Eu não preciso ser feliz

Masashi Wakui

"Eu não preciso ser feliz", foi o que respondi.

E, de fato, não preciso. Ou não sei ser. Ou não nasci para isso. Ou não acredito que a felicidade pode ser um tipo de estado permanente. Sobretudo, não acredito em estados permanentes. Do ciclo da vida à entropia do universo sem deixar de lado, é claro, os estados de ânimo ao longo dos anos, das semanas, mesmo de um único dia: tudo é fluxo.

Lembrei então de um quadrinho do Oatmeal — How to be perfectly unhappy — e que de fato desenha tudo o que penso (e sinto) a respeito da tal felicidade.

Em vez de ser feliz, eu escolhi (?) ser “ocupada, interessada, fascinada.” Eu não sou exatamente feliz, tampouco infeliz: eu sou curiosa. Uma única existência humana (por mais longa e privilegiada que seja) não consegue dar conta da multiplicidade de experiências possíveis. E não faz mal que eu sequer arranhe a superfície dos meus múltiplos interesses, na verdade tanto melhor.

"Eu leio. Eu leio livros longos e complicados sobre coisas muito inteligentes. E eu leio livros pequenos e bobos sobre coisas muito estúpidas. Eu leio até que as histórias sejam mais fascinantes para mim do que as pessoas que me rodeiam". Eu não poderia me colocar melhor. Os livros tem sido meus companheiros há anos e a Literatura — por mais devastadora que ela seja — foi o único amor da minha vida que jamais me decepcionou.

Na esteira da leitura, dois prazeres adquiridos: o primeiro, é claro, é escrever. Para contar as histórias que eu gostaria de ler. Para criar personagens e fazer com que eles se movam pelas linhas. Para jogar tudo fora e começar de novo. Para editar à exaustão, e passar semanas obcecada com equilíbrio, com ritmo, num jogo de forças comigo mesma que não vou jamais vencer. E, ultimamente, dar aulas. Para falar sobre meus textos favoritos. E para tentar tirar algum sentido dos textos que odeio, mas preciso me debruçar sobre. Não para os dias ruins, mas para os bons, quando consigo passar para eles um pouco do meu entusiasmo a respeito de alguns versos ou parágrafos.

Eu leio, eu escrevo, eu dou aulas. E assim tem seguido o grosso da minha rotina no último ano e meio. Mas eu também cozinho, jogo videogame, saio para longas caminhadas e faço dancinhas na rua enquanto ouço música nos meus fones de ouvido, sem qualquer tipo de pudor. Eu também procrastino muito: sou capaz de virar especialista em algum assunto obscuro só para não fazer algo que me enche de tédio.

Desenho para me acalmar e gasto mais tempo com redes sociais do que deveria. Acho de muito mau gosto o Netflix perguntar se ainda estou viva ou assistindo algo depois da quinta hora seguida… mas é claro que estou. Eu fotografo coisas absurdas que as pessoas perdem na rua e não mostro para ninguém. Eu economizo cada centavo que posso para viajar para onde quer que seja e, se mais dinheiro tivesse, para mais lugares viajaria.

Estou há anos tentando me ensinar, com graus variados de sucesso, espanhol e francês, edição de áudio e photoshop, crochê e automaquiagem, meditação e costura. E há outras coisas que quero aprender na lista: alemão, programação, roteiro de audiovisual e pelo menos um instrumento musical.

Eu planto coisas em Petrópolis. Eu entendo um pouquinho de jardinagem. Eu não entendo tanto assim de biologia, física e matemática, mas isso não impede que eu continue lendo artigos ridiculamente além das minhas capacidades a respeito. Noites estreladas me fazem chorar, assim como um gatinho egípcio que vi uma vez num museu e que tinha sido entalhado no oitavo século antes do início da era cristã. Um dos pontos altos da minha vida foi ter passado a mão em um meteorito com milhares de anos. Outro foi ver uma baleia se agigantar na água e abanar a cauda para o barco em que eu estava.

Eu não preciso ser feliz.

Eu preciso arranjar jeitos de pagar as contas, me manter saudável, mimar meus gatos, sair para beber meus amigos e celebrar os 92 anos do meu avô. Eu preciso saber lidar com a sensação embasbacante de que há tanto mundo lá fora. E que também há tanto mundo dentro de mim.

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