Imagem: Francine Van Hove

Das vezes que saí do armário

Eu não preciso ocultar meu amor, meus afetos, meus desejos

Sair do armário é uma expressão utilizada, e muito popularizada, para referir-se ao momento em que uma pessoa anuncia publicamente sua identidade afetiva e/ou de gênero. Estar fora do armário é ser, pois, a pessoa que se é. Mas assumir-se. Primeiro para si mesmx, depois para xs outrxs. Sem máscaras sociais, vestidas seja por medo(s), pressão familiar, preconceito no ambiente de trabalho, ameaças, alarmantes taxas de crimes de ódio, ausência de referências e apoio, dentre tantas outras dificuldades. Neste mundo, nesta era, neste instante em que vivemos, sair do armário é assumir-se lésbica, bissexual, gay, transgênero, queer, ou outra identidade que seja “fora do padrão”, padrão este estabelecido por… quem?

E se não precisássemos “sair” de coisa alguma? E se fossemos todxs naturalmente o que somos, livres em nossas experimentações e escolhas, conscientes desde a infância sobre as pluri-amorosidades com as quais poderíamos viver a vida? Haveria armários?

Eu me assumi poeta muito depois de me assumir lésbica, apesar de ter experimentado a poesia ainda antes, desde barriga adentro, quando minha mãe, grávida de mim, colecionava figurinhas do álbum “Amar é…”. Do ventre materno de uma professora de português tocadora de violão, eu ouvia os versinhos desse casal hétero peladinho e cabeçudo. São os fios frágeis e fortes da memória que tecem nossa identidade. Ou nossas identidades. Às vezes sentimos que somos algo, mas não sabemos que isso existe, que podemos ser isso. Assim, para eu entender as confusões dentro do peito causadas pela mudança de escola da amiguinha (lembro do meu choro dentro da kombi escolar), pela partida da Xuxa na nave espacial todas as manhãs, pela vergonha misturada com admiração pelas amigas da faculdade de minha mãe, pelas cartinhas amorosas que eu trocava com amigas especiais, pelo corpo febril com a sensualização da mulher na TV aberta — que hoje compreendo como exploração e repudio graças ao feminismo — , para tudo isso eu precisava, antes, saber que lésbicas existiam e, assim, entender que eu era uma delas. Que era natural sentir tudo o que eu sentia. Ainda assim, viria a alegria corada assistindo ao beijo entre as personagens meninas Clara e Rafaela em plena novela das oito — ainda que o beijo tenha sido por meio de uma peça representada pelas personagens na escola sendo uma delas vestida de “Romeu” (!). Ainda assim, viriam as lágrimas no primeiro beijo que dei em uma garota. Eu não queria admitir para mim mesma que eu estava amando uma outra mulher. Porque além da existência, é importante que exista representatividade. Quando aconteceu esse beijo, a única lésbica que eu conhecia era esta própria futura namorada. Eu vivia no interior do Rio de Janeiro e não sabia de ninguém que fosse, ao menos assumidamente, lésbica. Talvez umas cantoras que eu curtia. Mas elas não falavam sobre isso nas entrevistas. Menos ainda nas canções. Por quê? Eu não sabia. Mas, sem representatividade, eu não me via. Na literatura, então, na-da. Nem autoras que eu soubesse lésbicas, nem personagens idem. Nadinha. A gente ali não existia.

