Pintura por Annabelle Lanfermeijer

Cinco poemas de Marília Floôr Kosby

Poemas do livro “Mugido” (Coletivo Garupa)

e o coração de uma vaca sem nome
será que se come?

a ciência de se comer uma vaca

um quilo e tanto dentro do peito
cinco reais e treze centavos
por quatrocentos gramas
no balcão do supermercado

no estômago pesa
o que não se sente bater

do matambre ao coração
a cidade se encheu de moscas
porque se encheu de sangue


uma vaca furiosa
te passa por cima
te pateia
ganha no mato

uma mulher furiosa
quem sabe

que carinhos tem
uma vaca?


matar um touro
é coisa rara
comer um touro
pra desavisados

um churrasco de boi começa muito cedo, quando o machinho ainda
é um terneiro inteiro
arrancam-lhes os ovos, alguns homens e guris e
os comem mal assados enquanto festejam a virilidade de poucos

sem as bolas a peça míngua, o pênis
a carne de se comer fica igual a vaca

só que a vaca a gente deixa durar uns dez anos
porque pare
o boi vive de três a dois na pecuária de corte


os ruminantes devem ter uns quatro estômagos
tudo que eles engolem vida afora volta
eu não sei
quantas vezes!

e uma língua só
uma boca só
um cu apenas

mas o escroto de um ruminante
não se rompe assim no más
é muito mais forte que os demais
o saco desses animais
não cai assim
no más

por isso é possível capar os machos ruminantes
pelos mais diversos e experimentais métodos de emasculação:

empurrar as bolas de volta para dentro da cavidade abdominal
danificar o canal espermático com emasculador sem machucar a
pele do prepúcio
destruir as bolas a marretadas

sangrar não é preciso
tristes toscas engenhosas mandíbulas
as dos ruminantes

como será estar nessa vida
se vendo abortar
o vômito


doma gentil

adivinhar o pôr do sol no rosa súbito dos prédios ao leste prever a velhice das tunas pela altura
ver os cães só quando cagam
a higiene das carnes no supermercado

das ruas sem cães vadios

na sujeira deste bunker sob um morro que me rouba o oeste vadiar-te meu lombo sem que descalces as esporas lisas
e cuidar que as feridas não me sangrem
que só se perceba que tive dor depois que eu for coureada


Marília Floôr Kosby é uma poeta gaúcha, nascida na cidade de Arroio Grande, extremíssimo sul do Brasil, em 1984. É autora dos livros de poemas mugido [ou diário de uma doula] (2017), Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2013), e do ensaio “Nós cultuamos todas as doçuras”: as religiões de matriz africana e a tradição doceira de Pelotas (2015) — obra contemplada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 e com o Prêmio Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial IPHAN, 2015. Seus poemas estão em diversas revistas brasileiras de literatura e arte. É doutora em Antropologia Social, com formação complementar em futebol amador. Atua também como compositora, participando de festivais de música popular.


O lançamento carioca do livro “Mugido” de Marília Floôr Kosby irá acontecer dia 14/12, às 19h, na Vila do Largo (R. Gago Coutinho, 4 — Largo do Machado). E nós estaremos lá, em parceria com o Coletivo Garupa, organizando uma mesa de bate-papo às 20h30 sobre o livro com a presença da autora acompanhada das poetas Angélica Freitas, Bruna Mitrano, Stephanie Borges e da nossa curadora e também poeta Estela Rosa. Para confirmar presença, clique aqui.


Estes poemas fazem parte do livro “Mugido” do Coletivo Garupa e foram publicados na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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