Crespo e Cuca seguem ignorando ciclistas e regredindo estrutura cicloviária
Poucos dias depois do Dia Nacional do Ciclista (19/08), a prefeitura de Sorocaba anuncia novo retrocesso com a remoção da ciclofaixa de lazer da Afonso Vergueiro. O Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana de Sorocaba, no entanto, prevê a construção de ciclovia no local, que sequer foi mencionada.

A ignorância ativa, isto é, o esforço de não querer escutar ou saber de algo parece ser uma das tônicas da atual gestão da prefeitura quando se trata de mobilidade ativa. Seja ao não querer ouvir os munícipes, como no caso do protesto na Paes de Linhares, seja ao ignorar as leis que regem o ordenamento urbano da cidade, como o PDTUM — Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana de Sorocaba (lei 11.319/16) — a negligência, a cada nova decisão unilateral, se consolida.
Ignorando Ciclistas
Segundo dados da reportagem do jornal Cruzeiro do Sul, foram contados pela URBES “apenas” 145 ciclistas, em 5 horas no dia de menor movimento! Ora, 145 pessoas, em 5 horas, usando uma ciclofaixa temporária que não está conectada a quase nada, nos parece algo muito expressivo. No dia mais cheio, foram contados 275 ciclistas. A pesquisa foi feita em fevereiro desse ano.
“Esta quantidade de público vem caindo ainda mais até o momento”, agrava o Cruzeiro do Sul. Essa queda, no entanto, parece ser resultado natural da variação das estações. Estamos no inverno. Conforme esfria, menos pessoas pedalam a lazer em razão do conforto térmico. Quem pedala por esporte ou a trabalho segue pedalando. Quem só usa carro, ou só conversa com quem usa carro, dificilmente vai lembrar/saber disso.
Se mal conectada e temporária já contamos com 145 pessoas, imagine se a ciclofaixa de lazer fosse mais longa, integrada a vários pontos, com paraciclos e bibicletários no comércio da região, chegando ao Shopping Sorocaba, ou melhor ainda: se seguisse até o fim da Afonso Vergueiro unindo a General Carneiro.
Crespo-Cuca sequer falam dessas possibilidades: nem ouvem, nem parecem querer ouvir. Seguem uma agenda oculta de desmonte, priorizando os carros e colocando em risco crianças e idosos. Sim, crianças e idosos! Temos, como movimento, obrigação de elucidar o imaginário comum esclarecendo que quem pedala não é só o homem atlético ciclista experiente, mas também a criança, o idoso, a mulher, o estudante, o ciclista iniciante. Cadeirantes também usam ciclovia e ciclofaixa porque a calçada é uma porcaria. A cidade é diversa, os usuários das ciclovias são diversos. Retirar a ciclofaixa e sugerir que ciclistas compartilhem espaço com caminhões, ônibus, motos e carros, numa via como a Afonso Vergueiro, é um absurdo.
Se 145 pessoas é pouco para a URBES/prefeitura, qual seria então o número esperado? Quanto é pouco? Está longe ou perto da meta? Qual é a meta? O que fazer para alcançá-la? Qual é a estratégia alternativa à remoção?
Diversos estudos e grupos de ciclistas sabem e reiteram que é por meio do adensamento da malha e do número de conexões que se aumenta o número de ciclistas. Em termos para fácil memorização: [boa] estrutura induz demanda. Não o contrário.
As perguntas que temos, seguem ampliando:
- Como aumentar a demanda?
- Qual o perfil dos usuários da ciclofaixa de lazer da Afonso Vergueiro?
- Como eles se diferenciam de outras regiões?
- Existe algum grupo organizado de ciclistas que pode ajudar a refinar nosso
olhar?
- Por que não aplicar uma pesquisa qualitativa?
- Por que o uso caiu desde fevereiro? Será mesmo o clima?
- O modelo atual de mobilidade é sustentável ou devemos estimular MESMO a mobilidade ativa? Como fazer para transformar mais motoristas em ciclistas? Remover ciclofaixas ajuda ou atrapalha nessa meta?
Enfim, eles acharam 145 pouco e decidiram, do palácio, retirar mais uma ciclofaixa. Antes tivessem a coerência de pegar uma bicicleta e testar os efeitos das suas decisões no próprio corpo, experimentando a cidade que eles estão inventando sozinhos.
Ignorando o PDTUM — Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade
Para seguir obtendo recursos do governo federal, os municipios brasileiros têm que fazer seus planos diretores, que é o projeto de lei que procura direcionar os investimentos nas próximas décadas do município, deixando os cidadãos menos reféns das vontades pessoais dos sucessivos prefeitos, secretários e gestores.
No caso, é preciso fazer também um plano diretor específico para a questão da mobilidade. Nessa toada, foi contratada a empresa Logit para realizar o levantamento, análise e proposição de ações para a mobilidade de Sorocaba.
Nele, a lei 11.319/16, prevê a expansão (e não a retração) da malha cicloviária de Sorocaba. Vale a pena a consulta: lá constam metas de curto, médio e longo prazo para a cidade. É do ano passado, mas parece que já foi esquecido.

A falta de conectividade está indicada pela imagem e texto da Logit no PDTUM. No caso, em escala macro, mas devemos pensá-la também na escala micro: quais pontos a ciclofaixa de lazer da Afonso Vergueiro ligava? Se poucos, o caminho é dar maior sentido e utilidade para essa estrutura, ampliando as conexões e a segurança.
“A proposta de extensão da rede prevê a melhoria da conectividade; a provisão de algum tipo de infraestrutura cicloviária ao longo dos Corredores de BRT e BRS; o atendimento de pontos de interesse: Áreas de Transferência e Terminais, Estações de IntegraBike, concentrações de escolas, concentrações de empregos, Corredores de BRT (Norte-Sul e Leste-Oeste), Macrozonas com maior densidade populacional e menor renda e a implantação de ciclovias nas novas avenidas a serem abertas ou reformadas.” (pág. 74 do PDTUM)
Curiosamente e tristemente, no plano consta como proposta da Urbes a construção de uma ciclovia na Afonso Vergueiro, a longo prazo, mas que sequer foi mencionada.

Ignorância na remoção da Paes de Linhares
A ciclofaixa da Paes de Linhares foi removida apesar de estar prevista sua continuidade no PDTUM. Vale lembrar que o trecho era a única conexão segura para ciclistas [crianças, idosos e adultos] com as ciclovias da Av. Ipanema e Itavuvu.

Em resposta ao Jornal Z Norte, a Urbes afirma que removeu a ciclofaixa da Paes de Linhares “para melhorias nas condições de segurança dos ciclistas [crianças, idosos, adultos]” e lembra que o CTB (Código de Trânsito Brasileiro) “permite o trânsito de bicicletas no bordos […] compartilhando o mesmo espaço com ônibus, caminhões, automóveis e motocicletas".
Você consegue imaginar criança, idosos e ciclistas pouco experientes compartilhando a via com ônibus, caminhões, automóveis e motocicletas? É isso que a prefeitura está obrigando os cidadãos a fazer. E chama isso de “melhorias nas condições de segurança”
Curiosidade: IntegraBike com mais de 50 estações

No PDTUM, está prevista a expansão da rede do IntegraBike, de 19 para 54 estações para empréstimo de bicicletas. O pensamento lógico e empírico que conduz essa estratégia é estrutura induz demanda. Sabe quantas estações a atual gestão pretende implementar? Não sabe? A gente também não. Até agora, não houve diálogo.

