Natasha R. Silva
Dec 7, 2016 · 3 min read

Há muitos anos, lendo mais um dos muitos livros indicados pela Taís, tive um daqueles momentos dignos de filme adolescente. Veja bem, eu era adolescente, eu já queria ser escritora há anos e, principalmente, eu queria escutar e ser escutada.

O livro era o Um livro por dia — Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company, do Jeremy Mercer. Enquanto lia aquelas páginas e sonhava com um dia poder ter uma experiência parecida com a de Mercer, uma frase em especial me chamou a atenção, me deixando num estado de transe e reflexão desses que te obrigam a parar a leitura e concentrar na própria vida. Parei e escrevi aquela frase no caderninho da época, ocupando a página inteira para dar sentido à importância do que aquilo significava para mim.

O caderno já se perdeu pelo mundo, mas a frase ficou gravada na minha cabeça e costuma surgir sempre que estou buscando a maneira certa de colocar em palavras o que quero dizer. O texto dizia (com o perdão da licença poética para algum possível erro, já se passou muito tempo):

“É preciso usar as palavras como balas de canhão se você quiser atingir as pessoas”

Essa frase me guiou por muito tempo. Sempre que escrevia, pensava em como queria atingir o íntimo dos outros com o que eu dizia, provocar uma identificação, estimular uma revelação. Também queria atingir a mim mesma, alcançar um outro estado de espírito, experimentar um lado de mim que se mantém oculto na rotina e que só vem à superfície nesses momentos em que consigo escrever. Quando escrevo, sou outra pessoa, alguém mais completo — ou talvez mais consciente das suas lacunas.

Acontece que eu não escrevo há seis meses.

Ou talvez mais, não sei dizer. Este ano escrevi algumas notícias, outras notas e observações. Mas há uns seis meses se definiu sem eu perceber tanto a minha mudez. Sempre tive uma dificuldade, mas nessa época se tornou mais árdua essa luta para que as palavras engasgadas saiam de dentro de mim de alguma maneira. Minhas palavras não me atingiam, nenhuma palavra me atingia.

Há quase seis meses meu padrinho morreu. Eu sabia que isso ia acontecer algum dia, claro. Mas foi a concretização de um medo que trouxe comigo quando saí do Rio em 2014. O terror de não voltar a ver o Dindo com vida.

Eu lembro que estava no meu quarto, em casa, no Rio. O Dindo estava internado em Portugal há alguns dias. Ele tinha decidido viajar, apesar de não estar 100% bem de saúde. O telefone tocou, minha mãe atendeu e, ouvindo só um lado da conversa, eu já sabia.

Minha mãe veio até o meu quarto me dar a notícia e, antes que ela dissesse qualquer coisa, eu disse. “O Dindo morreu”. Eu sempre detestei esse verbo. Mas naquele dia, essas palavras, junto daquela realidade irreversível, ficaram ali, congeladas no ar.

Desde então, eu não escrevi. Também tentei não me mover muito, não fazer muito barulho, não ir para atrás nem para frente. Fiquei parada no tempo, me deixando levar. Deixei de ser um pouco.

O Dindo fazia aniversário no mesmo dia que eu. 8 de março. Eu nunca gostei muito de fazer aniversário, mas eu gostava de dividir isso com ele. E há seis meses aconteceu essa quebra inexplicável do tempo em que ele foi e eu fiquei, fazendo aniversário sozinha.

Eu perdi um pouco o rumo a partir daí. Não sabia para onde seguir, nem o que estava acontecendo comigo. Via o tempo passar, imóvel, estupefata, sem reação diante do descontrole que é a vida — e a morte. Só sabia que, se algum momento quisesse despertar, seria para escrever sobre o Dindo, para que pudesse sentir a saudade e a dor em cada palavra que me atingisse outra vez como uma bala de canhão.

Ainda me sinto sem rumo. Mas pelo menos hoje, depois de quase seis meses, consigo escrever. E, sem dúvidas, consigo sentir tudo outra vez.


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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Natasha R. Silva

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Cocriadora da Mulheres que Escrevem. Gosto de descobrir coisas.

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