[BRASIL] Diário de Bitita, de Carolina de Jesus

“Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”.
Ilustração: camilla muniz

Nunca tinha lido Carolina de Jesus — apesar de estar familiarizada com o
“Quarto de Despejo” e o que significou a produção desta obra tão importante pra literatura nacional. Ao começar o projeto “Mulheres do Mundo”, o nome dela me veio de súbito, mas demorei um tempo pra me decidir realmente a começar por ela. Procurando o Quarto de Despejo, me deparei com esse “Diário de Bitita”. A capa, com uma foto de Carolina bem de perto, curvada sobre uma mesa com lápis na mão, me chamou a atenção. Pensei: “por que não?”. Afinal, talvez seja um equívoco começar a ler alguém a partir da sua grande obra prima, aquela mais conhecida e reverenciada; por isso, o Diário de Bitita pareceu ideal.
O livro conta a vida de Carolina — que só ouviu seu nome pela primeira vez na escola, pois antes sempre foi Bitita –, desde a infância em Sacramento, Minas Gerais, até a fatídica ida a São Paulo que fez nascer o Quarto de Despejo. Em forma de diário, dividido em capítulos curtos que trazem reflexões sobre um tema ou um momento vivido por ela, o livro mistura uma narrativa única a um conjunto de pensamentos e lembranças sobre algo mais específico. Ainda que não seja essa a proposta, seria possível abrir um capítulo e lê-lo sem necessariamente ter lido os outros, mas é na leitura do livro como um todo que se vê o desenho de uma vida que vale a pena conhecer.
De criança espevitada e curiosa que queria saber de tudo e de todos (“todos os
dias havia coisas para entrar na minha cabeça”) à jovem brilhante em busca de um lugar no mundo (“já estava cansada de viver às margens da vida”), o que chama a atenção em Carolina é a inquietação que tem diante da vida e a capacidade de constantemente construir “ideais que sejam combustível da alma”. Morando em uma comunidade rural que sofria fortemente os resquícios da escravidão no início do século XX, sua vida foi marcada pela dureza e pela hostilidade. A curiosidade infantil nem sempre era bem
recebida pela família, que não entendia tamanha necessidade de perguntar sobre tudo o tempo todo. A casa nem sempre era uma constante; as andanças pelo mundo, de cidade em cidade, em busca de teto, comida, trabalho e um pouco de paz, parecem ter tornado Carolina um pouco menos confrontadora mas não menos encantada com o mundo.

“Cheguei à conclusão de que não necessitamos perguntar nada a ninguém. Com o decorrer do tempo vamos tomando conhecimento de tudo”

A dificuldade em conseguir trabalho implicava em nem sempre ter o que comer; a falta de casa significava, muitas vezes, dias sem banho; a impossibilidade de acessar serviços básicos tornava as doenças chagas incansáveis e incuráveis que pareciam apenas retroalimentar um ciclo de violências, de poucas oportunidades e de muita luta. Mas é a fome que parece ser o medidor das agruras de Carolina: seja quando criança, quando “achava o mundo feio e triste, quando estava com fome. Depois que almoçava, achava o mundo belo”, seja já com vinte e poucos anos, andando de cidade em cidade, ao repousar na casa de uma tia em Ribeirão Preto que, por detestá-la, praticamente se nega a dar-lhe alimento, parece que a vida de Carolina vai se construindo nesse duplo movimento ter comida-não ter comida, e sua narrativa escancara estes processos de subhumanização — quando não de desumanização — que cruzavam e construíam muitos de seus caminhos.
Isso porque o livro de Carolina não é “apenas” um diário — como eventualmente algumas pessoas insistem em dizer, colocando-a no rol das “produções confessionais femininas” que “não seriam literatura”. Através da narrativa de Carolina, constrói-se toda uma cartografia de uma época. Da escravidão à Lei Áurea, das falas de Rui Barbosa ao governo de Getúlio Vargas, Carolina vai tecendo a história do Brasil, os processos do racismo, as diferenças sociais e de classe. É um relato vivo, em carne viva, das políticas do país — e o que torna este relato vivo é o fato de não ser exatamente um relato histórico. É através das relações que tem com os outros, na família, na escola, nos trabalhos, na rua, que Carolina monta este mapa-em- movimento: é pelo amor que tem por seu avô, que foi escravo que a contou sobre como a Lei Áurea não foi propriamente a libertação de um povo, mas sim instrumento que jogou às margens os(as) negros(as), que ela descobre que a cor de sua pele retira-lhe possibilidades (“o negro só é livre quando morre”); é pela tia negra, racista, que não quer que sua filha mulata — e não negra — se case com um negro e que detesta a sobrinha que por considerá-la feia e muito negra que ela descobre que suas roupas, seu cabelo, sua cor e o local de onde vem a tornam menor aos olhos de muita gente (“casa de mulato, o negro não entra”); é ao ver um homem acusado de roubar ser arrastado pela polícia enquanto crianças gritam, atrás dele, “fulano roubou!, fulano roubou!” que ela descobre o que significa ser negra aos olhos da polícia e como isso pode — como veio a ocorrer mais tarde — levá-la a ser presa sem nem ao menos saber porquê; é nos inúmeros trabalhos que teve que sente, cotidianamente, como funcionam as relações de raça, de classe e de gênero, sempre sendo explorada, ganhando menos do que o combinado, sendo demitida seja porque ajudou o patrão a abrir seu cofre, seja porque simplesmente os patrões decidiram que não querem mais que ela ocupe um quarto de sua casa.

