Mulheres que editam

Sobre as Sofias e Annas por trás das páginas

Young Woman in the Reading Room in a Library, Thomas Jakob Richter

Tenho orgulho de dizer que ganho meu sustento com a profissão mais antiga do mundo para uma mulher: editora! Vamos imaginar juntos a seguinte cena: Rússia, século 19, nascimento de uma das maiores (em ambos os sentidos) obras literárias da humanidade. A maioria das pessoas provavelmente pensará na figura de Tolstoi escrevendo Guerra e Paz, certo? Mas espere um pouco… Quem é aquela outra figura ali atrás, escondida nas sombras? Ah, sim! É a esposa do gênio, Sofia Tolstoi, reescrevendo o manuscrito pela sétima vez.

Junto a ela temos muitas outras, Russas ou não, de séculos passados e atuais, que dedicaram suas vidas à produção editorial. Com muita frequência, eram (são?) as esposas ou filhas dos escritores as responsáveis por editar, revisar, digitar, indexar, pesquisar, traduzir e cuidar dos esforços comerciais para a venda e divulgação dos livros. Vez ou outra também salvaram algum manuscrito das chamas. Tarefas corriqueiras do mercado editorial. (Desnecessário dizer que, como as mulheres sempre foram especialistas em multi-tasking — um sinônimo bonito de exploração — , muitas fizeram tudo isso enquanto pariam, amamentavam, tomavam conta de pencas de filhos, cozinhavam, lavavam e administravam o lar, de forma que seus digníssimos tivessem a paz de espírito necessária para se dedicar integralmente aos arroubos criativos. Mas voltemos à edição).

Olha o que eu faço com teu manuscrito, escritorzinho folgado!

Felizmente, as coisas evoluíram ao longo dos séculos e a profissão de editora ganhou alguma formalização. O que não significa que tenha ficado menos difícil, apenas (um pouco) melhor remunerada. Por um lado, percebo que o mercado editorial hoje é um espaço bastante feminino. Pelo menos na experiência que tive trabalhando em editoras no Rio de Janeiro, vi muitas mulheres em diversas funções e setores dessa cadeia, inclusive ocupando cargos de liderança. Por outro lado, não vejo esse mesmo reconhecimento no imaginário coletivo. Talvez a percepção intuitiva ainda seja o estereótipo do editor poderoso e descobridor de talentos, com seu chapéu Fedora e fumando um cigarro atrás do outro (essa descrição acabou saindo uma mistura dos clichês de jornalista e detetive, que se pensarmos bem é a perfeita síntese de um bom editor).

Para achar esse exemplo feminino, me vejo recorrendo ao universo da moda, que não deixa de ser um outro braço do mercado editorial. Para mim, não existe editora mais poderosa e relevante no mundo do que Anna Wintour. Ela representa a personagem da mulher poderosa à frente de uma casa editorial, mandando e desmandando, revelando talentos e, de certa forma, colocando sua marca em conteúdos originais. Infelizmente, como muitas mulheres poderosas, é pintada como uma megera dominadora e não como o cara bonachão e divertido que é amigo de seus autores e discute alterações enquanto toma uísque com eles, como muitas vezes são retratados os editores literários.

Anna Wintour veste Prada, veste a coroa e é dona da p*rra toda

Saindo da esfera pública das celebridades editoriais e aterrissando na realidade proletária da produção de livros, a principal dificuldade para uma mulher ainda é ser tratada com inferioridade (nada de novo aí). Em um ou outro impasse, senti que só fui levada a sério quando um editor-chefe (homem e mais velho) entrou na conversa e defendeu a mesmíssima opinião que eu vinha argumentando sem sucesso. Não restrinjo essas dificuldades apenas ao fato de ser mulher, pois lidar com esse tipo de conflito é um processo de amadurecimento que faz parte de qualquer trajetória profissional (e até pessoal), mas não posso deixar de me perguntar se não seria um pouco mais fácil se eu fosse homem. E mais velha.

Ainda assim, não posso reclamar de como o mercado editorial me tratou até hoje. Sou bastante otimista nesse ponto e acho que, num mundo tão machista e patriarcal, ser editora não é uma profissão particularmente sofrida para as mulheres. E talvez justamente aí se esconda o verdadeiro problema: há quantos anos a sociedade não construiu essa barreira invisível, que permite às mulheres editar, mas não escrever? Dedicar seu tempo e seu talento a uma outra voz, na maioria das vezes masculina, ao preço de calar a sua própria? Se no ramo da edição há relativo espaço para as mulheres, será que o mesmo se pode dizer dos espaços nas prateleiras das livrarias?


Pra terminar, destaco algumas editoras que valem a sua atenção:

Guarda-Chuva

A pequena e charmosa casa editorial é capitaneada por Alice Galeffi, uma talentosíssima editora, designer, professora e artista com quem tive o prazer de trabalhar (e com quem continuo a dividir conversas interessantes e projetos ambiciosos). Sem jamais ter se definido intencionalmente como uma “editora de mulheres”, a Guarda-Chuva construiu um catálogo fortemente marcado por autoras femininas, tanto nacionais como estrangeiras, tratando dos mais diversos temas. O que mostra que dar espaço para mulheres no mundo literário é (ou deveria ser) absolutamente natural e intuitivo. Ora essa!


Zahar

Fundada por Jorge Zahar, um dos mais respeitados publishers brasileiros, a tradicional editora foi posteriormente dirigida por sua filha, Cristina Zahar, e por sua neta, Mariana Zahar, que foram capazes de modernizar a marca sem desvalorizar o peso histórico de seu nome, ampliando o catálogo de forma inteligente e certeira. Ainda hoje continua a ser uma das mais importantes editoras brasileiras, e quase que totalmente conduzida por mulheres. Todas elas brilhantes, é claro.


Ubu

Com uma equipe totalmente feminina, encabeçada por Florencia Ferrari e Elaine Ramos — ambas ex-diretoras da saudosa Cosac Naify — , a mais promissora editora independente já mostrou a que veio, lançando projetos ousados e graficamente primorosos. Um maravilhoso ato de coragem literária em tempos não muito amigáveis. Que venham mais como elas!


Conhece mais alguma editora ou profissional mulher que trabalhe no mercado editorial? Indica pra gente! É sempre bom conhecer cada vez mais iniciativas e projetos liderados por mulheres.