Entrevistamos a autora de Pó de Parede, Sinuca Embaixo d’Água, Todos Nós Adorávamos Caubóis e O Clube dos Jardineiros de Fumaça

A Mulheres que Escrevem entrevistou a escritora Carol Bensimon, autora de quatro livros: o livro de contos Pó de Parede e os romances Sinuca Embaixo d’Água, Todos Nós Adorávamos Caubóis e O Clube dos Jardineiros de Fumaça.


Carol, conta pra gente como foi o processo de se descobrir escritora. Em que momento da sua vida você descobriu que era isso que queria fazer? O que despertou o seu interesse pela escrita?

Toda criança brinca com bonequinhos, Lego, caixa de sapato, embalagem de xampu, inventa mundos, cria historinhas. Eu acho que continuei fazendo isso depois de “passar da idade”. Continuei interessada em fazer ficção. Na época do vestibular, acabei me inscrevendo para Publicidade, porque tinha uma vaga ideia de que aprenderia um pouquinho de várias coisas que me interessavam (cinema, literatura, psicologia). O curso não foi de todo ruim, e em uma das disciplinas eu realmente produzi contos, meus primeiros contos. Na mesma época, também fui fazer a oficina literária do professor Assis Brasil, a oficina mais tradicional daqui de Porto Alegre, com duração de um ano. Ali, essa vontade de escrever — que antes eu via quase como uma excentricidade totalmente desconectada da vida profissional, tipo alguém que tem uma coleção de selos — começou a se tornar mais concreta.

Você diria que tem um projeto de escrita? Tem algum tema ou objetivo que atravessa o seu trabalho?

O projeto de escrita é sempre um projeto em andamento. Não é muito calculado, talvez vá mudando a medida que a gente vai mudando também. Mas há temas recorrentes sim, e acredito que você vai tocar em alguns deles nas próximas perguntas.

Quanto aos “objetivos”, acho um pouco duro pensar nesses termos. Não enxergo a literatura como algo tão concreto, cartesiano. Acredito que os “objetivos” devem ser da política, da ciência, não da arte.

Ouvindo o podcast da Companhia das Letras, descobri que a ideia para escrever O clube dos jardineiros de fumaça surgiu em 2012, em uma viagem para a Califórnia enquanto você ainda estava escrevendo seu segundo romance, Todos nós adorávamos caubóis. Como surgiu exatamente a ideia inicial do livro? Como se começa um livro com tantos personagens diferentes? E como essas diferentes vozes vão se desenvolvendo?

A ideia inicial surgiu do meu fascínio pelo lugar. Eu gostava da paisagem dramática que encontrei no condado de Mendocino — falésias, sequoias, cabanas de madeira –, das pessoas exalando contracultura e do funcionamento complexo e sutil da região, onde se planta a maior parte da maconha consumida nos Estados Unidos.

Criar tantas vozes foi bem difícil! Havia uma espécie de diagrama de personagens na minha cabeça e nos meus caderninhos, mas as personagens realmente foram se tornando mais complexas, mais tridimensionais, à medida em que fui escrevendo. Antes do trabalho da escrita, elas são só um esqueleto. As frases, uma depois da outra, é que vão colocando “o recheio”.

Pelo podcast também soube que sua pesquisa foi divida em duas etapas: uma mais focada em conteúdo, em leituras e dados, e outra mais empírica durante os seis meses em que você passou na Califórnia entre 2016 e 2017. Como essas pesquisas influenciaram seu processo criativo?

Eu, na verdade, passei oito meses no total (os seis que você citou, mais dois em 2015). Acredito que isso foi mais do que influência no processo criativo, foi o processo criativo mesmo. Não haveria romance se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci lá, visitado os lugares, vivido a vida que se vive em um lugar rural do norte da Califórnia. São todas essas informações e sensações adquiridas que me serviram no momento de sentar na frente do computador e escrever. Eu recorria a todas essas memórias recentes, a detalhes de pessoas que vi na rua, a situações que me foram relatadas, a coisas que li nos livros.

Ultimamente se fala muito sobre vivermos em um mundo cada vez mais homogêneo e globalizado e, junto a isso, parece uma tendência comum que a ficção esteja mais centrada em nossas próprias cabeças, em diálogos e narrativas que parecem livres de uma territorialidade. Mas seus livros não são assim, pelo contrário, as paisagens, as cidades e suas particularidades parecem ser elementos decisivos para sua escrita. Como você pensa e escreve sobre as cidades? E como foi escrever os personagens de O clube dos jardineiros de fumaça, considerando que são personagens de um país, de cidades e de contextos diferentes do seu?

Acho que você tocou em bons pontos. Mas eu não saberia dizer se a ficção de hoje está mais livre da territorialidade, e se o que levou a isso foi certa homogeneização do mundo. É uma tese que parece coerente. De qualquer maneira, o mundo está aí, e há um sem número de diferenças culturais e territoriais para serem percebidas, ainda que as ruas das grandes cidades se encham de lojas da Starbucks e que todas as pizzarias hipsters se pareçam em termos de decoração, em São Paulo ou Istambul.

