetos e futuros a autoconhecimento (dentre outras cositas más), falar de transição e inovação em tempos de crise, se propor a criar não só um curso, mas também uma comunidade. Talvez seja necessária uma dose de loucura para insistir em seus milagres, e para espalhar coragem para outras loucuras compartilhamos aqui os aprendizados e os ganhos de viver esse milagre que tem valido muito a pena.

Cada vivência que a gente cria tem uma cara, um formato, uma característica marcante e essa turma de BH nos proporcionou grandes aprendizados sobre comunidade e amor. Há muito percebi que o mais importante de qualquer vivência de aprendizado não é só o conteúdo em si e sim a experiência. São experiências que nos transformam. E ainda, vivemos em tempos de abundância de informação e escassez de relação, por isso o que mais precisamos é criar encontros que nos transformam e não só vivências que nos informam. Esse é o grande poder do movimento Transition Towns (Cidades em Transição) que nasceu na Inglaterra e estamos trazendo para o Brasil: criar comunidades engajadas em endereçar grandes desafios globais e fazer a transição para modelos mais conscientes a partir de iniciativas locais.

Ao contrário do que por muito tempo insistimos em acreditar através de anos de romantismo, encontros transformadores não acontecem por sorte ou acaso. Como diria Erich Fromm em A arte de amar, o amor não é uma reação espontânea, emocional e irresistível. Ele é resultado de vontade, e comunidades só se formam quando cria-se o espaço para que as pessoas se comuniquem a partir do centro de suas essências. Comunidades são formadas quando existe espaço para o amor. Mas o que aprendemos sobre criar uma comunidade? Compartilhamos aqui as 3 principais lições que aprendemos sobre amor e comunidade com nossa turma de BH!

Espaço para ser

A qualidade do nosso pensamento e da nossa entrega depende das condições que nosso ambiente nos oferece para pensar e ser quem somos. E só conseguimos criar um bom ambiente para que as pessoas sejam quando desistimos de consertar o que é diferente de nós e do esperado. Como na natureza, existem os que saem para caçar, os que cuidam dos filhotes, os que sobem em árvores… Em comunidades também é isso que acontece, e ao tentar “consertar” a natureza que é em si diversa para que caiba nas nossas expectativas, poderíamos perder a chance de deixar emergir algo genuíno desse grupo.

Criar um espaço para pensar é ter certeza que a mente que formula a pergunta tem dentro de si a resposta. É ter a certeza que o ser humano é inteligente, amoroso, talentoso e assertivo. É aceitar que alguns se engajam mais e outros menos, e alguns têm um papel e alguns tem outro. É ter a humildade de que nós não temos todas as respostas, a perspicácia de saber formular as perguntas, a paciência para respeitar o tempo e a essência do outro e o amor para acolher as diferenças.

Algumas ferramentas que nos ajudam a ter e dar espaço para ser:

Energia e conexão

Com o desenvolvimento da ciência quântica, os cientistas confirmaram o que muita gente já sabia: tudo é feito de energia. Ou seja, a matéria, ou aquilo que é visto por nós, é parte de uma rede de conexões que apesar de não ser vista tem ainda mais importância que aquilo que podemos tocar.

“O fato é que energia é comunicação e nós vibramos e transmitimos como um rádio. Estamos transmitindo quem somos no campo e alteramos o que está acontecendo o tempo todo. E isso está além da linguagem, é uma comunicação que não tem nada a ver com palavras.” Bruce Lipton

Se queremos criar comunidades transformadoras, mais importante que o conteúdo e as informações que trazemos a tona, está a criação de um campo de energia e conexão entre as pessoas. Hoje, ouso dizer que aquilo que compartilhamos com o outro seja em um processo de aprendizagem ou em qualquer relação, só terá significado se a pessoa tiver criado um campo de conexão propício comigo e com o que estou falando. Caso contrário, ela se manterá no nível de download (só escuta o que quer) ou no máximo de debate (identifica novos fatos, mas não se abre para ser transformado).

“ A ênfase no pensamento nos levou a formulação de dogmas, discussões sem fim, a tentativa de encontrar a verdade somente no pensamento. Quando entendemos que o pensamento correto não é a salvação, a ênfase não é mais no pensar e sim no agir, na transformação e na tolerância” Erich Fromm

Nessa jornada percebemos que engajamos pessoas com conteúdos de vanguarda sim, mas também com sentimento. Engajamos com informação e mais ainda com ação. Percebemos as coisas extraordinárias que acontecem quando um grupo de pessoas se encontra e se envolve em um projeto colaborativo e tem o ambiente para que possa de fato se abrir e colaborar.

Algumas ferramentas que nos ajudam a ter e dar espaço para conexão:

Trocar, trocar, trocar

Criar uma comunidade definitivamente não é só sobre falar, é também ouvir. Em BH aprendemos que nosso papel não é só falar e transmitir conhecimento, como também criar um ambiente propício para troca de conhecimentos e experiências. É saber a hora de falar, mas também de ouvir o grupo e mudar de ideia no meio a partir do que emerge. Vimos na prática, o quanto ferramentas de comunicação autêntica são poderosos para criar espaço para trocas entre nós e também entre eles. E finalmente, percebemos que precisamos nos manter conscientes e despertos para criar relações não de dependência ou independência, e sim de interdependência.

Em relações de dependência buscamos nos outros preenchimento das nossas necessidades emocionais e por isso exigimos algo do outro que nós mesmos não sabemos que nos falta. Quando nos reunimos em comunidades e criamos relações de dependência, não conseguimos nos abrir para doar e colaborar porque estamos tentando sugar e preencher algo em nós, mesmo que em um nível sutil. Grupos neste nível possuem uma orientação exploradora, e nesse caso doar é abrir mão de algo, é uma forma de perder. Por isso competimos, discutimos e não colaboramos com algo maior que nós.

Quando estamos independentes conseguimos trabalhar muito bem de forma autônoma e individual porque não estamos carentes e temos nossas necessidades supridas, mas ainda não estamos necessariamente prontos para dar o que está vivo em nós.

Em relações de interdependência os indivíduos conseguem se manter inteiros e entendem que dar algo é expressar sua potência, é uma forma de se sentir vivo. Nessas relações doamos sem medo de perder algo, e entendemos que ao refletir nosso melhor no outro,recebemos algo de volta. Estamos juntos não porque precisamos, mas porque juntos criamos um sistema dinâmico em que crescemos e evoluímos mais que separados. É nesse nível de relação que paramos de buscar alguém que caiba nas nossas expectativas, e conseguimos criar relações e comunicação ganha ganha.

Algumas ferramentas que nos ajudam a ter e dar espaço para troca:

“Cada um tem seus milagres para insistir”, e nessa semana agradecemos a cada um de vocês que nos mostrou que vale a pena. Obrigada Thayana, Pedro, Guilherme Melo, Guilherme Romano, Cecilia, Tom, Bia, Paulete, Débora, Kali, Kakaw, Cayano, Ana, Dani, José Victor! Vamos juntos que nossa comunidade está só começando!