Beijando escritoras no escuro

Ilustração: Luísa Granato

Há um tempo, todas as minhas amigas ficaram monotemáticas. O que aconteceu naquela época? Melodrama, segundo álbum de Lorde, foi lançado. Lembra? A leve obsessão delas é compreensível. O disco conseguiu a impressionante nota 92 no Metacritic (pra efeito de comparação, “Harry Styles” ficou com 68) e todas as músicas alcançaram o TOP 200 do Spotify. Aclamação de público e de crítica, o trabalho da neozelandesa não ia deixar os nossos corações passarem impunes.

No domingo seguinte ao lançamento, entrei no quarto da minha amiga que mora comigo e ela me perguntou qual música do álbum eu mais me identificava. Nem precisei pensar na resposta; foi fácil e ela já sabia o que eu ia dizer.

Bet you rue the day you kissed the writer in the dark

De todas as coisas horríveis que eu já ouvi na minha desastrada vida amorosa, a pior foi “Para de escrever sobre mim”. Foi daquele tipo de relacionamento que aconteceu mais na nossa expectativa do que na realidade — não durou mais do que duas semanas. Mas o sentimento era tão real. Eu perdi os medos que não sabia que eram medos e eu acreditei, de coração inteiro, naquela pessoa.

Tão repentino quanto começou, acabou. A parte da reciprocidade, pelo menos. Porque eu não conseguia me desfazer daquele emaranhado de sentimentos tão rápido quanto ele partiu. Então, eu fiz o de sempre. Eu escrevi. Muito, em todos os lugares que podia. Eu estava tateando em busca de alguma frase que pudesse fazer sentido, que me ajudasse a transformar aquela história em uma narrativa coerente para que eu a contasse pra mim mesma antes de dormir. Uma história com começo, meio e, principalmente, fim.

Now she’s gonna play and sing and lock you in her heart

Nós moldamos quem somos por meio das histórias que contamos. Quem escreve e estabelece a própria narrativa passa a ser o sujeito. É uma forma de conseguir se colocar em uma posição de poder.

Mas as mulheres não podem escrever o que quiserem.

Mais do que contar a versão dos vencedores, a História conta a versão dos homens — só eles têm o privilégio de ganhar ou perder em qualquer guerra. Ainda que a escrita seja a profissão para mulheres por excelência (só por causa do baixo preço do papel, não se deixem enganar), como definia Virginia Woolf, há limites nos assuntos em que podemos nos meter.

Se um homem escreve sobre uma mulher, ela é a musa ou a maldição. No caminho inverso, ela está a um passo de escorregar na carapuça de obcecada e perseguidora. Perguntem pra Taylor Swift. Os homens nunca são julgados.

I’m gonna love you ‘till you call the cops on me

É claro que a minha reação ao que ele disse foi de encontro ao que ele temia. Eu escrevi mais. E foi escrevendo que eu percebi o porquê de ele ter me dito que eu não podia escrever. Aos poucos eu percebia que isso me dava algum controle do que tinha acontecido comigo. Talvez escrever, pra pessoas como eu, seja o equivalente a uma boa sessão de terapia. Faz a gente tocar em lugares que não imaginava nem existirem antes.

But in our darkest hours, I stumbled on a secret power

I’ll find a way to be without you, babe

E por alguma ânsia que talvez seja o que realmente nos faz escritoras, eu precisava dividir com todo mundo aquelas marcas que não cabiam na minha pele. Talvez não seja justo tornar um ser humano a terceira pessoa da sua história. Mas eu não conheço outra forma de existência. Isso nunca foi sobre ele ou sobre qualquer outro. Era sobre mim e por mim, o tempo inteiro. Em entrevista para a The Spinoff, Lorde disse sobre Writer in the Dark:

“Não é um documento histórico. Não é um registro policial. Não é jornalismo. Eu não fiz faculdade de jornalismo. Eu sou uma escritora. É sobre o que eu senti e às vezes você pode sentir um pouco de culpa ou ‘Deus, eu não devia ter imortalizado aquela pessoa’, mas a música é meu jeito de dizer ‘Isso é o que eu sempre fui. É o que eu era quando você me conheceu. É o que eu vou continuar sendo depois de você ir embora. É exatamente isso o que ia acontecer quando você beijou uma escritora no escuro’”.