Há muitas formas de passar pelo luto, de colocar o que sentimos pra fora. Estes modos não são menos válidos ou legítimos quando uma pessoa negra morre

Fernanda Kalianny
Mar 22, 2018 · 5 min read
Fonte: Instagram @marielle_franco

A notícia da morte de Marielle Franco chegou como um choque, fiquei paralisada. O coração acelerou, as mãos ficaram suadas e, do lado externo, pairava uma cobrança para que todos reagíssemos.

“Mais uma morte negra…”

“Mais uma mulher negra assassinada…”

“Se você não está sentindo medo, não entendeu ainda o que aconteceu…”

Eu não consegui reagir. Não fui ao ato. Passei pela Avenida Paulista, mas o abatimento me levou de volta para casa.

Depois disso, tentei estudar, escrever, fazer a vida ir adiante. E até pensei se Marielle estava feliz antes dessa tragédia, sabendo que se dedicava ao que acreditava e com a certeza de que fazia a diferença. Pensei, inclusive, que talvez todas ou pelo menos todas nós — que nos importamos e lutamos para que o mundo seja mais justo — devêssemos ter esse tipo de certeza quando a morte chegasse (ou fosse enviada até nós, como ocorreu com ela). A certeza de fazer diferença. De deixar um legado para os que vierem depois.

Naquele dia, tentei fazer tudo que precisava fazer, apesar de sua morte. E fiz isso porque precisava me manter em pé durante o dia e depois dele também. Ou porque me cobrava que fosse corajosa, como ela havia sido em vida — e continua tendo sua coragem sendo espalhada no mundo, em morte. Ou ainda porque eu não conseguia processar o tanto de informações que vinham em minha direção.

Ontem, no entanto, foi a primeira vez que meus olhos encheram de lágrimas, o suficiente para molhar o vestido que estava usando. Foi quando a ficha caiu. Quando, enfim, processei o acontecimento. E só pude fazê-lo ao ver a entrevista de Monica Benício. Diferentemente dos sentimentos fugazes e instantâneos, a entrevista dada por ela ao Fantástico, tirava a tragédia ocorrida dos muitos dados espalhados pelas redes sociais.

A entrevista humanizava o acontecimento. Não era apenas a Marielle figura pública e polí­tica que eu lamentava agora. Era também a Marielle esposa, mãe, filha. Era a esposa de Monica, com quem estava há quase 13 anos e fazia planos de oficializar a união, em setembro de 2019. Era Marielle que comprava aos poucos o que seria usado para decorar o apartamento das duas. Marielle, filha de Marinete e Antonio, aquele que disse, na entrevista, ter certeza que somente com a morte poderiam calá-la. E mãe de Luyara, de 19 anos, que não contará com a mãe para vê-la tornando-se adulta.

Então notei que a mesma fugacidade que nos envolve quando mortes como essa ocorrem também nos impossibilita de sentir como o nosso corpo e mente precisam sentir. É como se houvesse uma fórmula, um ritual das redes sociais, um desespero centralizado em um dia, em um momento específico. Poucos minutos depois, a tentativa de dizer quem era a pessoa que morreu torna-se uma espécie de apagamento de quem ela era. E não é que Marielle não fosse uma mulher bissexual, negra e favelada. Não é que Marielle não fosse de um partido de esquerda. Também, que ela não estivesse trabalhando em nome de tudo que acreditava. O caso é que ela era tudo isso, mas não só. Ela carregava todas essas bandeiras, mas não só.

Não duvido de forma alguma que a cor de sua pele tenha se somado aos fatores para que ela tenha sido assassinada, mas não acho que ela deva entrar para a história como um número, algo que parece acontecer quando colocamos nossas emoções em formato de manchetes e ela se torna mais uma mulher negra assassinada. Ela está presente em nossos corações e mentes, como símbolo, mas ela também está morta. Seus planos, sua vida, seus sonhos morreram e ela não pode ser substituída.

Fonte: Instagram @marielle_franco

Ao notar esse movimento lamentei um pouco menos não ter conseguido ir ao ato, ter me forçado a controlar o medo e a ansiedade que estava sentindo. Percebi que há muitas formas de passar pelo luto, de colocar o que sentimos pra fora. Estes modos não são menos válidos ou legítimos quando uma pessoa negra morre, ainda que tentem naturalizar o ceifamento de nossas vidas. É por isso que agora escrevo.

Escrevo para dar forma ao que senti. Para sair da pouca complexidade das redes sociais. Para dizer aos que leem o quanto sinto muito pelo ocorrido. O quanto é necessário que a luta coletiva persista. Mas que isso não será possí­vel se não nos centrarmos também nos sentimentos que saem ou se acumulam dentro da gente. Se não nos humanizarmos e humanizarmos nossas dores. Entendendo que nem o pânico imediato, nem a total indiferença nos levará a lugares frutí­feros.

Com o peito cheio de dor, mas alimentado também por esperanças, consigo manifestar agora meus sentimentos e solidariedade a todos aqueles que conheciam e amavam Marielle, e também aos que passaram a amar e a conheceram depois de sua morte. Porque o luto, a tristeza e o poder entregar-se ao que sentimos, ultrapassando nossas frases prontas, também faz parte desse cuidado e respeito, não só a Marielle, mas a nós mesmos. E talvez seja uma das únicas formas de não cairmos nas garras da fugacidade e do anestésico esquecimento que finaliza os rituais de luto da web.


Este ensaio foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, mas abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Fernanda Kalianny

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Como forma de mudar as margens habitadas, sigo escrevendo. Sejam ensaios, artigos, poemas ou contos. Sobre amor ou antropologia. fernandakmsousa@gmail.com

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