Eu sou essa outra

Entrevista com a dramaturga Carla Kinzo e com a diretora Vera Egito, responsáveis pela montagem da peça “Eu sou essa outra”

Fabiane Secches
Jun 7, 2018 · 6 min read

Quando Liv Ullmann nasceu, em 1938, uma enfermeira teria se curvado e murmurado à sua mãe: “Infelizmente, é uma menina. A senhora prefere informar pessoalmente seu marido?”

Em Mutações (1976), livro de memórias de Ullmann, acompanhamos o relato de parte de sua história de vida, incluindo o casamento de cinco anos com o cineasta sueco Ingmar Bergman. A parceria profissional entre Ullmann e Bergman foi mais longa: ao longo de quatro décadas, trabalharam juntos em alguns dos principais filmes do diretor, entre eles Persona (1966), Gritos e Sussuros (1972) e Sonata de Outono (1978). Em 2000, Ullmann dirigiu Infiel, que Bergman roteirizou.

Mas, para além da frutífera colaboração profissional, são os conflitos dessa relação que costuram os fragmentos de Eu sou essa outra, peça de Carla Kinzo que está em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, sob direção de Vera Egito. O texto também faz referência à peça Casa de bonecas (1879), de Ibsen, que Ullmann encenou diversas vezes ao longo da vida, e ao filme Persona, de Bergman, que protagonizou ao lado de Bibi Andersson.

Kinzo, doutoranda em Letras pela Universidade de São Paulo, passou pela Escola de Teatro Célia Helena e é formada também em Cinema. Egito, que vem do cinema, faz sua estreia no teatro com essa peça. Com elenco e equipe técnica inteiramente composta por mulheres, Eu sou essa outra rememora Nora, importante personagem de Ibsen, e oferece uma leitura de Mutações a partir das pautas feministas atuais. O título da peça também saiu do livro.

Embora tenha sido publicado há mais de quarenta anos, alguns trechos do livro de Ullmann infelizmente permanecem frescos, como é o caso da discussão em torno da equiparação salarial. Já em outros momentos, parece mais datado, ou ao menos apequenado frente a outros debates, como quando Ullmann se queixa da dificuldade em ir sozinha a um restaurante e do preconceito contra as mulheres divorciadas. De todo modo, é espantoso pensar que algumas das críticas feitas por Ibsen no final do século 19, e referidas na peça de Kinzo, continuam válidas ainda hoje.

“Ser mulher nos coloca, desde o nascimento, em um lugar específico na sociedade e isso é refletido em todas as nossas escolhas. Homens e mulheres. Somos seres repetitivos e algumas heranças culturais se mostram tão enraizadas que podem até parecer imutáveis. Mas não são”, escrevem as atrizes Maria Laura Nogueira e Rita Gullo no folheto da peça, em tom bastante politizado. Nogueira e Gullo dividem o palco com Nana Yazbek. A trilha da peça é de Camila Cornelsen, que trabalhou com Egito no filme Amores urbanos (2016), e o figurino, que aposta em boas soluções para marcar as diferentes temporalidades, é de Emanuelle Junqueira.

Na entrevista abaixo, Kinzo e Egito falam sobre o processo de criação e montagem da peça.


Como surgiu a ideia de levar Mutações para o teatro?

Carla Kinzo: Li o livro pela primeira vez muitos anos antes, assim que a Cosac Naify o lançou e nunca me ocorreu escrever um texto a partir dele. O projeto partiu das atrizes Rita Gullo e Maria Laura Nogueira; elas me propuseram a ideia. Quis, então, articular essas memórias ao texto de Ibsen, Casa de bonecas, na tentativa de ecoar a personagem Nora em Liv, que a fez tantas vezes no teatro. E Persona é muitas vezes rememorado em Mutações. Aquele silêncio dela no filme é algo que quis trazer à cena. Esse ser muitas, e muitas vezes a mesma personagem (e cada vez de um modo diferente); a mistura de si experimentada pela atriz às narrativas construídas em cena, tudo isso era uma engrenagem que queria experimentar. Acho que o trabalho da dramaturgia tentou atuar principalmente na fronteira entre esses materiais diversos.

