Sobre “Qualquer areia é terra firme”, de Cristina Parga

Taís Bravo
Mar 5, 2018 · 4 min read

"Não adianta lutar contra a correnteza, você tem que aprender a boiar e só a boiar, esquece isso de nadar, dizia no sonho uma menina morena, com o corpo de Juce e o olhar da Tia Nancy. O truque é flutuar de cabeça pra cima como se não houvesse margem para onde chegar. Ora, você sabe que não adianta se debater, rolar na cama, esbracejar um crawl desajeitado contra as ondas — é a correnteza que puxa, ela é que manda — nosso papel é apenas o de manter o corpo suspenso na água, prender os olhos no céu azul e aguentar a maré, com o rosto fora d’água. Até que a correnteza nos abandone em alguma costa, algum dia".

Em Luto e Melancolia, Freud trata da questão da falta, seja ela real ou imaginária. É uma perda real que provoca o luto, já a melancolia é uma perda que nem sempre diz sua causa. O vazio radical do melancólico pode ser fruto de causas quase pueris: um coração partido ou uma ferida no ego. A devastação, no entanto, não é leviana. Na falta de seu objeto ideal ou oculto, o melancólico perde, principalmente, a si mesmo. É como se na ausência de suportes e referências, a identidade despencasse. O que sobra depois de um amor perdido? Quem somos sem uma casa? Essas são as questões de Isa ou Bel, a narradora de Qualquer areia é terra firme — livro escrito por Cristina Parga e lançado pela Editora 7 letras — que de tão perdida tem até o nome dividido em duas possibilidades distintas.

Isa larga Berlim sem acertar as contas, carregando o imprescindível, em um fôlego curto de quem precisa de um golpe para não afundar. Bel chega ao Rio incapaz de caber na cidade que foi sua há oito anos. De repente, a volta é uma impossibilidade. No trajeto, perdeu duas cidades. Isa ou Bel, ela é um corpo sem origem, flutuando entre recortes até alcançar um solo.

Os melancólicos são estrangeiros, porque reconhecem que não são senhores de suas próprias casas. Cada dia de pequenas vitórias é eclipsado por sonhos que revelam a crueza dos desejos. Diante da convicção de seu inconsciente, suas mãos estão atadas. Ela aguarda, se inquieta, remói e ocupa seu angustiante tempo do lado de fora até que algo ou alguém lhe dê as chaves, derrube as portas, faça qualquer esforço que lhe permita recuperar a casa — ainda que nunca seja propriamente sua.

"Injusto é, mas não há nada a fazer. Um dia vamos chegar um alguma costa, algum porto. Não adianta lutar — ela dizia — mais vale economizar forças e resistir, cabeça para fora d’água, respirando lentamente para acalmar o coração".

Alguns podem dizer que a conclusão de Qualquer areia é terra firme é a moral: o trabalho dignifica o homem. Mas aqui não se fala de homens ou de honras. Há também a possibilidade de apontar a arte como boia salva-vida em meio a uma existência oceânica. Uma possibilidade não tão distinta, porque quando se limpa o sublime, o que sobra da arte ainda é o trabalho. O livro permite esse caminho, no entanto, penso que é um derrape. É o trabalho — isto é, aquilo que rende títulos e dinheiros — que ajuda Isabel a reencontrar um solo. Ela recria uma terra própria pelo esforço dessas pequenas conquistas que, na verdade, são exigências humanas: arranjar um freela, ter uma grana, alugar um espaço, ser reconhecida, abrir-se para um contato — nem que seja por uma sms ou um beijo bêbado. E, para alguns, é aí que o livro — ou a vida — termina. Estou longe de dizer que não é suficiente.

No entanto, estou convencida que Isabel vai além. Sua recuperação começa quando ela mergulha em outras histórias. Ela se refugia de sua própria condição, recriando o trajeto daquelas que, como ela, são só um rosto desapropriado. Talvez seja aí, ao constatar que rostos e casas são espaços que apenas se ocupam, que Isabel tenha encontrado a possibilidade de querer mais do que uma terra firme. O vazio da depressão ou da melancolia é erosivo. Viver privada de certezas é uma condição árdua, porém há uma visão privilegiada desse ponto. É nessa posição que se expurga, junto às certezas, os imperativos, as identidades e todas as narrativas necessárias para se forjar algum controle. Isabel pode ter voltado à terra pelo trabalho, no entanto, é ao se perder, entre a memória e a criação de outros rostos, que encontra o risco de habitar a casa sem convocá-la como sua. Assim acolhe o estado de estrangeira e descobre o prazer em estar suspensa: poder ir e voltar quantas vezes quiser.


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Esta resenha foi publicada na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Taís Bravo

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Escritora, tradutora e cocriadora da Mulheres que Escrevem: http://tinyletter.com/taisbravo

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