Imagem por Matt Blease

Estar no agora é um ato de resistência

Presente, passado, futuro e o vazio de símbolos

Não estou aqui agora. Talvez você também não esteja. Agora não quer dizer presente: este se constitui de memórias e expectativas, de passado e futuro. Estou no presente, é fato. Agora é um momento que constrói o presente, sim, mas estar aqui-agora exigiria estar vivendo este instante ativamente; porém, tudo o que me define no momento não é este instante em que escrevo, mas minha expectativa do que está por vir e lembranças do que semeei em outro tempo. Não viver o agora durante muito tempo é preocupante, semelhante a estar em um limbo de espera. Espera é o contrário de atividade.

Estar ativo é sinônimo de vida; tudo que é ativo é vivo. Estar em espera é sentir o tempo virado do avesso, olhar o futuro e aguardar que este se torne presente, olhar o passado e esperar que se manifeste logo em suas consequências: é algo fora da minha alçada. Esperar é suspender a vida. A sensação de ser engolida pelo tempo de espera me lembra muito da pintura de Goya, Saturno devorando um filho. Deus do Tempo, Saturno, ou Cronos para os gregos, devora suas crias para que estas não o sucedam. Gosto muito desta pintura por representar Saturno com os olhos ensandecidos e do corpo a ser devorado tratar-se de um adulto: é uma simbologia muito exata para a passagem do tempo.

Aliás, minha intenção não é tratar o tempo como algo maquiavélico, mas falar sobre como a espera, por si, não deve ser jamais o estrato do tempo em que devamos nos fixar. Todavia, onde teríamos que nos concentrar? Existiria uma forma de esperar ativamente? Desejo conhecer esse estado. O Desejo é um momento do tempo de extrema importância: participa da espera, mas cria outra dimensão para ela. Contudo, para irromper nesta, ou seja, no tempo da atividade, é necessária uma ruptura. E toda quebra se liga a um simbolismo. Porém, o que fazer quando o repertório simbólico de mudanças está completamente esgotado e não há mais rompimentos imediatos a serem feitos?

Há algumas semanas, fui à cabeleireira para mudar a cor do cabelo, mas em vez de mostrar a foto de alguém que encontrei no Google Imagens, levei uma foto minha de alguns anos atrás, em que estava com a cor me proporcionada pela genética, um castanho cheio de dourados muito bonito. Apesar da beleza do ato de levar uma foto de si, no lugar de uma celebridade ou simplesmente alguma pessoa com um padrão de beleza considerado perfeito, aquela pessoa da foto é tão intangível quanto à Gisele Bündchen. Claramente, gostaria de retornar a um tempo de prosperidade na minha aparência, no qual enquanto presente, não tive a capacidade de reconhecer como satisfatório. Acreditar no retorno dessa aparência é, em suma, ter esperança no passado. Em um passado que é mais desejado que o próprio futuro possível que está por vir. Tentar reaver aquela aparência foi uma tentativa frustrada de desculpar a mim mesma por não ter me cuidado naquele momento, uma forma de reconhecer o valor de quem eu era.

Destruir, aniquilar, dar fim, sempre foi minha maneira preferida de existir. Uma lógica do radicalismo: ir até o extremo para voltar sem nada. Nessas condições, já raspei a cabeça, já colori o cabelo de todas as cores disponíveis nas farmácias, já fumei um maço de cigarro inteiro em duas horas, já comi até vomitar, dentre tantos outros atos extremos baseados na ideia de que se eu provocar uma overdose de algo, em seguida estarei enjoada (no caso do cigarro e da comida) ou renovada (no caso dos cabelos), além de pronta para adquirir uma nova identidade, ao romper com o estado anterior. Este era meu repertório de simbolismos. No entanto, apesar de tê-los praticado à exaustão, o resultado das mudanças sempre foi igual a zero, ou pior: na tentativa de aniquilação, tornei-me mais evidente naquilo que me incomodava. Porém, chegou, enfim, o tempo em que me cansei, em que fiz algumas escolhas práticas e deixei a vida me levar, como canta Zeca Pagodinho. Esse repertório perdeu todo sentido para mim.