“Os brancos de agora já estão ficando melhor para os pretos. Agora, eles atiram para amedrontá-los, antigamente atiravam para matá-los”.
“Fui ficando triste. O mundo há de ser sempre assim: negro para aqui, negro, para ali. E Deus gosta mais dos brancos do quedos negros. Os brancos têm casas cobertas com telhas. Se Deus não gosta de nós, por que é que nos fez nascer?”

Ou seja: se, por um lado, a riqueza da narrativa de Carolina reside no fato de ela ser uma narrativa dos afetos, e não histórica, é também neste exato ponto que reside aquilo que há de mais pesado em sua escrita. É constante a sensação de sufocamento, de desespero e desesperança durante a leitura do livro — o que se torna muito mais difícil quando você pensa sobre como é quase patético sentir-se sufocada lendo, no sofá da sua sala, algo que alguém viveu no corpo.
Nesta narrativa, em que o amor se mistura ao sofrimento, a dor se mistura à
esperança e o querer se mistura à vontade de desistir, o modo como Carolina faz alterar momentos bons e momentos ruins funcionam como uma máquina-de- socos-na- cara: mal se teve tempo de sentir a sua dor, já se está sendo contagiado com alguma pequena alegria inocente, quase infantil — e aqui digo infantil no sentido mais produtivo e positivo que é possível, como propõem Deleuze e Guattari quando apontam a necessidade de um devir-criança que não perde jamais a sua capacidade de se reinventar, de se desmontar e de se (re)encantar.

“Minha mãe dizia que as exigências na vida nos obrigam a não escolher os polos. Quem nasce no polo norte, se puder viver melhor no polo sul, então deve viajar para os locais onde a vida seja mais amena”.

Na leitura, é quase como se nos sentíssemos obrigados a resgatar (ou produzir) este devir-criança- em-nós, porque Carolina nos convoca a se deslocar, a se mexer, a se engajar. Em nenhum momento ela está satisfeita — quer sempre mais, deseja sempre mais. Neste movimento, ela põe em xeque esta irritante noção de que as pessoas, quando pobres, devem resignar-se com o que surgir de oportunidade: se tem um trabalho, fique com ele, gostando dele ou não. Carolina manda às favas esta ideia. Se recusa a aceitar qualquer coisa só porque, em muitos momentos, não teve nada. Afinal, por que haveria de aceitar qualquer coisa? Por que haveria de renunciar ao desejo, àquilo que a move no mundo, vivendo “uma vida sem um amanhã promissor”? Quando
ela diz que, para os pobres, é preciso “viver no nosso país como se fôssemos
estrangeiros”, ela aponta, ao mesmo tempo, para as forças que mantêm os pobres e negros marginalizados, e para aquelas outras forças que, no tornar-se estrangeiro, potencializam as possibilidades de experiências: um nomadismo que seja produtor de vida, ainda que signifique sentir na carne, cotidianamente, a impossibilidade de se sentir pertencente àquilo que, por tanto tempo, disseram que era o que era bom.
Pode haver alguém que diga que Carolina é “resiliente”. Eu, particularmente,
não gosto dessa palavra. Ela me parece ter um tom subjetivista demasiado, como se a capacidade de enfrentar o mundo fosse algo que residisse magicamente dentro de uns, mas não de outros — ou como um bilhete premiado que, felizmente, uns hão de encontrar por aí. Pra mim, Carolina também faz solapar essa ideia: não se trata de ser “resiliente”, mas sim de ser. De ser vivo, de estar vivo, de fazer-se vivo nas pequenas coisas e nas grandes dificuldades. Viver apesar de, como diria Clarice Lispector — mas não de um modo resignado, fatalista; viver apesar de produzindo vida a cada instante. Sempre indo além, construindo novos caminhos a traçar, nunca se conformando com aquilo que o mundo te apresenta por saber que, no mundo, você é agente ativo da construção daquilo que se apresenta. Não dá pra dizer que a história de Carolina é triste e nos deixa tristes, assim como não dá pra dizer que ela foi feliz e, por isso, ficamos felizes. Ela viveu — bem, mal, bem e mal, mas viveu. E conseguiu, no fim, encontrar o seu lugar no mundo. Felizmente pra ela e pra todas(os) nós, é um lugar que vai se fazer ver eternamente através das letras e dos papéis.


Ilustração: camilla muniz

Informações sobre a escritora:

Carolina de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 em Sacramento (MG) e morreu em 13 de fevereiro de 1977, em São Paulo (SP)
No site
https://www.vidaporescrito.com/ é possível acessar seu material
biobibliográfico.