Cinco textos da coletânea “Que os dedos atravessem a cidade”

Zine produzida pela Palavra Sapata com lançamento no evento Sapatão&Ficção


Lançamento da segunda tiragem da zine “Que o dedo atravesse a cidade” no evento Sapatão & Ficção

Sapatão & Ficção cola com a Palavra Sapata para trazer pra vocês o evento mais literário-sapatônico da cidade, no Mississipi Delta Blues Bar. Estarão presentes as autoras Fernanda Vieira e Cidinha Silva, com mediação de Natalia Affonso. Antes do bate-papo, irá rolar o lançamento da segunda tiragem da zine “Que o dedo atravesse a cidade, que o dedo perfure os matadouros” (2018), uma publicação totalmente independente da Palavra Sapata com idealização, curadoria e edição de Aline Miranda, Bel Baroni e Dri Azevedo. Ainda vai rolar show da Taís Feijão e cobertura do evento feita pelas gatas da Gataria Photography.

Pedimos às curadoras e editoras do projeto cinco textos para divulgarmos aqui na Mulheres que escrevem, para que vocês fiquem com esse gostinho da zine maravilhosa que veio ao mundo já com o pé na porta.


ICAMIABAS 2.0

Por Ana Beatriz Domingues (SP)

eu agora vou escrever poemas lésbicos
feito a angélica freitas
ou a maria isabel iorio
que escreveram poemas
lésbicos
e radioativos
feito também a poeta
que não vou dizer o nome
pois fomos amantes
por quase uma década
e ao final não sobrou
nem um nude
pra eu enquadrar
vou então gritar poemas
sobre mulheres
abertas
pois é preciso muitas bocas
para se amar uma mulher
nós mulheres
nos multiplicamos e
somos maioria, dizem
recentemente
demitimos satanás y
readmitimos lilith
para o setor de
recursos humanos
não vai sobrar
falo sobre
 falo


POR ISSO INVENTARAM OS QUARTOS

Por Maria Isabel Iorio (RJ)

minha boca na sua
buceta durante a sua boca na minha
buceta isso visto de fora
por alguém com sobrenome
dizem que parece tão inofensivo
quanto uma aranha
peluda imensa solta tremendo
de fome


— –

Por Gênesis (RJ)

Eu vi o futuro nas letras de tua canção e ele era sapatão.
Então imaginei que eu era instrumento e que no futuro você me tocava.
Dedilhando acordes no meio de minhas pernas, a lírica da tua língua compondo
melodias a meia noite, fazendo versos do meu avesso e nenhum medo.
Imaginei até que eu era fruta madura e tu me chupava,
me liquidificava e me bebia
Como o ritual da sua vitamina do dia.
Imaginei que eu era bicho,
gata no cio e me roçava no seu pescoço longo, me embolava
no seu cabelo curto e ronronava na tua orelha previsões de futuro.
De tanto imaginar desejei escrever uma poesia que criasse ponte concreta, onde
eu passava por cima de minhas inseguranças apenas para dizer por dizer, sem
esperanças, mas que dizendo eu me acercasse do teu corpo, das tuas palavras
no presente. Quem sabe sua boca que diz tanta coisa linda, ficasse perto da
minha boca cansada de sonhar sempre aberta.


APROXIMAÇÕES AMOROSAS

Por Natalia Borges Polesso (RS)

1. Tenho sono, saudade e distância. Caminho paciente uma estrada traiçoeira.
O vacilo prescreve. Revigoro o ritmo. Tenho pernas resistentes e um coração
ansioso, mas inatacável. Tenho meta: chegar em casa. Não a casa dura,
concreta demais; mas a casa amorosa, onde meu bem-querer te habita.
2. Quando a tua mão busca o justo espaço, o espaço posto, o espaço falta,
quando a tua mão busca, espalma, quando a tua mão busca coluna, pele,
quando a tua mão busca osso, a tua mão busca, digo, quando busca, a tua
mão busca quando busca qualquer coisa no meu corpo, digo, quando ela
busca não para encontrar, mas para seguir buscando, assim quando a tua
mão busca em mim; é sempre nosso encontro.
3. Com quantos copos de armagnac liquefaz-se o amor entre duas mulheres?
4. Ao acordar, te chamo. Você: lenta. Dentro do sono. Profunda: você. Eu:
superfície. Antemanhã. E te chamo naquela hora aquosa em que o peso do
corpo é nulo. Te chamo na hora em que tua coxa cobre o lençol amassado, na
hora que faz calor dentro (e tua coxa nua embaraça a cama). Te chamo. Você:
úmida. Desenho: saliva sobre travesseiro. Ao acordar: vinco, visco, isca, fecho
os olhos. Você: presença.
5. Bravura: a minha vida e a tua.


— –

Por Ludmila Rodrigues (BA)

também estou com saudade dela, frida
eu digo triste
com uma resignação própria de quem sabe
que cachorros não entendem língua de gente
é fim de tarde, eu fumo na janela
trago seu bilhete nas mãos
que diz fique calma, tudo é passageiro e ainda podemos
morar numa casa com piso de madeira etc
já reli vinte vezes
e ainda não consegui compreender nada
exceto a parte de que tudo é passageiro
penso numa casa com o piso de madeira
vejo a cidade de cima
tá tudo dourado
e ninguém percebe que eu grito


Minibiografia das autoras:

Ana Beatriz Domingues é artista-educadora e terapeuta holística. Publicou trabalhos nas Revistas Garupa, Raimundo e jornal O Casulo. Edita a página “Algo deu errado”, fruto do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas/SP . “Atlântida”, seu primeiro livro, será lançado em 2019.

Maria Isabel Iorio é poeta e artista visual. Publicou Em que pensaria quando estivesse fugindo, em 2016, pela Editora Urutau. Pesquisa a água na cidade e no corpo. Você pode ler mais poemas dela aqui.

Gênesis é escritora, poeta e um dos pilares do Slam das Minas RJ. Publicou o livro infantil “Cadê Martin?” (Chiado editora), “Delírios de (re)xistência” (Padê Editorial), de poesia, e as zines “O poema sai enquanto vc entra”, “Eros”, “Physis” e “Poiesis”. Sua grande marca é a leitura de poemas e você deveria vê-la recitando ao vivo.

Natalia Borges Polesso é uma escritora e tradutora brasileira. Autora dos livros “Recortes para álbum de fotografia sem gente” (vencedor do Prêmio Açorianos de 2013) e “Amora” (vencedor do Prêmio Jabuti 2016). Você pode ler uma entrevista com ela aqui.

Ludmila Rodrigues tem 27 e é baiana. Graduada em Letras Vernáculas (Universidade Federal da Bahia), publicou os livros O rosto xícara (2011) e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes (2013). Mantém o perfil L. R. no Medium. Você pode ler mais poemas dela aqui.


Bora lá? Então clica aqui para acessar o evento e saber mais informações (e convidar as miga, as crush, as namô)

Quando? 10 de novembro
Onde? Mississippi Delta Blues Bar | Rua Pedro Ernesto, 89 — Gamboa — Rio de Janeiro/RJ
Que horas? 19h
Entrada? Gratuita 
Precisa levar dinheiro? Sim! Para comprar livros, zines, brejeiras e pra contribuição consciente! Vamos fortalecer o trampo das sapatão!
A casa aceita dinheiro, cartão de débito e crédito.

Esses poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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