A escrita como um caminho

Arquitetura e Urbanismo. No vestibular foi essa a minha opção marcada. Essa área do conhecimento nem lá nem cá. Nem humanas, nem exatas. Ciências Sociais Aplicadas. Nas provas de vestibular que fiz, em um dia e para uma Universidade as disciplinas específicas eram Física e Matemática, no outro dia e para outra Universidade Geografia e História, em uma terceira Matemática e História, ou seja, a gente “precisava” saber tudo ou de tudo um pouco. E ainda tinha o tal Teste de Habilidade Especifica, que dizia que eu deveria saber desenhar uma coisa ou outra. Mas isso já faz mais de sete anos e, você deve estar se perguntando o que eu estou fazendo aqui escrevendo. Bom, isso é só um pouco de mim, então, ainda tem mais pela frente. Olá, muito prazer!

Durante a graduação o discurso se manteve: pra ser uma boa profissional, eu teria que saber um pouco de tudo. Estrutura, forma, desenho, detalhamento, modelos de cidade, projeto urbano, projeto arquitetônico, meio ambiente, teoria, história… Em algum momento eu entendi que, de fato, se eu quisesse ter a possibilidade de trabalhar com qualquer área deste imenso campo de conhecimento ao longo da minha vida eu teria que saber de tudo, mas entendi também que não sou nenhuma supermulher e que queria é poder escolher o meu caminho ao invés de pular de estrada em estrada.

foto: Isabela Peccini

Os meios nos impõem decisões. Curso, área, atuação, futuro, futuro, futuro. O mundo não tem calma, o mundo quer respostas, certezas, decisões acertadas. Mas quem será que acerta sempre de primeira? Quem tem sempre certeza?

Em meio a mil possibilidades e muitas incertezas, o ato de escrever apareceu pra mim. Não me lembro de um momento determinante e sei que não foi exatamente a faculdade que me fez sentar na frente do caderno ou do computador e me expressar através de palavras escritas, mas aconteceu. Acredito eu que de forma meio natural, em uma tentativa interna de me expressar e também me encontrar, já que eu tinha percebido que o desenho ou as contas não me faziam sentir tão em casa. Escrever, portanto, fazia mais sentido. Hoje vejo a escrita como um caminho, entre aqueles tantos que se apresentaram a mim nos últimos anos.

Agora, ao fim de uma longa trajetória na graduação, a finalizo indo contra a corrente e, em uma faculdade cheia de desenhistas de primeira, escrevendo uma monografia. Porque escrever e ser arquiteta e urbanista também não precisam ser coisas excludentes. Nada de plantas, cortes e fachadas, pra mim Arquitetura e Urbanismo vai muito além. E escrever também. Me percebi capaz de me expressar dessa forma já fazendo. Me vi em meio a um sem número de mulheres que, assim como eu, escreviam. Às vezes se intitulando escritora, às vezes escrevendo por necessidade, às vezes por gosto, às vezes sem nem pensar no por que. Umas com seus longos textos científicos, outras com seus relatos, outras nas pequenas estrofes de seus profundos poemas, outras de tudo um pouco. E vi: nós podemos mais com as palavras, podemos dividir, somar, multiplicar, construir e (porque não?) desconstruir. A escrita pode ser nossa voz. O que é ser escritora eu, sinceramente, não sei dizer. Eu não diria que sou, mas ao mesmo tempo digo que escrever, hoje, faz parte de mim. Não sei se faço isso tão bem ou tão mal, mas sigo fazendo.

Em tempos tão duros para ser mulher (apesar de não ter existido nenhum que não o fosse), estar cercada de mulheres expondo seus pensamentos, ideias, vivências, dores e amores é incentivo, representatividade, força, voz. Que nos calemos cada vez menos para que um dia não nos calemos mais.