Estojo de aquarela, doze cores

Eu dispenso a esses instrumentos um cuidado que não sabia que era capaz de ter. Porque esqueci como cuidava de você

Escrever sobre você é a coisa mais difícil que eu poderia fazer. Já escrevi outras inúmeras vezes, mas agora as circunstâncias são muito diferentes, como se eu já não tivesse mais nada o que dizer. Será, quem sabe?, a última vez. Só vou escrever sobre você porque outro dia mexi no estojo de aquarela que me deu. Abri com delicadeza a parte cartonada que o envolve, palavras em alemão na embalagem. Faz muito tempo e não lembro de quase nada. Acho que você o comprou em uma viagem e me deu de presente. Era uma época em que eu desenhava bastante, em que minha vida era menos texto do que é hoje. Havia espaço para imagens. Desenhar foi uma das minhas atividades favoritas por muitos anos. Eu sofria dos pulmões na infância e cansava rápido de correr, de me pendurar nas coisas. Passava então muito tempo pintando desenhos de outras pessoas e recordo de uma internação hospitalar que foi suportada com papel sulfite sendo preenchido por mim com canetas hidrográficas (isso quando a agulha-borboleta do soro estava no braço esquerdo; quando perdiam minha veia e a agulha me furava à direita, eu jogava jogos de tabuleiro com o adulto de plantão). Levantei a tampa do estojo e olhar as pastilhas de cores me agradou imensamente. Provavelmente reagi da mesma maneira anos e anos atrás quando você o deu para mim. As cores organizam parte da minha vida, minhas roupas, minhas anotações de estudos e o passar do tempo. Os ipês cor-de-rosa florescem primeiro, por volta de junho, na época da seca. Em agosto, alguns ipês brancos já estão carregados de flores e, só em setembro, os ipês amarelos se desfazem de suas folhas mostrando a reluzente cor de sua floração. Todos os anos são assim. Não à toa resgatei do fundo da gaveta da escrivaninha o estojo de aquarelas para colorir o desenho de um vaso de plantas que fiz na folha bege de gramatura 180, o vaso de jibóia que fica na estante perto da janela. Todos os anos que passei longe de você foram cheios de esperar o esquecimento chegar e eu tinha uma ânsia de saber se chegaria em tempos de ipê rosa, branco ou amarelo. Em tempos de quaresmeira ou de jasmim-manga. Eu andava pela cidade me perguntando se esquecer era criar um buraco ou encher o vazio de outras coisas, se era possível tomar de volta minha vida para mim, se eu conseguiria um dia não sentir dor — ou se a dor só mudaria de cheiro, de gosto ou de aparência. Ao mesmo tempo, tem também essa coisa da minha solidão, né? A minha solidão e a sua, juntas, nunca deixaram de ser solidões. E desenhar sempre foi uma boa combinação para o meu estar só (a sua solidão também se amigava de outras atividades e me pergunto se algum dia você sentiu falta da minha solidão como senti da sua). Eu sou cheia de rituais. A aquarela me força a cumprir um cerimonial: encho o copo com água, enfileiro pincel e lápis. Coloco uma música (algum álbum de Joni Mitchell, provavelmente "Blue"). Eu dispenso a esses instrumentos um cuidado que não sabia que era capaz de ter. Porque esqueci como cuidava de você — e das nossas solidões. Diante da folha de papel, sei que é preciso molhar o pincel, mas não muito. Esfregá-lo na pastilha, mas não muito. É um exercício de precisão e contenção, muito mais do que de expressão. Eu erro, procuro não me irritar, entender imperfeições. Mas odeio errar e as doze cores dispostas à minha frente me fazem lembrar de você me dizendo que era bom que eu passasse por coisas horríveis contigo. Aperto o pincel com força no papel e as fibras se dissolvem. Que raiva! Escuto de novo você me dizendo que eu aprenderia coisas importantes se passasse por coisas horríveis contigo. Largo o pincel com o sangue correndo quente pelo corpo. Levanto com uma fúria nada característica da minha personalidade fleumática. Escancaro a janela e acendo um cigarro. Um cigarro da mesma marca daquele que compartilhamos quando você disse que eu aprenderia com sua falta de carinho e de consideração comigo e que quando aprendesse, e só se eu aprendesse, ficaria bem de novo. Encho os pulmões já tão mirrados de fumaça. Recuso-me a aceitar o que você quis me ensinar. Solto uma longa baforada e reitero mentalmente. Recuso-me a tornar-me cínica, a desviar do amor, a desconfiar das pessoas. Eu quero aprender a ser boa, a amar sem medo e a viver sem sofrer pelos dias que virão. Inalo a fumaça mais uma vez e sei que me recuso firmemente a tornar-me o que desprezo e solto o ar com mais calma dando-me conta de que é só esse o controle que tenho sobre minha vida, o de saber quem não quero ser. Paro de pensar um momento para olhar para os vasos com pequenas plantas suculentas perto da janela. A imagem do meu cacto surge muito clara na minha mente, um pedaço tão pequeno de planta que ele era oito anos atrás. Nesse período, os cladódios se fizeram caule e os espinhos se fizeram flores, flores que nascem o ano todo, em um tom de vermelho que poderia conseguir com uma daquelas pastilhas de aquarela. A minha dor, se não acabou, se parece mais com a palma que floresce no deserto do que com a efemeridade alegre dos ipês.



Essa crônica foi publicada na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa não só debater questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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