Ilustração por Minkyung

Antonela

É sempre assim, o tempo arranja um jeito de abrir buracos em tudo, pensava.

Clarissa Carramilo
May 16, 2018 · 7 min read

Era uma manhã quente, daquelas em que se clama por uma chuva rápida que amenize o calor úmido e nauseante de São Luís. O asfalto produzia poeira por conta própria enquanto as casas na rua Vinte e Um se encolhiam sob a temperatura ardente. O céu claro, de um azul vívido e reluzente e nuvens bem delineadas. A sensação era de que toda a água de chuva do universo estava retida acima das cabeças, provocando e reduzindo seres humanos a puro mormaço.

Antonela acordou sem ar, tossindo compulsivamente. Ainda sem consciência da própria existência, abriu os olhos e viu a luz do sol entrar inevitável pelas brechas da janela, a claridade intolerável aos olhos recém-saídos da escuridão. Sentia a garganta arranhada, um pouco aumentada.

Inspirou fundo e conseguiu recobrar a respiração no corpo cansado. Perguntou-se quanto tempo havia dormido. Mais de oito horas; devia ter sido suficiente, pensou, olhando para o relógio do celular, que dormia sempre ao lado do travesseiro por falta de uma cabeceira decente.

O corpo implorava por mais descanso. Ficou deitada, imaginando como seria a sua própria visão aérea naquele momento. Estava na cama, barriga para cima no quarto abafado e escuro que ainda dividia com a irmã na casa do bairro residencial malprojetado. Vinte e sete anos sem condições de se sustentar, como uma típica brasileira de família classe média.

Duas camas de solteiro fora de moda no meio do retângulo largo destoavam do resto da decoração barata e moderna. Na parede atrás de sua cabeça, quatro quadros retangulares dispostos verticalmente dois a dois, lado a lado. Nas imagens, cabines telefônicas, ônibus vermelhos de Londres, a Torre Eiffel e uma Marilyn Monroe posando em frente ao Empire State Building.

Uma televisão esquecida ficava suspensa por um suporte preto e centralizado na parede em frente à cama de Antonela. Uma prateleira abaixo apoiava um player qualquer e em outras duas prateleiras menores, coladas uma em cada lado da TV, amontoavam-se livros, DVDs e CDs que ela colecionava. À esquerda das camas ficava o guarda-roupa e, à direita, um porta-sapatos, um velho e lotado cesto de roupa, uma escrivaninha com luminária, o notebook, que ainda dava para o gasto, e alguns livros e papéis encadernados. Tudo no lugar parecia seguir a linha de desordem-controlada-prestes-a-explodir. Era como vivia Antonela desde o que ela chamava de Última Perda.

Há anos acordar era um parto. Levantava da cama como vinha ao mundo e se vestia ainda de olhos fechados. Primeiro, a camiseta rosa de algodão que sonhava dispor em outras cores. Depois, o short preto e folgado. Peças surradas, leves pelo próprio tecido, alguns buracos feitos pelo tempo. É sempre assim, o tempo arranja um jeito de abrir buracos em tudo, pensava. O ser humano é obrigado a lidar com eles por resignação ou afeto. Ou os dois.

Abrir os olhos era difícil. Primeiro, por causa do lacrimejar noturno que derramava camadas de cola ocular pelos cílios e transformava o simples fato de levantar as pálpebras ao acordar de ação instintiva a tarefa dolorosa. O que poderia ser normal nessa vida? A saída era caminhar de olhos fechados até a porta do banheiro da sala, lavar o rosto e pingar gotas ardentes de colírio. Então Antonela abria os olhos e se encarava no espelho. Pigarreava, não sabia se pela alergia ou por causa do cigarro. Pegava a bomba cheia de droga antialérgica e borrifava nas narinas, parecendo pronta para aparentar a tão sonhada normalidade a partir dali. Lavava o rosto, escovava os dentes, penteava o cabelo e colocava os óculos de armação quadrada capenga. Estava pronta para viver mais um dia na esperança de receber do universo algo em troca, bom ou ruim, o que ela começava a suspeitar que jamais aconteceria. Sentia que vivia em completo esquecimento, como a própria São Luís.

Enquanto a água fervia na cozinha, olhava pela porta do quintal a manhã azulada. Com o cotovelo apoiado no portão e a mão no rosto, sonhava com um mundo fictício em que “aquilo não havia acontecido”. Percebia que o vizinho também estava de pé àquela hora pelo chiado fino de chaleira que voava da casa ao lado.

O som se misturava às cenas sem sentido que passavam diante dos seus olhos e que acabavam vencidas pela distração com o Nada, com aquela existência medíocre — um transe contra a loucura, criado pelo cérebro como mecanismo de defesa. Até que ela caía em si e voltava ao fogão para preparar o café quente que, talvez, finalmente a acordasse. Eu nunca estou acordada o suficiente, concluía.

O ar solitário dava certo charme à figura da jovem de 27 anos. A pele parda, por sua vez, era a base de uma aparência que, ao longo dos dias, jamais se repetia. O cabelo ondulava em mil tons de castanho que refletiam de forma independente, variando com a luminosidade. Olhos ora inocentes, ora selvagens. O rosto, de expressões fortes, denunciava toda e qualquer emoção que passasse por aquele instável coração. Ela não fazia ideia de que tinha a seu favor um sorriso desconcertante e uma beleza desavisada.

