cícero não é sobre cícero
 ou
 o que é uma transa em dança?
 (não) crítica #1

Foto: Daryan Dornelles

Antes de qualquer coisa é importante que todos estejamos sabendo que este texto não pretende ser uma crítica ou uma análise musical. Não sou instrumentista, nem cantora, nem técnica de som; e tampouco estou — profissionalmente falando — a par das discussões conceituais, políticas e históricas acerca da cena musical brasileira. Sou artista e pesquisadora em dança. Minha aptidão, neste caso, é ser corporalmente dedicada à música. Costumo dizer que foram as minhas experiências como ouvinte de música que construíram a trajetória que me fez encontrar a dança como área de conhecimento.

Sou de uma família de colecionadoras de LP’s que depois viraram colecionadoras de CD’s. Na sala da casa da minha avó materna existia um canto largo de parede que era forrado por seis estantes, cada uma de um metro de altura aproximadamente, repletinhas de CD’s que ela organizava por ordem alfabética e etiquetava, um por um, marcando neles os nomes que lhe asseguravam que aquilo eram objetos que lhe pertenciam: Mucia Vainer/R. Belford Roxo, nº tal, apto tal-e-tal/Copacabana — RJ.

Minha avó morava neste apartamento com esses CD’s amigos, e ainda uns amigos quadros, uns amigos livros, uns amigos chão, porta, janela, maçaneta; na casa dela as coisas eram vivas e bem tratadas. Na verdade bem ordenadas: a saúde da casa, e a dela própria, passava pela limpeza, organização e impecabilidade das coisas que habitavam o espaço junto a ela. Eu tinha um carinho especial pela coleção de CD’s, percorria aquelas estantes hipnotizada, contava os discos procurando os artistas favoritos da coleção.

Não lembro do dia em que escolhi pela primeira vez um disco para tocar, mas lembro de ver minha avó, já bem de noite, depois da televisão ter encerrado toda a sua programação de notícias, selecionar das estantes uma daquelas caixinhas quadrangulares, colocar a bolachinha no reprodutor de som e se sentar no canto de um dos sofás para consumir uns cigarros. Era, normalmente, a hora em que eu já estava indo dormir: eu passava na sala, dava um beijo de boa noite e ela ficava lá, inventando um mundo na fumaça do cigarro enquanto o espaço se forrava com os sons que o modesto aparelho de som derramava.

Esse gosto por colecionar CD’s a minha mãe também herdou. Assim como o gosto por cigarros. Mas na casa da minha mãe a coleção tinha um movimento diferente: os CD’s não resistiam à organização em ordem alfabética e se amontoavam sobre a mesa da sala, sobre os racks, sobre a estante de vidro que guardava o aparelho de som. Eles tinham um caráter mais espalhado, menos contingente. E um apelo substancial para ocuparem o lugar de amante que minha mãe dava a eles que, diferente da relação que era estabelecida por minha avó, não acontecia entre quatro paredes, mas em trânsito: o ápice do encontro dos CD’s com mamãe se dava no som do carro.

Lembro dos trajetos que fazíamos de Campo Grande, onde morávamos, até a casa da minha avó, em Copacabana, serem intensos laboratórios de experimentação musical. No som tocava algum álbum de MPB que podia ser do Chico, da Bethânia, da Clara Nunes, do Nelson Gonçalves… E ela fazia comigo uma espécie de quiz no melhor estilo “qual é a música”: eu era desafiada a adivinhar quem estava cantando ao menor sinal da canção que soava no rádio. Ou: ela destilava para mim versos que lhe perturbavam: “presta atenção, Laura! Olha que lindo! O que você acha que ela quer dizer com isso?”.

Em paralelo a esta formação musical experimental e afetiva, estavam os meus estudos de balé clássico. Técnica de dança que tem como um dos parâmetros chave para a construção e aperfeiçoamento das coordenações corporais propostas, a percepção e a sensibilização musical. Na técnica da dança clássica, música e movimento estabelecem uma relação direta de correspondência: os movimentos do corpo e os movimentos sonoros da música se equivalem, se constroem um para o outro (e não com o outro ou em oposição um ao outro).

