A Vizinha de Cima

Um singelo barulho de cama rangendo e 15 minutos intermináveis

Neighbours — Exhibition por Vincent Mahé

A primeira vez que aconteceu, devia ser uma sexta-feira, já passando da meia noite. Mas com essa informação, pode ter sido uma quinta, uma sexta ou até um sábado. Como estou naquele momento da vida em que Netflix e edredom satisfazem com louvor, já estava aninhada confortavelmente em minha cama.

Moro em um prédio antigo em que, muito provavelmente por conta da gentrificação, rolou uma distribuição meio bizarra na metragem dos apartamentos. O meu, pelo menos, tem uma planta completamente esquisita. Muitas das paredes são finas, mas como o aluguel estava barato, era central e bem localizado, acabamos (eu, meu companheiro, meu cachorro e minhas duas gatas) por aqui mesmo.

Minha rua é estreita. No lado direito podem estacionar carros e caso um caminhão queira subir a rua, ele precisaria estar com as duas rodas da esquerda em cima da calçada. Os edifícios têm todos mais ou menos a mesma altura, uns 4 andares. Logo, a rua tem uma acústica própria. Que pode ser interpretada como imprópria algumas vezes.

Começou com um singelo barulho de cama rangendo. Logo depois, o barulho tomou ritmo. Então vieram os gemidos e, como qualquer adulto heterossexual conformado, em menos de quinze minutos já tinha acabado. Apesar de serem só quinze minutos, é nessas horas que conseguimos entender por completo a teoria da relatividade.

A primeira coisa a ser feita é uma piadinha positiva para o meu companheiro para que não fique aquele elefante branco no ambiente.

gif maravilhoso por Trace Loops

Ok, ambos sabemos que está rolando sexo no piso acima. Quer dizer, já sabíamos, mas agora está menos desconfortável. Massa. E agora? Olho pro meu cachorro, para as minhas gatas e fico aliviada de não ter que explicar alguma coisa para eles. Ainda assim fico com uma sensação estranha. Uma sensação dúbia de estar compartilhando a intimidade alheia, a qual não me foi concedida, e ao mesmo tempo… Tesão, e agora?

Me sinto uma monstra, uma voyeur de ouvido — não sei o nome — , uma tarada. Me vieram uns cinco sinônimos de pervertida na cabeça, mas a sensação é completamente involuntária. O que fazer? Pensa na mãe, na avó, nas contas para pagar e enquanto isso a cama continua rangendo e os gemidos aumentando e eu tendo que fingir costume. Ligo uma música? Não quero demonstrar que tenho uma mentalidade de 16 anos, mas a libido junto com o estresse em uma situação completamente natural demonstram que sim, parece que tenho 16 anos agora, então fico quieta. Será que meu companheiro está passando por todo esse processo? Olho para ele e ele está com um semblante completamente relaxado, muito provavelmente o oposto do meu, mas continuo fingindo costume.

Até que os gemidos atingem o ápice. Ela de lá, eu daqui, ambas felizes com seus respectivos finais e finalizações, conseguimos passar para outras fases de nossas noites.

Vizinha, se você estiver lendo isso, eu quero mais é que você transe, transe muito! Sororidade sexual sim, SSS! Muito possivelmente, na próxima vez que acontecer, vou deixar um recadinho falando exatamente isso pra você, com um óleo de corpo massa e só pedindo pra você dar uma apertada nos parafusos da cama. Não estou aqui pra te castrar jamais, eu só gostaria de manter minha sanidade mental!


Bárbara Gondar é a nova cronista da Mulheres que escrevem! Uma vez por mês você poderá acompanhar suas crônicas aqui na nossa publicação.