O avesso do escada.

Um manifesto pelo fim da indignação seletiva.

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Sempre fui fã de humor. Adorava assistir Os Trapalhões, mas sempre me incomodou muito a presença de Dedé entre os quatro. Mussum era um gênio, Zacarias se tornou um personagem conhecido até hoje, mesmo por quem não acompanhou o período de atividade do programa e Didi, embora não tão engraçado, era o protagonista da atração. Dedé não era engraçado. Dedé não parecia relevante. Então por que ele estava ali? Naquela época eu não sabia, mas Dedé era fundamental para a dinâmica do show. Ele era o humorista-escada, e um dos melhores de todos os tempos. O escada é o ator coadjuvante do humor. Ele não faz piada, ele é a piada. Ou então ele é o cara que prepara a piada. O humorista-escada existe em cena para dar a deixa que permite que o protagonista brilhe. Não funcionaria sem ele, não da mesma forma.

“Mas o que isso tem a ver com o Flamengo?”, você deve estar se perguntando…

A função do humorista-escada levanta uma questão muito pertinente em relação ao cenário que vemos atualmente no Flamengo. Não, nós não temos um Dedé Santana, mas também temos o nosso escada em cena: Márcio Araújo é o sujeito que existe para que nossos protagonistas não brilhem. Ele é o avesso do escada. E embora isso pareça absurdo — porque como pode um jogador drenar o talento de outros 10 se ele não for um X-Men? — nesse momento provavelmente existe alguém defendendo essa teoria de forma ferrenha pela internet. Márcio Araújo não ajuda, só atrapalha. É a âncora de um barco que parece estar pronto para navegar em mares calmos.

Um dos muitos exemplos dessa teoria é William Arão, mais sumido que salário de servidor público do Rio de Janeiro. Há quem insista que é Márcio Araújo que impede que Arão desempenhe seu melhor futebol, aquele que nós só vimos no início do primeiro semestre. Do jogador outrora cogitado na seleção brasileira sobrou nome, cabelo e lembranças. Arão dá mostras de que não desenvolve bem em situações de pressão, parece mal fisicamente, bem abaixo do restante do elenco, e participa cada vez menos das partidas, mas isso não é um problema dele. O problema dele — e de todos nós — chama-se Márcio Araújo. E o que dizer de Rafael Vaz, nosso zagueiro pero no mucho? O melhor e único representante da classe do zagueiro-centroavante-quase-cabeça-de-área insiste em sair jogando com chutões que nunca atingem o alvo, mas a gente perdoa. O que ele vai fazer, afinal? Tocar no Márcio Araújo? Nunca. Melhor dar a bola no peito do zagueiro adversário. E é óbvio que todo contra-ataque o encontra adiantado, porque alguém precisa vigiar e proteger o nosso volante. Os zagueiros pararam no lance, marcaram bola ou bateram cabeça? Pff… Márcio Araújo. O lateral deixou uma avenida para o adversário jogar? Você sabe de quem é a culpa…

Mas pior do que ofuscar a falta de brilho dos companheiros, o nosso roto-rooter de talentos ainda concentra em si todo ódio da torcida na internet, para a alegria de quem está acima dele.

Márcio Araújo também se tornou um bunker da mediocridade no Flamengo. Ironicamente, a única coisa que ele não protege é a nossa defesa. Enquanto ele monopoliza os assuntos das redes sociais rubro-negras nesse fim de ano agindo como um para-raios de ódio, tudo de errado que os nossos dirigentes fizeram parece esquecido. Começamos a principal competição do ano sem zagueiros. Promovemos um garoto da base às pressas e retiramos das férias um atleta que naquele momento já era praticamente um ex-atleta do clube para uma partida, ou não teríamos uma dupla de zagueiros aptos para um jogo e não questionamos Rodrigo Caetano, que segue intocável e inexplicável. Caetano também é um dos responsáveis por termos Chiquinho como reserva imediato em uma posição fundamental. Eu acredito que o Chiquinho seja um cara de muitos talentos, mas o futebol obviamente não é um deles. Não deu certo no Atlético Mineiro, no Corinthians, no Fluminense e no Santos, o que poderia dar errado por aqui? Tem também o Godinho, o porta-voz oficial das boas. E que tal viajar o país inteiro enquanto disputa cinco competições em um ano sem definir uma casa oficialmente? Se você acha má ideia é melhor se preparar, porque enquanto discutimos uma possível renovação do nosso volante-problema, Bandeira dá sinais de que não tem nenhum plano B ao Maracanã (por favor, que eu esteja errado…) porque o Maracanã não sobrevive sem o Flamengo. Tudo bem, o governo do Rio está realmente preocupado com isso.

O que me incomoda é a mediocridade, o pensar pequeno. Márcio Araújo é final, não início. É o símbolo de uma gestão que coleciona erros no âmbito esportivo que vem nos custando muito caro ano após ano. Ao que tudo indica, terminaremos mais uma temporada sem títulos, e apesar da melhora na reta final, apresentamos muito pouco para tudo que fora projetado. O nosso “ano mágico” é logo ali, mas olhando para o Flamengo de hoje é difícil não reagir a isso com um sonoro você está de sacanagem, certo? A possível renovação do Márcio Araújo é um claro sinal de que entra ano, sai ano, nossos dirigentes continuam sem aprender com os próprios erros. Márcio Araújo não deveria ficar, o Flamengo merece muito mais. Mas esse muito mais também significa começar o ano com um elenco pronto, um estádio para chamar de nosso e evitar uma série de viagens, um planejamento bem feito de quais competições serão importantes para o clube no ano e quais competições poderão desprezar. Não podemos diminuir o estadual e valorizar a liga, na reta final dos dois priorizar o estadual em detrimento da liga e terminar sem o título tanto no estadual quanto na liga. Menos uma competição para jogar vai ser sempre a consequência de falta de planejamento e de pensamentos pequenos.

Márcio Araújo é um problema, não o problema. É o menor deles. O ano que vem vai ser melhor, mas os erros se repetem e fica a sensação de que o único planejamento feito é um “faz aí e vamos ver no que dá”. Não pode dar certo. E quando nada dá certo, o caminho mais fácil é procurar um culpado. Nossa indignação seletiva não nos permite ver que se o inescrutável volante é problema, quem o contratou e quem o mantém no elenco é o causador. Ninguém está sob tortura para mantê-lo. Se não direcionarmos o foco para todos os problemas — e eles são muitos, time nenhum termina o ano com cinco eliminações e saldo positivo — terminaremos o ano que vem elegendo um novo escada ao contrário, ou talvez odiando o mesmo (pelo andar da carruagem…) e ignorando que alguém é muito bem pago para montar um “elenco forte” com ele, Gabriel, Damião, Emerson Sheik, Fernandinho, Chiquinho… Melhor eu parar por aqui. Mas essa pessoa (ou essas pessoas) vai continuar atuando sob a proteção do bunker que a nossa indignação seletiva vem criando.

Texto por Felipe Oliveira.
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