Eu fazia aulas diárias, de segunda a sábado, imersa na atmosfera da música clássica; assimilava e lapidava no corpo os tempos, intensidades, pausas, melodias… Quando interrompi meus estudos de balé clássico, depois de doze anos ininterruptos de trabalho, fiquei durante algum tempo afastada de práticas corporais de qualquer natureza: não fazia aulas de dança, não malhava, não fazia yoga, nem caminhadas, nem trilhas, nem massagem, nada. Meu corpo estava derivando na anarquia.

Até que descobri que existiam festas públicas em que eram tocadas as músicas que eu ouvia no carro da minha mãe. Passei a frequentar assiduamente estas festas e, convocada pela música, me reaproximei da dança. Eu chegava a essas festas e criava um espaço de experimentação recreativa do corpo em movimento: ficava lá, amando um canto qualquer do salão, me movendo conduzida pelas mãos da música que (me) tocava; descobria que os movimentos do corpo eram uma coisa brilhosamente mais ampla do que os pliés e fouettés que foram minha obsessão por anos. E foi neste pé da estrada em que tranquei a faculdade de História para cursar a graduação de Licenciatura em Dança.

Se entendo objetivamente de música é pelo movimento, e só por ele. Sou absolutamente inabilitada para cuidar de notações ou de qualquer tipo de fazer ou descrição que requeira um saber que se elabore a partir de especificidades técnicas particulares ao estudo da música. É movendo que descubro e reflito sobre trabalhos em música, movendo e deixando que os trabalhos se movam em mim. E é isso o que motiva e legitima esta escrituração. Por isso gastamos esse tempo juntos, para que você aí lendo, saiba que estou falando deste lugar em que dança/movimento e música/sons transam.

Pois então que este texto é uma análise da música em movimento. Ou: uma análise sonora da dança . . . Análise não! Cartografia. Porque é disso que se trata este texto: um percurso afetivo e reflexivo que se constrói junto a uma experiência — neste caso o show ‘A praia’, do cantor e compositor carioca Cícero, que aconteceu no dia 22/04/2016 no Circo Voador/RJ.

Não vou me estender traçando o breve e intenso caminho que vem sendo realizado pelo músico carioca desde o lançamento de seu primeiro CD solo em 2011, para mais informações: google nele!

Este show no Circo Voador não foi (mesmo) o meu primeiro contato com o trabalho de Cícero, pelo contrário para caramba: sou ouvinte assídua das suas canções desde que elas ainda estavam dentro do apartamento[1]. Estou junto dele neste percurso acompanhando e observando os interesses, parcerias e escolhas que modulam as suas criações. Desde aquela paisagem que ele partilhou com a gente no álbum Canções de Apartamento (2011), até a atmosfera sem-teto na qual mergulhamos no seu trabalho mais recente, A praia (2015), passamos — público e Cícero — por uma miríade de micromudanças, mas por nenhuma ruptura brusca. Melhor: mesmo as rupturas empregam sentido à obra do guri; nenhuma das rupturas propostas pelo compositor acontecem ‘à toa’, o que geraria em nós um sentimento de esvaziamento e abandono.

Se este discurso do abandono foi corriqueiro quando Cícero lançou seu segundo álbum, Sábado (2013), é porque estamos habituados a lidar com a arte de um modo demasiadamente consumista e idealizado (micro-devaneio-gigante: repare que isto vale também para o amor…). A parcela do público que cruza os braços ofendido ao escutar o disco posterior ao Canções, se decepcionou porque aguardava expectante alguma coisa que desse continuidade àquela relação que o álbum de 2011 havia estabelecido com eles; aguardava receber no conforto do lar novas frases de amor para serem replicadas, novos refrões rodopiantes para serem exaltados, novas palavras e sonoridades que forrassem de conforto as dores; esperava receber um quadrinho pintado e bem acabado de sensações já conhecidas que lhes coubessem.

Olha: é como quando temos um encontro maravilhoso com alguém e queremos que aquilo se repita ao infinito. Ficamos frustrados quando isso não acontece e podemos sempre culpar o outro, mas talvez a nossa indisponibilidade para a atualização do encontro seja o nosso próprio algoz. Continua olhando: trabalhos de criação podem sempre ser capitalizados, e é isso o que garante que as pesquisas artísticas ganhem em duração; possibilitando que elas tenham um caráter continuado e permitindo que os agentes envolvidos no trabalho e que o trabalho em si ganhe consistência, amadureça na relação com o público e com os espaços de exibição/partilha.

