Eu não acredito em dinossauros

As pessoas diziam não acreditar no fim do mundo, mas bebiam como se não houvesse ressaca adiante

Camila Chaves
Oct 28, 2018 · 3 min read

Um cometa em rota de colisão com a Terra e a turma fazendo disso a maior piada do mundo. Vocês não levam nada a sério! Ensaiei dizer. Mas preferi seguir em silêncio, rindo da gente, de mim e das minhas preocupações infundadas. Até ali, havíamos sobrevivido às balas soft, aos anos dois mil e às profecias de Nostradamus. Desacreditamos.

Bruna riu.

Terceira Guerra Mundial, explosão do Vesúvio, radiação extraplanetária e a mais estranha afirmativa sobre o avanço da telepatia e de que o porco um dia se tornaria um irmão para o homem. Isso tudo é loucura! Alguém disse. Não sei se Ana Luiza ou Marina. Talvez João Marcos. Mas isso de todo é desimportante diante dos fatos.

O bar estava cheio. A sensação era a de que todo mundo falava naquele instante. Contraditórias, como quase sempre, as pessoas diziam não acreditar no fim do mundo, mas bebiam como se não houvesse ressaca adiante. Alguém fez piada dizendo que se tudo acabasse mesmo, até que seria bom, já que os tempos não eram os melhores.

Foi aí que me perdi.

Nunca acreditei que fim do mundo fosse solução para as coisas. Que o universo ou os outros resolvessem os problemas que são nossos nunca me pareceu sensato. E fui seguindo essa linha, sem dizer nada, ali onde todo mundo falava. Até o momento em que pensar sobre isso me incomodou e eu fui cuidando de pensar em outras coisas.

Um cometa em rota de colisão com a Terra e eu em pé na porta da tua casa, segurando nas mãos um chocolate e um exame cardíaco. Rabiscos feitos num desses dias em que se tem certeza que vai morrer do coração, mesmo quando o médico diz que não costuma ser comum morrer do coração sendo tão jovem quanto a democracia.

Estão dizendo que o mundo pode acabar amanhã, eu te diria. E falaria com voz falada todas as coisas não ditas nas cartas. E lamentaria ter passado tanto tempo sendo distante, mesmo não fazendo ideia de como ter feito de um jeito diferente. Eu te pediria desculpas de novo. Eu te amo, diria também. Enquanto pensaria em tantas outras portas.

Mas nada disso teria sido por medo. Eu não estou sentindo medo. Tu sorririas ao me ouvir dizer e os nossos olhos brilhariam de lágrimas emocionadas. Queria estar em pé na tua porta agora, mas estou aqui e vejo que entre os que acreditam no fim, há quem se desespere e até quem comemore. Mas nada disso está dado, nada está assim tão claro.

Eu não acredito em dinossauros.


Para ouvir o podcast que gravamos com Camila Chaves, clique aqui!


Esse conto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa não só debater questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Camila Chaves

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Vê. Sorri. Escreve. Relações Públicas e Mestre em Comunicação. De São Luís-MA a Fortaleza-CE.

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