Ilustração por Minkyung

Lésbica e sapatão: quero ser todo dia um pouco mais

“Lésbica”. A primeira vez que ouvi essa palavra eu estava na sexta série. Havia uma pichação no banheiro da escola e perguntei a uma amiga o que significava. Com muita naturalidade e alguma surpresa por meu desconhecimento, ela respondeu: “ué, são mulheres que gostam de outras mulheres, sabe? Elas não se casam ou namoram homens”.

Fui tomada por um misto de desconfiança e conforto por aquela resposta. À época, havia uma colega de classe que eu admirava muito. Passava dias pensando no colorido da boca, dos olhos e de suas bochechas. Eu adorava passar tempo com ela, nossas conversas longas ao telefone e os momentos que eu sentia frio na barriga — além de alguns constrangimentos.

Os anos foram passando, mantínhamo-nos próximas. Ainda assim, eu não tinha muitas ferramentas para nomear o que eu sentia. Tudo que eu sabia era que o cheiro dela ficava guardado na minha memória. Se fosse um menino, talvez eu pudesse ter pensado naquela relação como um primeiro amor. Mas era uma menina. Então eu ficava pensando se era algum tipo de inveja feminina. “Será que eu quero ser ela?”, me atormentava.

Ilustração por Minkyung

Por volta dos treze anos a pressão para que eu beijasse um menino começou. Todas as minhas amigas ficavam com meninos. Uma me disse ao telefone que eu estava ficando para trás e precisava fazer algo para corrigir isso. Daí eu fui lá e beijei. Um beijo molhado com gosto de pastilha barata de hortelã.

E-C-A.

Fui tomada por muito nojo. Escovei os dentes mil vezes depois disso. Comentei com algumas amigas, ao que elas me disseram: “é assim mesmo, a gente estranha no início”. E eu aceitei a resposta.

Um tempo depois, fiz sexo com um garoto. E perguntei para ele: “é assim que faz sexo? Não tem outro modo de fazer não?”. Não tinha gostado. Não senti exatamente nojo, mas também não senti nada além de meu corpo em algum tipo de atividade.

Ele achava que eu estava interessada em algo mais “intenso”, chegando a perguntar se eu queria assistir uns filmes com ele. Eu não queria. Eu estava mesmo me perguntando qual era a desse rolê, por que a penetração era tão superestimada. Por que existia tantas piadas sobre isso? Talvez eu não questionasse fazendo uso dessas palavras, mas o sentimento que me passava era esse.

A adolescência se arrastou. Fui lidando com essas questões como uma espécie de “é assim que as coisas são”.

Às vezes vinha de relance em minha memória a explicação do que era ser lésbica. E corroída por dentro, eu pensava que se fosse para gostar de meninas, era melhor abdicar de minha vida sexual e amorosa. No susto, de repente minha vida era decidida, “se for para ser assim virarei freira!”. Esses pensamentos tomavam algumas tardes minhas e algumas madrugadas. Ficava estatelada na cama, com os olhos arregalados no escuro.

Ilustração por Minkyung

A vida adulta chegou com a faculdade de humanas. Tive relações de companheirismo com alguns namorados. Essas relações se davam ao mesmo tempo em que eu ganhava novas ferramentas para nomear e dar sentido aos meus sentimentos e às minhas relações. Achei que precisava explorar mais meu corpo, que precisava ter mais experiências. Fiquei alguns períodos solteira. Gostei de alguns meninos. Beijei algumas meninas.

Beijá-las era enquadrado por mim como um tipo a mais de “exploração do corpo”. Eu não me imaginava namorando garotas. Aquele velho pensamento de virar freira me habitava ainda em algum cantinho. Ou as justificativas bobas como “bocas de meninas são muito macias”; “é estranho, elas têm seios”.

Os 23 anos chegaram. E uma redescoberta que mexeu toda a minha estrutura física e emocional veio junto, galopante: apaixonei-me perdidamente por uma mulher. Sentia-me em uma adolescência tardia.

Tive febres de saudade. Escrevi um milhão de poemas, inclusive sobre seios e bocas — não tão macias assim. Senti meu corpo expandindo. Renomeei muito do que sentia. Tive medo também. Depois me senti livre. Plena. Como até então não havia sentido. Vivi dias mais intensos do que o que havia tido até então em minha vida amorosa.

Ilustração por Minkyung

Também vivi confusões. Receios. Pensava se meu passado me permitia me colocar como lésbica. Li. Estudei. Pensei muito. Conversei demais. Encarei-me no espelho. Percebi que minha admiração por várias mulheres não era porque queria ser como elas. Na verdade, eu as queria junto de mim, de outro(s) modo(s).

Namorei o alvo da minha paixão arrebatadora. Neste processo, experimentei um milhão de sensações. Inclusive de coração quebrado. Aprendi a não idealizar relações entre mulheres. Na prática, percebi que éramos muito complexas e nossas relações também podiam ter inúmeras questões problemáticas. Tudo isso só me fazia querer mais e vivenciar ainda mais outras relações com mulheres.

O coração quebrado remendou. Tive o coração repleto de amor de novo. Dei risada dos acontecimentos. Tomei muita cerveja. Sobrevivi a um monte de dores. Não tinha mais caminho de volta, eu realmente havia renascido por dentro, por fora e para todas as minhas relações. Não era uma fase. Eu era LÉSBICA — é tão bonito dizer.

Aos 26 — quase 27 — acredito que o mais importante disso tudo, foi notar que essa caminhada de construção de mim mesma enquanto lésbica seguiu o ritmo que eu podia seguir. Foi um processo longo e árduo. Mas foi o meu processo. Não consigo mais me pensar apenas como mulher ou como mulher negra ou mulher negra nordestina. Ser lésbica está aqui, colada a essas outras identidades que aciono e carrego comigo diariamente.

E o meu pensamento mais recorrente tem sido: que a vida seja longa para eu poder ser cada dia mais sapatão. E para amar cada vez mais esse jeito que agora eu posso enxergar minha vida. E é esse pensamento que me faz dividir um pouquinho da minha história com vocês, nesta narrativa simplificada que escrevi para comemorar mais um mês da visibilidade lésbica e sapatão.

Viva às sapatonas! Vivas às lésbicas! Viva à(s) nossa(s) forma(s) de viver (e fazer) amor!


Agosto é o mês da Visibilidade Lésbica. Convidamos Fernanda Kalianny Martins para compartilhar sua vivência enquanto mulher lésbica, ampliarmos a visibilidade e expandirmos nosso olhar para além do cânone e do que é considerado padrão. É preciso abrir espaços na Literatura, é preciso ler mais mulheres e falar sobre as mais diversas sexualidades.


Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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