É importante que a criação em artes seja compreendida como trabalho para que ela possa ser assimilada economicamente, podendo — inclusive — questionar de dentro do seu fazer a ordem da economia hegemônica (vide a atitude do próprio Cícero de disponibilizar, integralmente, sua discografia para download gratuito). Legitimar o trabalho em artes junto às esferas sociais e políticas é tanto importante quanto ameaçador para o trabalho em si, porque coloca a arte que é, historicamente, um sistema de exceção, de invenção de multiplicidades nos mais diversos campos (da palavra, do gesto, da ideia, dos discursos, dos valores) no risco por ser capturada pelo sistema que é a regra (instituições, valores morais, modos de fazer hegemônicos).

Por isso, quando a relação entre público e materialidade artística é mediada a partir dos mesmos parâmetros com que estamos habituados a lidar com as mercadorias — procurando na prateleira a que tem a forma, a cor, o sabor que nos serve melhor — estamos incentivando o movimento regra do círculo de economia da arte e empobrecendo drasticamente as possibilidades de invenção de mundo que os encontros com materiais artísticos nos abrem.

Nesta relação entre artista e público que é mediada por cobranças e exigências, o trabalho criativo é modulado de forma agressiva por essas demandas.

Re-pare: não estou aqui para advogar por algum tipo de liberdade criativa utópica onde fosse possível produzir trabalhos em arte sem que eles se friccionassem com questões próprias do mercado; nem imagino todos os trabalhadores da arte, como que sendo forçados a produzir pacotinhos de divertissement que não nos interessam, mas que vendem. Tô lambendo com palavras umas questõezinhas e desempacotando tensões… Se os alfinetes acabaram se enfiando na pele das gentes que são o público, foi pela ocasião e modo pelo qual estamos construindo este texto, e só por isso. Os alfinetes valem para os criadores e suas escolhas também.

(Ah! Mas a palavra r.e.l.a.ç.ã.o lá no início deste parágrafo quer mesmo dizer isso: escolhas que se dão juntocom).

Um processo criativo é feito de forças afectivas e políticas; forças que são esculpidas e que se configuram como escolhas. No trabalho do Cícero vejo escolhas sonoras, textuais, conceituais, imagéticas e contextuais, pois se trata de uma trama minuciosa dos elementos que constroem as músicas, os principais clipes, os encartes dos CDs e os shows. Obra multiartística: construção plástica e experiência corporal que se dá, majoritariamente, pela percepção sonora (e cada vez que digo ‘obra’ sou acossada pela exclamação: má que saco essa palavra! se alguém tiver uma melhor, por favor, me ajude…)

Esse bordado de materialidades diversificadas aparece na feitura de cada CD, mas também em um sentido mais amplo, o-que-quer-dizer-que: os três álbuns lançados por ele até agora são trabalhos independentes entre si, mas não são absolutos: se enleiam. O que é diferente de dizermos que “se completam”… Não existe, neste trabalho, o sentido de completude. Não, não, não. E este ‘não’ para a completude é a condição para que se diga ‘sim’ para a continuidade do caminho. Assim como este texto, o trabalho de Cícero é um processo cartográfico: um mapeamento afetivo e perceptivo que se dá com o tempo e o espaço; produzindo intensidades que surgem e que ganham forma em consonância com os modos do autor de experimentar os encontros com as coisas, os lugares e as pessoas.

Canções de Apartamento, Sábado e A praia são, claramente, cartografias: enquadramentos de determinadas estruturas narrativas, de imagens, de sons, movimentos e paisagens nas quais o discurso em primeira pessoa é imprescindível, sem que seja redutível a uma fala centralizadora. Isso porque admite-se o eu enquanto multidão. Deleuze me disse uma vez, n’alguma noite ou n’algum vagão de metrô da vida: o nome próprio quando dito nesta experiência intensiva de disponibilidade para os atravessamentos é a voz de um grupo.