Imagem: Francine Van Hove

Ainda que eu viesse saindo de vários armários durante a vida: na faculdade, para a família, no trabalho (às vezes), na internet, na mídia, havia um em que eu ainda vivia. Dentro. Eu tinha muita vergonha de dizer que era poeta. De assinar como poeta. E foi só durante meu curso de especialização, ou seja, ainda depois da faculdade de Letras, lá para os meus 27 anos que, por um olhar de fora, empoderei-me do que eu já era desde os meus 9 anos de idade. Um homem, creio que hétero, mexicano, professor de literatura hispanoamericana, frente a turma, comentando um trabalho meu, intimou: “Aline, sai desse armário! (silêncio e cara corada pensando que ele falava sobre homossexualidade) Assuma-se poeta! (sorriso aliviado e rápida nova vergonha)”. A partir de então, comecei a trabalhar interna e externamente esta nova identidade poeta da qual tanto eu me orgulhava e ainda assim me ruborizava. Medo do olhar do outro. Do julgamento. Do riso debochado. A gente vive numa sociedade que cobra, exige, critica, condena. Mas essa mesma sociedade é composta também de pessoas maravilhosas que incentivam, ajudam, abraçam, convidam, partilham e fortalecem. Aos poucos, vamos descobrindo nossa tribo e os caminhos que queremos, juntxs, construir e seguir.

Para mim, é cada vez mais fundamental explicitar-me como lésbica em todos os espaços que ocupo e por onde transito. Isso inclui minha escrita, sendo ela tão parte de mim. Como válvula da vida a escrita me toma por inteira. Então, por mais que exista ficção, eu-lírico e qualquer coisa que o valha, o que escrevo sou eu ali. Eu criando. E eu sou uma lésbica, como diz o título dum romance de Cassandra Rios. Quando uma amiga emprestou-me esse livro, fiquei estatelada. Uma mulher escrevendo uma personagem principal lésbica! Pesquisei depois e li que Cassandra foi a primeira autora a vender um milhão de exemplares no país! Foi também das mais censuradas artistas na década de 1970, com proibição de quase todos os seus mais de 30 livros! E, hoje, segue tão pouco conhecida. Por que será?

Imagem: Francine Van Hove

Sabemos que muitas biografias de escritorxs suprimem informações sobre homossexualidade e outras identidades que não sejam a heterossexualidade. Na escola, nunca ouvi professorxs falando de algumx escritorx que fosse lésbica. Não me lembro, até assumir-me poeta, de ter lido ficção sobre o amor entre mulheres, salvo um (!) conto, lindo, que li já na juventude, da escritora Lygia Fagundes Telles: “Uma branca sombra pálida”. Mas lembro de imaginar-me em muitos personagens homens quando estes viviam seus amores com mulheres, em literatura, em música, em cinema e televisão. Era preciso vestir-se outro para sentir-me uma. Cantar uma música mudando um artigo ou ignorando o “eu-lírico” da canção. Ler uma poesia em voz alta pensando que se ali tivesse a palavra “mulher”, ao invés de “homem”, seria a poesia que fala minha alma.

Sabe aquela sensação de “esse poema traduziu o que eu sinto”? Acontece muito, mas nem sempre tal tradução é completa. Porque falta-nos repertório explicitamente lésbico na poesia da vida. Por isso a exaltação a cada romance como “Fores raras e banalíssimas” editado e levado ao cinema. Este com o plus de abordar personagens principais lésbicas sendo uma delas escritora, Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. É muita representatividade para meu coração poeta sapatão. A gente não está acostumada. A cada música lançada e difundida cantando aventuras sexuais entre garotas malucas tão normais como eu e você, eu e você sentimo-nos representadas, existidas. É uma felicidade quase infantil poder cantar uma música em que está tudo ali, sem precisar mascarar ou disfarçar. Talvez, para a maioria, esse detalhe passe despercebido. Mas é grande. Sinto muita falta de mulheres assumindo seus afetos por outras mulheres. Porque isso transforma opressões, isso suaviza preconceitos. Não sei se a poeta Ana Cristina Cesar era bissexual, como já muito disseram mas nunca li, mas ler em voz alta um poema seu que diz “da amurada deste barco / quero tanto os seios da sereia” é sentir-me ali, ainda que a “deusa” retratada seja a “inspiração”. Ainda que tanta coisa, uma mulher escreveu isso. Então eu também posso. Sem que eu seja questionada por isso.

