Al dente

No meio do borbulhar da água, ainda tem a voz dele me explicando que são só cinco minutos no fogo, depois gelo, para brócolis verdinhos e al dente, que é o certo. Digo que prefiro cozido no vapor, Daniel diz que é bom também, mas assim é melhor e fica um verde bonito. Antes dele, meus brócolis eram sempre marrons e bem moles, mas nada disso importava.

Desligo o fogo no automático, nos exatos cinco minutos que a minha cabeça não deixa pra lá. Um tempo tão curto para caber tantas lembranças! Confiro a tonalidade de verde dos brócolis enquanto jogo a água fria. (Gelo não, isso eu não tenho coragem). Dessa vez, comparada às últimas três noites em que o jantar foi carne, brócolis e mensagens não respondidas, o verde ficou mais bonito, conto apenas três pequenos arbustos um pouco mais inclinados para o musgo.

Na primeira espetada do garfo nos brócolis — al dente, aprovo — me pergunto por que escolhi essa consistência para os meus dias. Olho o verde vivo no prato e admito que ele estava certo sobre a cor, mas não gosto de forçar meus caninos contra o vegetal e sentir o gosto amargo que Daniel deixou. O barulho abafado dos talos se partindo na boca reencenam a quebra das minhas expectativas, das que nem sabia que tinha.

A sensação me entristece a cada garfada, mas o braço repete o ritual automaticamente como para me mostrar que é preciso mastigá-lo, engoli-lo, digeri-lo. Afinal, tudo faz sentido quando ele troca de lugar com os brócolis, até sorrio pro azulejo da cozinha quando me ocorre que al dente é uma ótima forma de compreendê-lo.

A pele dele, não faz tanto tempo, mas não sei mais dizer se é macia. Sei dizer de um calor delicado sobre o qual seus pelos me falavam, um calor que não irradiava. Ele era uma calmaria que eu precisava tocar para sentir, carecia de estar perto. Entendemos isso nos primeiros dias, ele dizia que era inadmissível eu querer estar ao seu lado e não estar. Inadmissível, eu repetia a palavra tentando juntar o quebra-cabeça. Inadmissível combinava com os vegetais al dente e a frigideira antiaderente que era preciso saber lavar.

Daniel tinha essa coisa de querer tudo verde vivo, da cor certa e de um jeito bonito. Só queria me conquistar se fosse da maneira correta, seguindo a receita que ele adivinhou em algum livro capa dura, sem pular nenhum passo. Debochava da loucura dele por termômetros e fornos pré-aquecidos sem saber que também era cobaia, que ele aprendia a me provocar, me pré-parar. Ia amolecendo conforme seu toque, ia relaxando, cedendo, até me retrair inteira de novo. Como se o orgasmo fosse uma mão que me alargasse, dividisse e me sovasse os pedaços para me juntar novamente sob o olhar atento dele.

Foi o homem mais metódico com quem já me deitei, Daniel conhecia sobretudo os caminhos. Para branquear os brócolis, me disse, era preciso colocá-los na água já fervente e deixar por cinco minutos. Para me comer de manhã, eram necessários beijinhos nas costas até eu desgrudar da cama, me virar e lhe oferecer os seios. Isso ele não disse, mas descobriu rápido. Sabia me deixar descansar e crescer, crescer até atingir o dobro, ele tinha essa regra, até cobri-lo e me acomodar sobre o seu corpo. Quero te chupar, eu dizia quando chegava ao ponto.

É engraçado, agora, comendo os brócolis al dente, pensar que morder nunca foi nossa carícia. No entanto, ainda é assim, desse jeito que estala aos dentes, que ele habita minhas lembranças. No início, achei que era da crueldade de atirar tudo ao gelo que eu me ressentia, mas não. Os brócolis fervem por cinco minutos e continuam verdes, depois disso… Bom, depois disso eu esperaria para ver se não poderia ficar melhor, se não ficaria mais macio e ainda verde, a mão hesitaria, sem querer apagar as chamas.

Daniel não hesita, apaga, joga gelo, resolve, vai embora, não me responde mais.


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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Seane Melo

Written by

Jornalista e escritora maranhense, autora do romance “Digo te amo pra todos que me fodem bem”

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