A escritora está ausente

Helena Zelic
Oct 4, 2016 · 4 min read

Existem alguns mistérios na vida. Sempre foi assim. A gente toca os trabalhos, os estudos, os casinhos, mas na hora do banho bate aquela dúvida clássica. Antes da primeira bactéria do planeta, quem existia? Antes da Terra? Antes do Big Bang? “Y donde termina el espacio / se llame muerte o infinito?”, retomou Neruda em seu Livro das perguntas. Estranho seria se a gente soubesse de tudo.

Com este ar de mistério, me deixei levar, quando pequena, pela veracidade da Fada do Dente, Coelho da Páscoa e até do Saci (na verdade, do Saci ainda não fui capaz de desacreditar). Quando ouvi falar em Elena Ferrante, ainda não sabia que tal nome próprio não existia em registros oficiais. Não sabia que o nome escondia um outro nome, ausente, da mulher que escreve os livros.

Comecei há algumas semanas a leitura de A amiga genial, o primeiro da tetralogia de mesmo nome. O prólogo que abre o livro me desconcertou. Explico: antes de narrar as memórias profundas de sua amizade com a personagem Lila durante a infância e a adolescência, tudo começa com ***spoiler*** a narradora, adulta, já velha, descobrindo que a amiga havia sumido; que, na verdade, havia sumido deliberadamente, em fuga. Ela conta que Lila tinha levado embora todos os rastros de sua existência. Na mesma hora, lembrei do filme novo do Almodóvar, Julieta, em que, em um movimento inverso, ***spoiler*** a filha foge da mãe. A mãe, em resposta à dor desta ausência (ou em respeito à vida que segue), dá fim em todas as fotos da filha, que antes habitavam os porta-retratos pelo apartamento. Torna invisível a existência da filha, a qual os conhecidos do tempo presente sequer imaginar existir. A filha, porém, continua existindo. Passei algumas horas, espaçadas durante os dias, refletindo sobre essa materialidade simbólica da existência. Será que ultrapassa a memória imaterial? A velha Lila, sem nenhum registro que remeta a si própria, pode parecer apenas um delírio, mas quem a conhece sabe de sua existência e tem, com essa existência, experiências únicas e pessoais. O que vale mais?

Sua personagem também se chama Elena — ela é Elena Greco, a menina deslumbrada, mas secundária, com a qual todas nós nos identificamos. O nome de Lila na verdade é outro, e Lila é o apelido usado só por Elena, a melhor amiga. Tudo isso só para dizer que a identidade é uma questão para a obra de Elena Ferrante, e não apenas para ela enquanto pessoa (seria “Elena Ferrante” uma pessoa?). Logo fiquei sabendo que a pessoa por trás de Elena Ferrante era outra. Não tinha entendido se era uma anônima, desconhecida, mascarada, presente ou ausente, até ler as palavras da própria, que define o movimento como “ausência, não o anonimato”.

Mas isso tudo é diferente das histórias de mistério em que ficamos aflitas para descobrir, finalmente, qual a real identidade do vilão que espreita as personagens (e a nós também) às escuras. Dessa vez, a ausência misteriosa de Elena Ferrante nos permitiu entender as coisas de outra forma. Saber que Ferrante não é Ferrante em carne e osso nos faz encarar de outra maneira os seus livros, em um mundo que tantas vezes dá, ao autor, relevância maior do que a obra em si— este é um caminho também possível, mas não precisa ser a regra, nem para quem vende a arte, nem para quem a consome, absorve, transforma. Nós estávamos tentando algo ali, nós e Elena Ferrante, em um movimento de compreensão excitante pelo mistério, juvenil como Lila, Elena Greco e a Fada do Dente. Nós estávamos traçando formas de nos conectar à presença das identidades na obra sem recorrermos a nomes e biografias.

Claudio Gatti, o jornalista que descobriu o nome da escritora por trás de Ferrante, cometeu um grande erro, especificamente. Seu método de investigação foi invasivo à privacidade da autora, mas este não foi seu grande erro. Ele afirmou que “os leitores têm o direito de saber algo sobre a pessoa que os escreveu [os livros]”. Pois penso que não só a autora tem o direito de manter-se ausente, como os leitores têm o direito de não saber algo.

Seu grande erro foi descobrir algo que as pessoas não queriam saber. Mais ainda (porque às vezes, em outros contextos, é preciso trazer algo à tona mesmo que haja desinteresse): Claudio Gatti descobriu algo que as pessoas queriam não saber. Ele fez, praticamente, o papel daquele primo mais velho e pirracento que, para ser estraga-prazeres, arranca a barba do Papai Noel diante das crianças pequenas, que ficam chocadas, sem compreender o porquê daquela graça se acabar assim de repente.

Existem alguns mistérios, tanto na vida quanto na arte; poucos mistérios, porém, perto da quantidade de certezas indubitáveis. É preciso respeitar, não apenas a autora, os leitores, a literatura. É preciso respeitar o mistério, minha gente.


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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

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