Anansi por Brecht Evens

Cinco poemas de Carolina Luisa Costa

Eles morrem de medo de aranha

Mulheres que Escrevem
Jun 6 · 3 min read

Queria te falar muita coisa, Martin.
A vida nunca foi muito fácil dentro de nossa carne.
A América sangra na velocidade do esporro das barragens
De corpos soterrados enforcados suicidados
E a gente ainda insiste na paixão pelas coisas
Pelos gestos e palavras que dançam na nossa cabeça.
A mesma não explode por um milagre.
Viver é perigoso, e a América desconhece o valor da inocência.
A gente nunca soube, Martin. Não nos deram chance sequer
De puxar o ar
Em paz.

Tinha por volta de 8 anos
Quando notei riscos avermelhados cruzando o céu
Entre Serrinha e Cajueiro.
O carro preto pesado cruzava Madureira de ponta a ponta
Na ponta dos pés eu ficava na janela do quarto
Preocupada com os pássaros os gatos
Meu pai e os amigos dele na esquina.

Tem 22 anos que vi os riscos avermelhados.
80 é o número que transpassou o carro de Evaldo.
As crianças suburbanas nunca foram apresentadas
Aos cometas.

Foi quando eu percebi
O gosto pelo cheiro das máquinas
Da madeira dos elevadores antigos
Da poeira junto ao aromatizador de ambientes
De prédios velhos e ruínas
Vi a intimidade dos espantos
Não falta incenso em casa como também não faltam
Água sanitária e desinfetante com cheiro artificial de lavanda
Vi a criatura inventada pela cidade
Que quando caminha deixa marcas:
Colônia de alfazema e rastilho de pólvora.

Lilith não quis ficar
Embaixo do homem, e isso
Bastou para ser álibi
Violações invasões bárbaras
Muito perigoso a mulher
Mandar no próprio corpo
Muito perigoso o cordão
Umbilical que tece o mundo
Eles morrem de medo de aranha.

Olho muito tempo o corpo de um poema
Até porque é o meu corpo preto feminino
No papel dilacerado em versos rios
Atravessado pelo afeto e pela violência dos olhares.
Gosto do verbo atravessar.
É o que fazem os rios as pessoas
E os verbos.
O poema diz “olho muito tempo o corpo da poeta…”
Limpa a estrofe a faca o chão
E o sangue.

Carolina Luisa Costa

Poeta, nascida no Rio de Janeiro, em 23 de maio de 1988. É integrante do Respeita, coletivo de mulheres poetas e artistas. Esse ano, o coletivo lançou a publicação independente “São nossas as notícias que daremos”. Além das letras, a criatura também gosta de conversar com astros — astróloga, bruxa, sereia, filha de Xangô e Oxum. Estuda Arquivologia na Unirio.

Esses poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Uma conversa entre escritoras.

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