Esse cabelo

Memória, família e imigração a partir de fios crespos

a escritora Djaimila Pereira de Almeida

Há quase uma década entendi que não valia a pena viver em uma batalha constante com meu cabelo. Ao longo desses anos, para além das tentativas e erros, a convivência com as pessoas me ensinou muito. É comum falar sobre cabelo, mas raramente pensamos nele como algo social, nas diferenças entre as gerações, em como está ligado a uma ideia de beleza. Quando soube da existência de Esse cabelo — A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras (Leya, 2017) de Djaimilia Pereira de Almeida, me senti grata, e um pouco menos sozinha.

Nada haveria a dizer de um cabelo que não fosse um problema. Dizer alguma coisa consiste em trazer à superfície aquilo de que, por ser segunda natureza, não nos apercebemos.

Entre memórias de infância, a história de sua família, mudanças de continente e o aprendizado das ruas de Lisboa, a autora nos traz para esse lugar rico, e às vezes sobre o qual tão difícil de falar a respeito, que é a experiência da pessoa mestiça. Ter uma família branca e negra, nem sempre se reconhecer nas pessoas que ama. Ouvir pela primeira vez na vida, de alguém próximo e querido, que é preciso fazer algo a respeito desse cabelo.

Djaimilia vai e volta no tempo para nos contar suas origens. O movimento familiar entre Angola e Portugal, a sensação de não pertencer exatamente a nenhum dos países. Seu texto mistura reflexões sobre identidade a partir da estética e da migração, assim como esses elementos se entrelaçam na vida. Enquanto questiona a banalidade de escrever sobre o cabelo, ela faz dele o pretexto para tratar de racismo, da representação e do aprendizado de conviver com a própria imagem.

Capa da edição portuguesa — Teorema, 2015

Penteados, frustrações após a aplicação da química, a busca por um profissional de confiança. O desconforto no ambiente do salão de beleza. É na observação do corriqueiro que Djaimilia expõe como padrões de beleza podem ser cruéis. Em que momento, ainda na infância, uma menina começa a ouvir que sofrer para ficar bonita é normal?

Sua prosa parece buscar um tom gentil, um pretérito imperfeito de cortesia para se aproximar de verdades duras. Da sensação de inadequação de quem se vê portuguesa em Angola e africana em Portugal, da mulher que não deseja se entregar aos rituais de hidratação e lenços de cetim para dormir. A narrativa de Djaimilia tateia a sutileza também para falar de si mesma e dos seus. Da menina/rapariga que foi, de seus familiares de tantas formas deslocados, que provavelmente, sem perceber, transmitiram a filhos e netos o senso de inadequação.

O meu desapontamento com o cabelo acompanhou-me ao longo de uma transmutação, de um prurido insignificante até uma urticária abrasiva: a transmutação da estética em moralidade, do secador em juiz, da falta de jeito em fatalismo, do penteado abortado em culpa, danação — da cabeleireira bruta em psicose.

No entanto, a fluidez do texto não esconde a violência. Ela se revela nos comentários sobre salões com cheiro de amoníaco, comentários de vizinhas, as maldades na escola. Esse cabelo é um livro muito maior do que esses momentos e não é sobre conciliação, mas sobre entendimento. Há um olhar para o passado que abarca vivências contraditórias e que constituem a história de sua narradora. Seu cabelo está na confluência entre banal e o político. E não há o que ela possa fazer quanto a isso, além de aceitá-lo. E daí vem sua tranquilidade, a generosidade e o distanciamento necessários para desfiar o livro do cabelo.

Fazer as pazes connosco parece-se, penso para comigo, com fazer as pazes com a nossa ascendência, como se estarmos bem na nossa pele adviesse do apaziguamento de termos uma família. Separam-se então as forças — à estética o que é da estética, à moral o que é da moral — para no instante seguinte nos depararmos com a maneira como tal separação de forças não pode ter lugar.
A autora: Djaimilia Pereira de Almeida.

Ficha técnica:

Livro: Esse cabelo
Autora: Djaimilia Pereira de Almeida
Capa comum: 144 páginas
Editora: LeYa (Junho 2017)
Idioma: Português