Entre o amor e a originalidade

Somos todos iguais, segundo o Buzzfeed. Poemas são obsoletos, gifs expressam com precisão como nos sentimos. As idades estão todas catalogadas. Se você tem mais de 25 e ainda não aprendeu que o bom mesmo é curtir um vinho & Netflix, há algo de errado. É fundamental experimentar o valor terapêutico de gatinhos, cachorrinhos, pandas, entre outros. Evidentemente todos buscamos por esse conforto, já existem até grupos de apoio. Fazer parte é condição humana. Há, é claro, aqueles que não abrem mão de serem especiais, por isso apostam na distância — nem sempre esperta — e desprezam a afobação de quem se entrega a qualquer euforia coletiva.

Fico no meio do caminho. Detesto ano novo, mas acredito na força do carnaval. Não quero aceitar que penso e sinto como qualquer um, mas gostaria de ser amada por muitos — e amor vai de mãos dadas com a identificação. Às vezes parece que escrever vem da arrogante perspectiva de ter algo especial a dizer, ao mesmo tempo em que a mira é a banalidade falar junto, encontrar eco para a própria solidão. Acho que as coisas bonitas nascem de vontades pueris. Onde se vê o sublime, pode crer que há também a banalidade. Então qual o problema com o Buzfeed? Que mal há em nossas pequenas epifanias coletivas em meio a rotina virtual? Pode ser só essa vontade de fazer parte por um caminho mais demorado, sublimação e outras neuroses. Mas também existe um incômodo que me cutuca para além da vaidade. Porque a cada lista de 23 coisas que todo mundo já viveu aos 20 e poucos anos há um universo de imperativos. Primeiro, o recorte óbvio que todo mundo é sempre uma classe limitada. Depois os erros de perspectiva: por que afinal a gente insiste tanto em comparar nossas experiências?

Claro, dá um calorzinho no peito quando sentimos que não estamos sozinhos, principalmente quando não estamos sozinhos na merda. Compartilhar o mesmo desconforto provoca um contentamento que, mesmo sendo fugaz, é suficiente para nos distrair. Afinal, já temos mesmo outras 37 abas abertas, somos ótimos na desatenção. Percebe que aí já estou apelando para a terceira pessoa do plural, já estou supondo que quem lê é meu semelhante. Não consigo sair dessa lógica. Pensando bem, a mesma lógica que opera nossa rede social mais viciante. O Facebook funciona como uma bolha: Falamos com interlocutores seletivos, quanto mais falamos com eles, mais falamos só para eles. É fácil então supor um coletivo com a mesma linguagem, origem e doencinhas contemporâneas. Difícil é falar na primeira pessoa sem o respaldo da identificação. Difícil é contar com a diferença, lidar com ela. E por aí que nossos textos cada vez mais são confessionários tortos. Falar sobre si é sempre mirar o outro, nesse caso, cada palavra tem uma previsão de seus efeitos, likes & shares. Ninguém mais quer passar a vida sofrendo pra ter um valor cem anos depois de morto. Pedimos validação já. Uma selfie às vezes me salva de arrancar uma orelha.

Eu queria ter uma opinião fundamentada sobre isso. Mas cansei de viver meu tempo à distância, faço parte dessa confusão, experimento essas linguagens. Escrevo esse texto em meu Evernote já pensando com quem vou compartilhar. Acho que a Kim Kardashian tem uma genialidade que ainda não foi totalmente compreendida. Então, sei lá? Adoraria a certeza estúpida de quem aponta todos os defeitos e escolhe um purismo impossível como saída. Poderia ficar aqui falando sobre a incrível geraçãozzzzz, mas, na verdade, acredito que as vontades humanas são as mesmas, o que se transforma são os meios e os fins possíveis. Eu acho que estou me contentando com o que tenho para hoje e é muito pouco. Porque os meios são mais interessantes do que os fins. Principalmente quando a finalidade é me dar um consolo que não acalma e nem arrebenta as angústias. Eu me incomodo toda vez que escuto as palavras “produção de conteúdo”. Eu abro links automaticamente e me envolvo com imagens e ideias que instantaneamente me acolhem. Eu coleciono opiniões no Pocket e sinto meu tempo soterrado por palavras definitivas, frases de efeitos e certezas irrebatíveis. Eu sinto falta de escrever sobre o que não sei. Acho difícil sermos todos iguais, mas ainda acredito em pontos de comunhão. Mas esses pontos são densos e contraditórios, geralmente não são muito engraçados. É muito arrogante pedir por profundidade, mas enquanto a empatia e o encontro se concentram nessa superfície, a selva das vontades que nos movem vai se tornando um terreno abandonado. A conversa que não dá um passo além do previsto é um ruído estático. Excluída a diferença, não posso ouvir no espaço que só coube a mim. Eu diria que a solidão é subestimada.