Mini manual de como identificar o machismo no trampo

Certo dia no trabalho, em uma das reuniões que nós mulheres da Tecnologia fazemos com frequência, uma das meninas perguntou: "Sei lá, tem várias atitudes que eu não encaro como machistas, mas podem ser né? Como consigo identificar isso?". E eu nunca havia parado para pensar, mas apesar de saber que várias atitudes do dia a dia são machistas ainda é um pouco difícil para nós identifica-las e combate-las. Então resolvi reunir aqui algumas que, acredito, são corriqueiras mas podem passar desapercebidas.

  1. O já famoso manterrupting

Bem, digamos que você, moça, esteja em uma reunião e simplesmente não consiga expressar suas ideias, pois é sistematicamente interrompida pelos homens da sala. Manterrupting é a insistência em interromper uma mulher durante seu tempo de fala. Muitas vezes vem disfarçado de falta de educação, mas é uma atitude machista tão enraizada no ambiente de trabalho que muitos nem percebem que fazem e muitas mulheres acham normal. Não, isso não é normal.

2. Mansplaining, ou "O que ela quis dizer foi…"

Em uma reunião de trabalho, você está falando a respeito de um assunto que você domina, sabe de trás pra frente todos os detalhes, é especialista naquilo. Logo após a sua fala, ou lançando mão do combo manterrupting + mansplaining, um homem leigo no assunto tenta explica-lo a você como se estivesse falando com uma criança de 3 anos de idade. Essa é mais uma atitude machista do dia a dia no trampo! Mesmo tendo completo domínio de um assunto as mulheres não são levadas a sério e os homens precisam explicar a uma astronauta os efeitos da gravidade tim tim por tim tim.

3. "Até que você é espertinha hein?"

Esse tipo de frase disfarçada de elogio idiota também é machismo puro. Denota uma surpresa muito grande ao constatar que você, mulher, é muito boa em algo, como se fosse algo muito surpreendente. É como se fosse muito incomum uma mulher ser muito competente no que faz. Diferente disso, elogio seria ouvir "Bom trabalho!" ou "Mandou bem naquela reunião!".

4. "Calma, você tá muito estressada!"

O machismo não está na frase em si, mas sim no sentido que ela ganha. Nós mulheres somos tachadas de loucas, estressadas e mimizentas ao menor sinal de desapontamento com alguma coisa. Além disso, parece que nosso ciclo menstrual é de muito interesse de alguns colegas de trabalho que podem insinuar que nosso humor está intimamente ligado a certo período do mês ("Ih, deve tá de tpm!"). É machismo quando nosso humor é questionado ou justificado (!) pelo fato de estarmos menstruadas, por exemplo. Seu colega de trabalho deve aceitar que talvez você esteja reclamando baseada em fatos e dados muito mais do que levada pura e simplesmente pela emoção/humor.


Essas situações já aconteceram comigo e, sem dúvida, devem existir outras que eu vivencio sem me dar conta de que o machismo está alí. Acredito que temos que treinar o olhar para identificar atitudes que nos inibem de falar mais e tomar crédito pelas boas ideias que temos. O machismo no trabalho só fomenta um ambiente menos criativo e intimidador para todas nós, portanto, nada mais justo do que identifica-lo e acabar com ele, não?

Referências: