A assertividade das mulheres gostosas

Esse não é mais um texto analisando “Vai malandra”.

Imagem meramente ilustrativa.

Em uma sociedade machista não há um lugar confortável para ser mulher. Os papéis que são destinados ao gênero feminino estão sempre atrelados a uma lógica limitada impondo estereótipos que nada tem a ver com a realidade das mulheres. É assim que a feminilidade se constrói dentro de narrativas estreitas onde ser um tipo de mulher é necessariamente negar (e muitas vezes odiar) um outro tipo de mulher. O exemplo mais óbvio é o contraste entre santas e putas, as mulheres que se dão ao respeito e as que não valem nada, as que são pra casar e as que servem apenas para ser usadas, as que podem ser eventualmente vítimas e as que estão sempre pedindo para ser violadas, as que são frígidas e as que sabem dar prazer.

Essa divisão é uma forma de violência. Nos discursos que reafirmam essa divisão, os desejos e as subjetividades das mulheres não estão em questão, são silenciados, simplesmente não existem. Tanto as santas quanto as putas são criadas apenas a partir do olhar e das expectativas masculinas. Segundo essa lógica, nem as santas e nem as putas gozam, ambas servem exclusivamente ao prazer masculino. Ao mesmo tempo, esses discursos sustentam toda uma série de justificativas para que a vida das mulheres nunca tenha um valor garantido, já que mulher alguma se ajusta perfeitamente aos ideais de feminilidade. É muito fácil deixar de ser santa, basta apenas um risco fora dos dóceis e castos limites.

Mas, se mulher alguma cabe nesses extremos, podemos transitar entre eles de uma forma ativa. Romper com os ideais é também expor que eles não são fixos e indistinguíveis, mas que, entre a complexidade de mulheres reais como Teresa de Ávila e Gabriela Leite, há muitos percursos possíveis em que os desejos e os gozos femininos de fato existem. Como mulher e feminista sei que ainda construímos nossas identidades a partir dessas limitadas oposições e que mais difícil do que questioná-las racionalmente, é contestá-las a partir de nossas próprias expectativas e vivências. Assim, não é raro que até mesmo os discursos feministas caiam nas armadilhas de um mundo que divide e subestima as mulheres.

Uma divisão que muitas vezes compramos como acertada é a ideia de que uma mulher só se coloca assertivamente no mundo quando faz uso do seu intelecto, uma concepção que diminui qualquer mulher que escolhe tirar proveito de sua potência erótica. Sendo feminista, não é difícil recusar a grotesca ideia de que toda mulher que gosta de exibir seu corpo é fútil e que, consequentemente, toda mulher que gosta de ler ou estudar é frígida. Mas ainda parece um desafio reconhecer que há uma assertividade no exibicionismo feminino e, principalmente, que é possível, enquanto mulher, se ocupar de mais de um modo de satisfação, transitando entre desejos e prazeres que são diferentes, mas não são, de maneira alguma, opostos.

uma imagem equivocada vale mais do que mil palavras.

Em uma sociedade que não só é machista, como também é cristã, o moralismo ronda violentamente nossos inconscientes. Dentro dessa lógica, os corpos das mulheres são ao mesmo tempo tabu e objetos de desejo. Então, quando uma mulher adulta deliberadamente escolhe exibir seu corpo e fazer uso da sua sexualidade, tendemos a duvidar das suas intenções. Há quem condene a gratuita vulgaridade, há quem diga que ela só está em busca de atenção ou validação masculina. Afinal, em um mundo treinado para negar o desejo feminino, parece impossível que uma mulher assuma uma postura ativa e goze de seu próprio corpo, sem amarras e medo.

E, sim, é possível que uma mulher reconheça a sua potência erótica (e, sim, uma potência que nessa sociedade é especulativa e capitalizável) e faça uso do seu corpo sem se subjugar apenas ao prazer masculino, porque é também possível se satisfazer com a exibição desse poder. O que algumas pessoas chamam de auto-objetificação pode ser apenas um modo de assertividade, porque se colocar enquanto objeto de desejo e se satisfazer com isso não é de modo algum se reduzir a um objeto ou acolher uma posição exclusivamente passiva. É claro que esse é um debate muito mais complexo, principalmente quando envolve a formação da sexualidade de meninas e garotas. No entanto, acredito que não duvidar da agência e da autonomia de mulheres adultas sobre seus próprios corpos é um passo fundamental para aprofundar essas questões.

Ainda mais fundamental é não esquecer que enquanto acreditamos que uma mulher só pode gozar de um modo de estar no mundo ainda estamos reafirmando discursos que restringem nossas potências. Enquanto mulheres vivendo entre limites, é uma árdua e vital missão nos reconciliarmos com nós mesmas, aproximando essas supostas oposições em caminhos menos estreitos. Só assim, transitando e desbravando outras formas de assertividade e satisfação, podemos ser inteiramente quem desejamos ser.


Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link para conhecer nossa iniciativa!
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