Como foi a experiência de escrever uma peça que parte de diferentes formatos?

Carla Kinzo: Partir do livro na direção dos outros materiais, a peça do Ibsen, o filme do Bergman, foi uma proposta da dramaturgia – já que me interessa particularmente a contaminação de linguagens, a coisa ensaística, o contágio. Mutações é claramente um ponto de vista; quis investigar como ele reapareceria estilhaçado nesses outros materiais, sob novas conjugações. A narrativa não linear, fragmentada, diz respeito a uma certa operação da memória que hesita, que recusa o estatuto de verdade. Assim, para colocar essas reminiscências no teatro, para mim, fazia sentido se fosse possível reconfigurá-las por meio da ficção.

Que diferenças mais importantes vocês destacariam entre a experiência do cinema e a do teatro no cenário contemporâneo?

Vera Egito: A experiência do teatro é efêmera. O texto perdura, claro. Mas a encenação é algo que está na memória de que viu e só. E acho que o espectador de teatro tem noção disso. Na experiência única que ele vive ali. O nervosismo dos atores é também da plateia: o que vamos experimentar aqui? O coração sempre dá um breve acelerada após o terceiro sinal. Um ritual coletivo vai começar. Essa é a grande mágica do teatro. Aos filmes que amo, assisto três, quatro, dez vezes. Reassisto durante a vida toda. Eles seguem o mesmo filme enquanto eu e o mundo mudamos. Isso é belo também. É quase como se filmes fossem marcos. Testemunhas e provas dessas mutações que não os atingem e que em contraponto a eles se revelam.

Além dos textos citados diretamente no enredo, há outros textos que foram importantes durante o processo de montagem da peça?

Vera Egito: Há uma carta-manifesto de Chimamanda Ngozi, Para educar crianças feministas, que li ano passado, durante a idealização da peça. Chimamanda escreve uma carta a uma amiga grávida. O texto é singelo e contundente ao mesmo tempo, assim como os escritos de Liv, assim como o texto de Carla. Chimamanda fala sobre como educar uma criança para que ela consiga exercer sua liberdade respeitando a liberdade alheia. Lembro que quando li, pensei em Liv e em seus questionamentos. Ela não foi criada para ser livre, nem para amar a liberdade própria e a dos outros, mas ela chegou a isso. Liv conseguiu construir essa educação em si mesma, para si mesma. Mutações, Eu sou essa outra e Para educar crianças feministas falam da mesma coisa. O primeiro, rememorando uma jornada autônoma do passado, o segundo, lançando um olhar atual sobre as transformações vividas e as ainda por viver, o terceiro apontando para um futuro, uma nova geração que deixará tudo isso para trás construindo uma sociedade melhor, mais próxima da liberdade tão almejada por todos nós.

A peça dirige um olhar crítico a Bergman, ao mesmo tempo que faz referência a Persona, um de seus filmes mais importantes. Como vocês veem a obra do cineasta atualmente?

Carla Kinzo: Gosto muito de seus filmes e a relação entre Liv e Bergman, que é bastante complexa, durou quarenta e dois anos (muito mais do que os cinco em que permaneceram casados). Liv faz bastante referência a essa relação no livro; por meio dela, ela se revisita. Acho bonito esse movimento de ruminar um percurso tão forte e transformá-lo em ruínas – talvez só assim algo novo possa ser criado. Se o passado pode ser constantemente modificado pelo presente, que nossas memórias do que passou possam estar sujeitas à destruição. A figura do Bergman, em Mutações, nesse sentido, é bastante ruminada. E a peça vai nessa direção também – acho que tentando, ao mesmo tempo, olhar esse tempo de agora.


Eu sou essa outra está em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Mais informações .


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Uma conversa entre escritoras.

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