Contudo, o ser humano parece precisar demais de símbolos e rituais para existir. Com os meus completamente defasados, tenho me sentido constantemente desprovida da habilidade de viver. Somado a isso, somos continuamente empobrecidas com as narrativas impostas pela cultura que consumimos. Por exemplo, o manual de renovação de identidade determinado pelos filmes e seriados assistidos: a personagem, humilhada, resolve cortar o cabelo bem curto para demonstrar força. Isso pode funcionar na sua vida por algumas horas, mas passado o entusiasmo, você volta a ser a pessoa que é, mas talvez com um cabelo que não te agrade tanto. Se não consigo então absorver mais o que a cultura me oferece como repertório e nem sou uma pessoa religiosa ávida por um mistério maior que me guie, no que vou me sustentar? Implodi o edifício e me meti numa barraca de camping. Minhas estruturas mais profundas se constroem agora no meu corpo, embora não seja somente isso que esteja me redefinindo.

Um outro corpo, uma outra vida, está me chamando atenção nesse momento de reflexão sobre meu estado. Estou falando da minha gata, Isabeau, que tem me ensinado várias coisas. Ensinaria a qualquer pessoa que esteja disposta a praticar o exercício da observação. Isabeau é o seu próprio outro. Ela está deitada no sofá e, de repente, começa a brincar sozinha. Rola, escala, joga bola, se esconde de ninguém, corre atrás de nada, fica perturbada com coisas que não consigo saber o que são, para enfim deitar e dormir. Constrói uma narrativa sem interlocutor externo; a narrativa é dela para si mesma. Óbvio que possui necessidades de atenção alheia. O ponto, no entanto, é: ela existe agora. Não está em espera (talvez só pela ração), não se baseia em símbolos, não pensa. Dá para aprender um pouco sobre viver a partir da observação. Recordar que o corpo tem uma necessidade instintiva de estar em atividade é algo que me forço a fazer. A lembrança da animalidade do corpo é um tipo de pensamento que soterramos com entretenimento e cultura, mas que deveria ser imediatamente retomada para uma qualidade de vida melhor. Recuperá-la é um descondicionamento, este que talvez seja um dos maiores desafios humanos contemporâneos.

Um dos meus filmes favoritos, um desses de Sessão da Tarde, se chama Feitiço do Tempo (tem na Netflix). Caso não conheça, uma sinopse rápida: o personagem do Bill Murray é um cara extremamente mau humorado que vai cobrir um evento enfadonho em uma cidade do interior, “O Dia da Marmota”. No fim do dia, ele vai para o hotel dormir, mas, ao acordar, está novamente no dia anterior. Isso se repete inúmeras vezes, enquanto adota inúmeras posturas diferentes. No fim, acaba conseguindo despertar no dia seguinte. Há diversos momentos em que podemos pensar que o personagem tenha mudado suas atitudes, mas, não, tudo era apenas um desdobramento das mesmas ações que vinha tomando o tempo todo. A mudança genuína é algo difícil; vivemos a maior parte da vida no tempo do Dia da Marmota.

É claro que uma rotina acaba nos lançando dentro de repetições de atitudes e comportamentos por questões de sobrevivência: ninguém tem disponibilidade emocional de fazer uma transformação por dia, ou mesmo por mês — a gente faz o que dá para suportar o que é insuportável. O fato é que, mesmo sendo uma questão de sobrevivência viver o tempo como o vivemos, há de se fazer um esforço caso queiramos viver em vez de sobreviver e caso queiramos sair do tempo da espera, ou, ao menos, vivê-la junto à espera do desejo.

O que me leva a mais uma outra indagação: consegue-se viver entre ambas esperas? O tempo tem muitos estratos pelos quais transitamos; inevitavelmente, haverá dias de vida em suspensão e outros de atividade. Contudo, pode-se esperar e ser ativo, através do deslocamento da espera para o lugar do desejo, que dá sentido e ilumina a vida. A espera em si, vazia de significado, é algo próximo a morte, mas ao mesmo tempo é impossível evitá-la. Porém, perceber o tempo de forma diferente é completamente possível: basta pensar, por exemplo, durante as férias, estar na rua em plena quarta-feira no meio da tarde, e se assustar com o fato de ser um dia de semana, porque aquilo não cabe na definição que você concebe normalmente. Ser feliz é algo que não cabe na definição de quarta-feira. Este é apenas um pequeno exemplo de como o tempo é construído e engessado em certezas inventadas. O esforço a que me refiro é uma quebra de barreira, na qual a partir da vivência de mais agoras, ao ultrapassá-la, podermos entender e aceitar que nunca teremos uma nova identidade. Nós seremos sempre nós, com nossos passados e nossos futuros constituindo nosso presente. Contudo, nada nos impede entender e abraçar facetas insuspeitadas de nós mesmas que estão ocultas por outras tantas que fixamos e chamamos de Eu.


Para escutar o podcast que gravamos com Bianca Zampier, clique aqui!


Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link para conhecer nossa iniciativa!
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