Castração

Eu estava com amigos, que se reuniram para comemorar o Dia de Reis e fazer a simpatia da romã, quando um deles resolve me contar algumas peculiaridades sobre suas vizinhas. Ele é o tipo de cara que as mulheres se sentem à vontade para conversar sobre assuntos de caráter íntimo, seja no campo da sexualidade, seja no dos relacionamentos.

Desprendido de machismo ou mau-caratismo, é o tipo “gay‐na‐medida”(termo de Mirian Gondenberg), gênero masculino com alma feminina.

Ou seja, ele consegue se colocar no lugar das mulheres sem ferir sua masculinidade (palmas) e, para nosso deleite, nos contar a versão da história do ponto de vista dos homens. Esse é o amigo que toda mulher deveria ter porque fala abertamente sobre certos assuntos e diz na lata o que pensa. Por vezes dá uma chamada e manda a gente parar de mimimi, outras dá uma levantada no nosso astral sem canalhice.

E depois de contextualizar, vamos ao assunto do dia: ORGASMO. Esse amigo estava me relatando uma história sobre uma amiga dele de 27 anos que nunca teve um orgasmo. Segundo ele, a moça é bonita, formada em faculdade bacana, trabalha e ainda vive a pressão de fazer a vontade dos homens na hora do sexo sem se importar com a sua. “Ela é virgem na cabeça”, disse. Ouvi aquilo tudo atentamente e pensei como é triste ainda vermos mulheres nos dias atuais que não se descobrem, ou não se deixam descobrir. Vivem as agruras de padrões de comportamento pré-estabelecidos. “Essa moça não é virgem”, discordo, “ela é castrada”.

Penso que muitas mulheres solteiras independentes também vivem o mesmo problema. A começar que somos mal representadas na TV, onde mulheres solteiras são aquelas que foram deixadas ou abandonadas.

Cria‐se o imaginário de impotência, desvalorização, vitimização. Muitas interiorizam essa ideia e se sentem menores, frágeis, coitadas. Qualquer coisa é motivo para o sentimento de derrota: aumento de peso, fora do ex, beleza fora do padrão. Socorro.

Seguimos a vida com receio dos outros, pensando que ainda existe “mulher que é para casar”, ou mulher “que é só pra pegar” — ou “para o crime”, como disse uma aluna. Crime? Buscar prazer virou crime? Alô polícia, prendam-me! Vivemos dicotomias diárias: sagrado e profano, vagabunda e santa, casamento e putaria. Ora, ora… não seria bom ter uma esposa vagabunda que goste de putaria, rapazes?!

Em pleno século 21, me deparo com a história da moça classe média alta da Zona Sul do Rio de Janeiro, castrada pelas instituições, pelo moralismo, pelos homens babacas que ela teve o desprazer de encontrar pela vida. A moça vive sem reagir. Aliás, a meu ver, ela não vive, sobrevive. Segue seu rumo sem conhecer parte de si mesma, uma parte tão importante que explica o todo: ser mulher.