Natasha R. Silva
Dec 4, 2017 · 5 min read
Ilustração: Timo Kuilder

Cruzando a Plaza del Callao me pergunto: por que cismei de comprar esse iogurte? Não é tão bom, nem tão barato. Ainda por cima, o vento de 6 graus bate e o iogurte só congela mais. Minhas mãos estão duras, mal consigo mover os dedos. Nunca consegui me acostumar a usar luvas, sinto que fico ainda mais desastrada com elas, mas agora faz falta algo que me proteja do ar cortante. “Tô quase chegando no ponto, dentro do ônibus vai estar mais quentinho” , penso — e aperto o passo.

Meu corpo já começa a se aquecer quando finalmente avisto o letreiro luminoso (147-Barrio del Pilar). O ônibus para, as portas se abrem e, ao me lançar ligeiramente para frente para o interior aquecido desse veículo do primeiro mundo, o motorista me faz um sinal de não. Pega um amendoim, coloca na boca e diz que não posso subir com comida antes de fechar as portas e arrancar em direção a Gran Vía.

Queria sentir raiva, mas ela não chega. Cogito jogar fora o iogurte, só para extravasar minha frustração de maneira física. Ao invés disso, começo a comer o pouco que sobrava bem lentamente, vendo outros 147-Barrio del Pilar abrindo e fechando as portas na minha frente.

Desfruto do tédio sem pressa. Raspo o chocolate congelado no fundo do pote. Reparo em um morango que ainda sobrava e dou uma mordida, sentindo o centro congelado da fruta. Uma dor afiadíssima sai de algum molar esquerdo, me forçando a fechar os olhos.

Ali, no escuro das pálpebras, sinto o calor emanando do chão. É janeiro, é a Avenida das Américas, o asfalto parece que vai se derreter a cada passo. Ando de um lado pro outro enquanto espero o ônibus, já são quase as cinco, vai ficar um trânsito de merda daqui a pouco, deve estar tudo parado lá na Alvorada, se o próximo não parar eu vou pegar qualquer um que vá pra zona sul e lá eu vejo.

Sempre fui muito mais impaciente no silêncio da minha cabeça. Vejo o 382 chegando há uns dois semáforos de distância, não há miopia que me impeça de reconhecer esse letreiro. Me meto na avenida, fazendo sinal quase no meio da pista. Outras quatro pessoas se juntam a mim, ninguém vai deixar esse ônibus ir embora. Não é sempre que isso dá certo, mas dessa vez o motorista se conforma em parar para nós, voltando para a pista da direita e parando até mesmo um pouco antes do ponto.

Me sinto especialmente sortuda quando vejo que há lugar pra sentar. Janela, ainda por cima. Bem do lado que dá pro mar. Coloco o mp3 no modo aleatório, mas vou passando as músicas freneticamente até encontrar alguma que queira ouvir. O trânsito ainda está bom e o ônibus já está quase chegando no túnel do Joá. O motorista decide não acender a luz interior, instintivamente aperto a bolsa com mais força contra o meu colo. Com certeza estamos uns 20 km/h acima da velocidade permitida, mas quem se importa. Todos dentro desse ônibus estão cansados, suados, irritados por diferentes motivos e, principalmente, só querem chegar, seja em casa ou num bar qualquer.

Eu sou do segundo grupo. Só quero umas cervejas no bar do Gerson, seguidas de algumas horas de completa anulação de todas as dúvidas que povoam a minha cabeça. Faltam 15 dias para ir embora daqui, deixar o Rio e a impressão de estagnação para trás. Espero que passe rápido, antes que eu mude de ideia. Em seguida, espero que não passe, que algo mude nesse meio tempo e me faça ficar. E se eu nunca mais sair daqui? E se eu nunca mais voltar? E se tiver trânsito em São Conrado e eu chegar só daqui a três horas? Caralho, anda logo, motorista, corre.

A luz volta a invadir o ônibus e não consigo ver nada por alguns segundos. Pouco a pouco consigo distinguir o brilho da água, as ilhas no fundo do horizonte, as pedras logo abaixo. “Se ele perder o controle agora, o ônibus cai aqui e acabou tudo”, penso.

O vento do mar entra por todas as janelas e um alívio toma conta do meu corpo. A cidade não parece tão hostil assim. O motorista enfia o pé no acelerador. Parece que ele também só quer chegar no ponto final. Consigo ver as pessoas correndo na praia, um homem cortando um coco verde, a cerveja, os meus amigos, a mesa do bar, o barulho ensurdecedor do Centro do Rio. Existe felicidade sem caos? Sei que não. Eu poderia ficar nesse viaduto para sempre. Essa é a minha vista preferida. A moça do banco da frente reclama do vento frio e fecha a janela.

Abro os olhos e estou na calle de Jacometrezo. Um 147-Barrio del Pilar vai surgindo no final da curva. Jogo fora o pouco que sobrou do iogurte, ele não era tão bom assim mesmo. Os dedos continuam duros que nem gelo. Enfio as mãos nos bolsos e espero que o ônibus cumpra a lei, parando bem na minha frente. Nada fora do previsto. Aqui não há caos. Subo e faço um sinal de saudação, mas o motorista não desvia o olhar. Continua encarando o vazio em frente, apertando o botão de fechar portas com um movimento mecânico. O ônibus avança na velocidade certa, sempre respeitando os limites permitidos e para no sinal vermelho. Tudo funciona como tem que funcionar.

Olho para o caminhão que entra na rua pelo sentido contrário e penso: “Se ele não fizer a curva, bate de frente com a gente. E aí acabou tudo”. Olho para o lado, mas nenhum outro passageiro parece estar preocupado com essa possibilidade. Um segundo depois, sinto o impacto.


Para ouvir o podcast que gravamos com Natasha R. Silva, clique aqui!


Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link para conhecer nossa iniciativa!

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Uma conversa entre escritoras.

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