Cinco poemas de “Durante um terremoto”, de Helena Zelic

Durante um terremoto, não há distância que separe amor e política. Um dá lugar ao outro, seja no movimento de um verso, que separa ao mesmo tempo que une, seja no espaço entre o começo e o fim deste livro que vai confundindo, cada vez mais, um no outro, em um movimento lento, porém, irreversível. Placas tectônicas vão deslizando, se encontrando, se comprimindo, até que a força do contato entre elas se torna extrema. O deslizamento entre micro e macro, íntimo e público, pessoal e coletivo, amor e política, vai se tensionando, até que essas duas camadas se tornam a mesma em um ponto de encontro cujos tremores serão sentidos a longas distâncias.” — trecho do posfácio de Danielle Magalhães

dimensões

e se todos esses dias
toda a angústia, toda a treva
todos esses sonhos
todos os abraços
toda guerra e invasão
mais as terras dos quilombos
as festas e as decapitações históricas
o grande amor de nossas vidas
a revolução bolivariana
o nosso medo do escuro
os reflexos das poças d’água
o barulho dos bules ferventes
as certezas que escondemos
forem o sonho estranho
de uma cachorra velha
que se mexe, de olhos fechados,
na soleira de um mundo
por completo desconhecido?


cassandra

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer cheiros antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.


bem-vinda

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.


aula de poesia

na aula de poesia líamos gabriela
desalojada estrangeira, e dor,
disseram que eu era a melhor
para traduzir a palavra saudade.
todos me olhavam curiosos
e as bocas faziam curvas
na sinuosa formação das sílabas.

– a saudade é um imprevisto
que se alarga pelo continente,
poderia dizer
e mostrar tuas fotografias.
sinto falta do calor
mas vejo miragens.
o que veio primeiro, a palavra
ou o mundo?
questionaria ao país sem nome
já sabendo sua resposta. –

mas, desatenta, não soube falar.
pega no flagra trocava contigo
como cartas a doris dana, loucura
além da contagem dos dias
mensagens secretas,
minúsculos furtos.


setembro

os desenhos dos filhos pequenos
tinham sem exceção uma paisagem
sol amarelo e carros de polícia
triângulos em fila, cordilheira
um horizonte fechado
as crianças de 73 olhavam o mundo
e o mundo era esse
naqueles tempos
quando os papais
de repente
foram todos embora


procedimento básico

durante um temblor
imite os nativos, eles disseram.
se correrem, corra.
se pararem, pare.
se seguirem, siga.

se for preciso, você pode
segurar no braço
de uma desconhecida
porque você não é daqui
você não entende, mas eles sim
olha para a desconhecida com cara de medo
o que você sente é medo
conta os segundos
e ouve o barulho da terra
morrendo, não, crescendo
para onde eu não sei
depois você abre os olhos
como um recém-nascido você abre
e olha as paredes das casas
elas estão intactas
dessa vez, juro, estão.


Helena Capriglione Zelic (São Paulo, 1995) é poeta, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e militante da Marcha Mundial das Mulheres. Participou da construção da Revista Capitolina, coordenando a coluna de Artes e Literatura. Contribuiu com ensaios e poemas em diversos portais, revistas literárias e antologias poéticas. É autora dos livros Constelações (2016, Patuá) e Durante um terremoto (2018, Patuá), suplente do ProAC 2018 e finalista do Programa Nascente (USP) 2018. Durante um terremoto pode ser encontrado em seu site, junto a outros poemas e mais informações.


Esses poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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