Cristina Parga
Oct 11, 2016 · 3 min read
Crédito Foto: Iwase Yoshiyuki| Fonte: https://www.ideafixa.com/a-historia-das-sereias-japonesas-cacadoras-de-perolas

Nas aldeias costeiras da China, por cerca de 2.000 anos, mulheres mergulhavam no fundo do Pacífico quase nuas em pelo, com apenas uma máscara e nadadeiras. As águas eram gélidas e as meninas (como sempre, treinadas bem cedo), ficavam minutos debaixo d'água, repetindo o mergulho mais de 50 vezes por dia. Não vou encher essa página de fotos lindas de chinesas de topless; mas há que se admirar a capacidade respiratória, o foco e a dedicação de quem consegue suportar o que é delicioso por breves instantes e, em questão de segundos, vira uma tortura: o mergulho.

Tortura ou prazer, eu não conseguiria viver sem treinar meus pulmões para aguentarem o máximo que puderem esse momento único, em que a pele é a nossa única fronteira com o azul. Nada se ouve além do murmurejar das águas (ou o bater do nosso coração?) e ficamos livres da gravidade, sociedade e outras amarras, inteiros com nós mesmos. Plenos.

Não estou fazendo aulas de mergulho nem de natação. Estou falando de ficar sozinha, num espaço que te envolve e separa da Terra, como o fundo do mar.

Por voltas da vida, sempre passei muito tempo só. Só, digo, fisicamente, sem ninguém à volta — independente de ter alguém pra chamar de meu amor ou de viver numa casa com 6, 7 pessoas. Mesmo numa relação, sempre a insônia me puxa da cama para momentos de plenitude comigo. Ou nos transportes públicos. Ou simplesmente ao andar de fones de ouvidos na rua.
Ou ao abrir um caderno e escrever.

A verdade é que gosto da solidão. Preciso. Adoro estar com pessoas — amigos e/ ou grupos grandes animados, com gente falando alto, bebendo, dançando. Adoro carnaval. Sou tímida, mas isso é característica pessoal, não diagnóstico. Minha fobia social está bem controlada, muito obrigada. Adoro estar em grupo, mas poucas vezes esses momentos me preenchem tanto quanto aqueles em que estou eu comigo, meu caderno e meu mundo interno. Sem ninguém para furar nossa bolha e esvair sua atmosfera de endorfina.

Um mundo interno amplo, livre, confortável como um cobertor quentinho de opioides, benzodiazepinas. Ou, por vezes, doloroso como um colchão de pregos. Mas intenso. Genuíno. Vivo.

Talvez algumas pessoas tenham uma tolerância maior à solidão. Eu aguento bem. Ou talvez precise. Porque há um ganho em se estar sozinha. Subestimado, mas está ali. Eu percebo. E devo ter percebido desde jovem, porque é nessa ficha que tenho investido minhas economias.

Pequenos prazeres como o conforto de estar seguro, poder fechar os olhos se a cabeça estiver rodando de tantas ideias sem que nos achem loucos, poder escrever horas sem perceber se é noite ou dia. Poder.

E aquele instante mágico em que estamos há horas imersos em alguma atividade e de repente o mundo vem e nos atravessa, nos preenche. Nos traz à tona, nos assombra. Não acontece toda hora, não há a menor certeza de que irá acontecer; é como um eclipse, meio raro. Mas depois que se vive esse encontro, fica difícil não esperar por ele. Porque essa espera alimenta qualquer ânsia, vai colorindo de significado o silêncio, povoando as manhãs preguiçosas, as tardes lentas, o por do sol que nunca mais.

É tentador trocar qualquer experiência externa por esse mergulho num submerso mundo de isolamento. Mas há um tempo limite.
E condições limitantes também.
Não se mergulha em mar revolto ou quando há tempestade, embora, muitas vezes, as águas ainda pareçam o único refúgio. É preciso cuidado. É preciso lembrar dos que ficaram ali presos, pra sempre; é preciso saber voltar.

Quando há alguém (companheiro(a), família, o que for) que se ama à nossa espera aqui do lado de fora, é mais fácil vir à tona. Com pérolas e pedras brilhantes, os olhos cheios de histórias para partilhar. Mas repito.

É preciso saber voltar.

Fonte: http://obviousmag.org/um_pais_possivel/2016/10/como-ficar-sozinho.html


Para ouvir o podcast que gravamos com Natasha R. Silva sobre este texto, clique aqui!

Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Cristina Parga

Written by

Escritora, pesquisadora, um pé no Rio o outro em Lisboa. Autora de "Qualquer areia é terra firme"(7Letras, 2015, romance) e "Furta-cores"(7Letras, 2012, contos)

Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

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