Acabava sempre atrasada para o trabalho e, desde a Última Perda, não fazia nem sequer questão de ser pontual. Sempre de calça jeans, camiseta e tênis, apanhava a bolsa de couro preto surrada e saía de casa. Só comia se já tivesse algo pronto. Os pais e a irmã eram como espectros que ela ouvia longe e vagamente, mas já não enxergava. Ouviu os três conversando e não conseguiu entender como se era capaz de repetir sempre as mesmas frases, os mesmos comentários sobre os mesmos assuntos. Nem importava mais quem dizia o quê.

– Vocês viram que passou o casamento gay? É a destruição da família tradicional brasileira.

– Não tenho nada contra gays, até tenho amigos que são, mas é um absurdo isso. Outro dia tinha dois caras se beijando na rua, ninguém é obrigado a ver isso.

– Olha aquele ator brasileiro na TV, vai ser protagonista de um filme estrangeiro. Ele é negro, mas é tão bonito. Tem o nariz fino, sabe.

– Aham, mas já tá falando de direitos humanos. Os direitos humanos só defendem bandido. Ah, se morre um pai de família, ninguém diz nada.

– Bandido bom é bandido morto. Gosta de bandido, leva pra casa. É por isso que eu sou Ribamaro 2018.

– Dizem que ele apoiou a ditadura. A única ditadura que eu vejo é a ditadura gay.

– Suspenderam aquela exposição, exposição não, aberração artística. Tá certo mesmo. Negócio de gênero é um absurdo. Deus fez o homem e a mulher e pronto.

– Órgão excretor não reproduz.

– Falta de surra. Antigamente, quando pai e mãe podiam corrigir na palmada, não tinha essas coisas. Eu mesmo apanhei e tô aqui.

Antonela já nem respondia mais. Não havia nada que ela pudesse fazer por aquela gente, estranhos tão íntimos, partícipes de um conservadorismo que se converteria em tragédia nacional.

Deu a partida no Corsa preto carinhosamente chamado de Nonato. Aquele modelo era como um clássico automobilístico na cidade. Em algum momento da vida o maranhense médio acaba tendo um Corsa, é o que diziam. Saiu de casa já esperando quilômetros de congestionamento no trânsito. Preferiu pegar um caminho mais longo para passar pelas praias de São Luís. Via mas não enxergava a paisagem natural exuberante da cidade. No rádio, o violão em ritmo de indie folk sacudia os alto-falantes do carro. Jake Bugg cantava, Antonela acompanhava. Stuck in speed bump city where the only thing that’s pretty is the thought of getting out.

Dirigiu poucos quilômetros até chegar no engarrafamento quilométrico de todas as manhãs na Avenida Jerônimo de Albuquerque, o carro velho destoando no meio da frota nova da cidade. Debaixo do viaduto, tentou relaxar e cantava. There’s a tower block overhead. All you’ve got’s your benefits and you’re barely scraping by. Seta ligada, saiu de uma mão para a outra. A impressão de que sempre estava no lado mais lento não a abandonava. In this trouble town, troubles are found. In this trouble town, words do get round, continuava.

Vinte minutos no trânsito arrastado da cidade que marca 30º C às 7h foram suficientes para que Antonela levasse o primeiro cigarro à boca. Os xingamentos abafavam a voz de Bugg. Era impossível ser feliz. Kick the bottom make troubles flee, smoke until our eyes would bleed, sparkle pop the seed… “Eu não sei o que eu ainda faço nessa bosta dessa cidade maldita, bando-de-filho-da-puta-burro-mal-educado-do-caralho”, dizia, com o rosto vermelho, chateada com os motoristas que buzinavam porque ela se recusava a fechar um cruzamento. Bugg avisava: If I talk of getting out, I only hear the laughter loud. It’s got an ugly echo.

O sinal abriu novamente e ela partiu, quando, de repente, viu o mundo girar. Antonela foi apagando lentamente enquanto ouvia vozes desconhecidas cada vez mais distantes. O único som que saía do veículo era a voz do cantor e o violão frenético. Somewhere there’s a secret road to take me far away I know, but ’til then I am hollow.


O trecho que você acabou de ler faz parte do romance de estreia de Clarissa Carramilo, que acaba de ser lançado pela Editora Oito e Meio. Em Cidade Espanto conhecemos Antonela, uma jovem repórter empregada por um site de notícias para fazer a crônica diária de São Luís, esta cidade-personagem, em todas suas matizes. Da socialite deslumbrada à mendiga que espera por um barco que nunca chega ao cais; de um crime num bordel à identidade secreta da autora de um blog de sucesso; da dor à festa — assim somos apresentados ao mundo que Antonela conhece tão bem, e que torna-se o caminho ideal para conhecê-la também.


Para ouvir o podcast que gravamos com Camila Chaves sobre “Cidade Espanto”, clique aqui!


Este trecho foi cedido em primeira mão para a iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa não só debater questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Clarissa Carramilo

Written by

Escritora, jornalista e mestranda em Ciências Sociais/UFMA. Autora de Cidade Espanto (Oito e Meio, 2018), selecionado no Edital Fapema de Literatura.

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