Nada, Esta Espuma
Por afrontamento do desejo 
insisto na maldade de escrever 
mas não sei se a deusa sobe à superfície 
ou apenas me castiga com seus uivos. 
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.
(Ana Cristina Cesar)
Imagem: Francine Van Hove

Ainda assim, somos questionadas. E, para que não existam dúvidas, a cada poema que escrevo abordando sentimentos/sensações entre mulheres, faço questão que essa intenção seja explícita ali, em palavras. É uma preocupação. Porque eu não preciso ocultar meu amor, meus afetos, meus desejos. Ao contrário, preciso tirá-los de qualquer véu que possa cobri-los. A cada mulher que sai do armário, a cada poema que sai do armário, nós, mais fortes, existimos e resistimos. Quando uma lésbica sai do armário ela está dando a mão e encorajando outra mulher a fazer o mesmo. E na sociedade machista e patriarcal que (ainda) vivemos esse ato (ainda) é necessário, importante e preciso. Não é que tudo o que eu escrevo seja “sobre” lésbicas, mas, se for, que seja bem dito. Para que seja cada vez menos maldito. Cada vez mais dito.


Aline Miranda é poeta, feminista e sapatão. Virginiana de 1984. Nascida em Brasília, criada em Cabo Frio, vivida em Niterói (5 anos), Rosario (3 meses) e Rio de Janeiro. Poeta desde os 9, lésbica desde os 17, feminista desde sempre. Você pode acompanhar o trabalho da Aline pelo Facebook, Blog e Instagram.


Aqui você pode ler dois poemas de Aline Miranda, publicados na Mulheres que escrevem:


Agosto é o mês da Visibilidade Lésbica e dia 19 celebramos o Dia da Visibilidade Lésbica. Este texto faz parte da iniciativa Mulheres que escrevem e busca expandir nosso olhar para além do cânone e do que é considerado padrão. É preciso abrir espaços na Literatura, é preciso ler mais mulheres e falar sobre as mais diversas sexualidades. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!


Aline Miranda selecionou alguns trechos dos livros das escritoras que citou em seu texto para que você possa conhecer:

Eu sou uma lésbica (trecho)

Tirou um frasco da bolsa que completava o traje cancan de Folies Bargère. Apertou-o e o perfume esguichou em meu peito. O lança-perfume voltou para dentro da bolsinha — cheia de enfeites coloridos de pedras tremeluzentes — e ela se aproximou com o seu sorriso cheio daquelas estrelinhas de anúncios de pasta de dentes, lindo sorriso, delicioso, olhar perfurante, narinas arfantes, que mais arfaram quando sua cabeça desceu até o meu peito e ela aspirou o tóxico, fundo, bastante, repetindo a dose do lança-perfume que tornou a tirar da bolsinha, gelando os meus seios. Cambaleei com ela agarrada em mim e ouvi a zoada de gozação das minhas amigas, que estavam prestando atenção a tudo e me desafiavam a prosseguir, empurrando-me com ela para o reservado. Fecharam a porta.
Cassandra Rios

Uma branca sombra pálida (trechos)

Mas Gina não estava fazendo graça, estava séria enquanto guardava na sacola as suas sapatilhas, resolvera entrar para uma escola de bailado clássico. Foi por essa época que conheceu Oriana, a dos dedinhos. Começou então a se interessar por letras. Letras, Gina? É, Letras. Era o que a outra estudava. Você que sabe, respondi. Sempre concordei com tudo e adiantava discordar?
(…) Deixo a minha jarra com os seus botões empertigados ao lado das rosas de Oriana e penso agora que essas jarras ficaram grandes demais para um túmulo tão pequeno, Gina era pequena. (…) Acendo outro cigarro. Comecei a fumar deste jeito desde o dia em que Oriana esqueceu o maço de cigarro no quarto de Gina, experimentei um, era bem mais forte do que aqueles que eu fumava meio espaçadamente. Enquanto fui ouvindo os discos, não parei até esvaziar o maço. Então fiquei ali quieta, sentada no chão do quarto em meio das almofadas onde elas estiveram e sentindo ainda no ar aquele indefinível cheiro de juventude. Uma borboleta com desenhos prateados nas asas veio agora rondar a jarra das rosas vermelhas, não quis os botões brancos, a safada.
Lygia Fagundes Telles