E isto está ficando cada mais claro no processo artístico de Cícero como autor e como cantor. Seu interesse em desinvestir na sua imagem pessoal aparece na construção das músicas, dos encartes dos discos, dos clipes e na sua postura no palco — na forma como ele recebe o público e como se relaciona com os outros artistas em cena. O que iluminou essa questão pra mim, foi a última imagem em movimento que o palco do Circo Voador guardou, neste show aqui no Rio: depois de já terem se enfiado e desenfiado das coxias para dar início a sequência do ‘bis’, os rapazes ocuparam seus precisos lugares junto às máquinas sonoras com as quais transam para produzir, nesta relação, cada uma das sonoridades que compõe as canções que o público — faminto, diga-se de passagem — devora.

uma bateriacomhomem 
umbaixocomhomem 
umaguitarracomhomem 
umacordeoncomhomem 
umtecladocomhomem 
gadgetstecnológicoscomhomem 
umaguitarracomhomemcomvoz

Cícero termina o show com os dentes afiados a mostra cantando Açúcar ou Adoçante? e, quando se finda a participação das palavras e da voz na canção, ele se retira do palco onde permanecem disponíveis às nossas vistas os outros quatro músicos, uma massa de fumaça iluminada de amarelo e o microfone com o seu pedestal. Esta imagem dura tempo o suficiente para que eu me dê conta de que cícero, não é sobre cícero (e por isso já nem interessa que este nome seja iniciado com letra maiúscula). Se a presença dele no palco dá consistência ao trabalho é menos pela figura que ele é, e mais pela sua capacidade de coordenar forças e fluxos sonoros e humanos para criar textos e contextos musicais.

Embora o público, em geral, centralize a experiência artística musical na figura do cantor — que é neste caso também o compositor de todas as músicas apresentadas e progenitor da banda — o que cícero faz desde o princípio do show busca suavizar isso. O modo como o grupo de músicos pensa e elabora as passagens entre uma canção e outra aponta claramente para isso: a sequência de músicas se desenrola de forma contínua e quase ininterrupta; cada faixa é cuidadosamente costurada à próxima — salvando-se os casos em que o final da música é justamente elaborado pela suspensão de todas as sonoridades.

Quando cícero desaparece do microfone, permanece esta massa inventiva que é o cerne do trabalho e que não diz respeito somente a ele, mas a todos os elementos envolvidos tanto na criação das canções quanto na produção e construção dos shows. TODOS os elementos inclui os atravessamentos que perturbam o compositor artisticamente, os aparatos técnicos sonoros e cenográficos & seus operadores, músicoscomseusinstrumentos, os incansáveis desdobramentos que as conexões entre estes elementos fazem surgir, et cetera-cetera-cetera. Quando cícero desaparece do microfone permanece este corpo de sons, memória, texturas, cores, afectos, palavras que são toques, que são cheiros, e que se fazem na nossa própria carne. E que por isso duram. E que por isso co-movem. Movem junto e fazem mover.

A força do trabalho desses músicos é a força que tem as estruturas que se formam em rede: energia que se opera por conexões e que garante a sua existência por movimentos de agenciamento. Ao desmitificar a figura do cantor e olhar pra a obra (bleh!) assumimos o lugar de público participador (ex-espectador, como dizia Hélio Oiticica) e temos a possibilidade de esmaecer o modo consumista de lidar com trabalhos artísticos. E isso é tanto uma proposição quanto uma pergunta . . . De qualquer forma, este parece ser o caminho para o qual estamos sendo convidados ao acompanhar o trabalho do cícero: vê bem, isso é sobre a gente.

Podemos tanto tonificar este movimento, quanto destruí-lo.

É tudo uma questão de que palavras escolhemos para falar sobre o trabalho, de que gesto propomos quando nos direcionamos aos artistas . . .

Quero encerrar, mas não sei como . . .

Hoje, aqui no Rio, faz o que chamamos de frio. Não tenho dores, tenho fogo.

E iluminuras que duram

[1] Referência ao álbum lançado pelo músico em 2011, de forma independente, e que recebe o título de “Canções de Apartamento”.


Originally published at vasculhandoamor.wordpress.com on April 30, 2016.

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