Talvez o que me interesse seja retratar essas duas forças lutando — a homogeneização e as particularidades. No O clube dos jardineiros de fumaça, ao menos, isso acabou se tornando um dos temas do livro.

Como foi criar esses personagens americanos? Foi um processo delicado. Precisei ler muito e conviver muito com as pessoas de lá para me sentir segura o suficiente.

Em O clube dos jardineiros de fumaça, há um momento em que Arthur começa a falar em um bar na Califórnia sobre as pizzas brasileiras, em um deboche muito próprio do humor brasileiro que flerta com autodepreciação, ao mesmo tempo em que tem um certo orgulho das nossas bizarrices. Quando estive fora do país me vi fazendo exatamente esse tipo de comentário. Isso foi algo que você vivenciou na Califórnia? Essa experiência fora do Brasil fez você repensar o que significa ser brasileira? Como foi ser uma escritora brasileira morando nos Estados Unidos?

Ressignificar o que é ser brasileira a partir de uma vivência no exterior era algo que já tinha acontecido antes, quando fui morar em Paris, em 2008. Isso, de certa maneira, está no meu romance anterior, o Todos nós adorávamos caubóis. Acho que há uma coisa muito interessante que acontece quando a gente está fora do país que é um impulso de “explicar o Brasil” para as pessoas. Não é tanto porque elas estão pedindo isso; é porque a gente tem vontade de fazer isso. Pode ser que a gente queira se escutar. Estamos, no fundo, explicando o Brasil para nós mesmos? Possivelmente.

Sobre ser uma escritora brasileira nos Estados Unidos: não houve um grande choque cultural. A Califórnia é um estado muito peculiar, quase um outro país em muitos sentidos, incluindo o que se refere à imigração. Segundo levantamentos, 44% dos residentes da Califórnia tem outra língua, que não o inglês, como língua materna. E a região de Mendocino, especificamente, é um lugar muito interessante, é uma terra de exilados voluntários.

Tem um texto seu para o blog da Companhia das Letras chamado “A informação é o novo personagem” em que você faz uma distinção entre romances que priorizam a informação e romances de “clima”. De alguma forma, em O clube dos jardineiros de fumaça você parece conciliar essas duas categorias, porque, apesar de ser um romance que gira em torno de um certo tema e apresenta informações, dados e até perfis históricos, é também um romance que tem sua própria atmosfera. Isso foi algo pensado ao longo do processo de escrita desse livro? Como foi esse trabalho de transformar uma pesquisa tão profunda e detalhada em um texto de ficção?

Legal você fazer essa aproximação. É, nesse texto eu falo em romances que, por extrapolarem no número de informações e por colocarem seus temas à frente do conteúdo “humano”, me parecem frios e distantes. Não pensei nesse texto e nessa oposição entre mecânicos romances de informação e romances que defino como “de clima” enquanto estava escrevendo meu romance. Mas tenho certeza que ler, ler muito, sempre ajuda a gente a definir onde quer estar, esteticamente falando. E, como você bem apontou, havia um risco bem grande nesse livro, porque eu precisava lidar com bastante informação histórica e geográfica. Mas eu sempre quis que tudo isso estivesse à serviço da atmosfera do livro e das personagens. Havia uma preocupação em construir personagens convincentes e com seus dramas pessoais, que não necessariamente tivessem alguma ligação com maconha, por exemplo.

Em 2016, eu li o Uma estranha na cidade, e agora, em 2018, lendo O clube dos jardineiros de fumaça, senti como se eu tivesse tido acesso aos bastidores do romance, já que muitos dos temas e experiências que estão nesse último livro também fazem parte das suas crônicas. Fiquei pensando se as crônicas funcionam um pouco como um lugar para limpar as arestas do romance, para escrever sobre o que se está escrevendo. O que você pensa sobre isso? Para você, qual é a diferença entre escrever crônicas e escrever um romance?

Sim, muitas vezes as crônicas serviram para expôr reflexões que surgiam do próprio processo de escrever ficção, ou de estar vivendo nessa terra estrangeira para escrever ficção, etc. São coisas que eu não podia, ou melhor, não queria colocar no romance, porque não estou muito interessada em escrever romances que reflitam sobre si mesmos.

Escrever crônicas e romances sempre foram coisas muito diferentes para mim. Entendo que o gênero crônica permite que se possa ser mais narrativo, literário, mas meus textos de jornal tendiam ao argumentativo (estou usando o passado porque parei de escrever no Zero Hora). Nos romances, há menos discurso e mais sugestão. Mas claro que muitos dos meus temas preferidos podem ser encontrados nos dois. A diferença mesmo é o tratamento que recebem.

Um tema que aparece tanto em seu livro de crônicas, quanto nos seus dois últimos romances, é a bissexualidade e uma ideia de sexualidade não exclusiva. Isso é uma coincidência inconsciente ou é um tema que você decidiu abordar? As suas crônicas dão uma sensação de que você pesquisou sobre esse tema. A pergunta é: essa pesquisa inspirou a escrita ou a vontade de escrever te levou a pesquisar? Ou seria um caminho de duas vias?

É um tema que me interessa bastante. Pesquisei mesmo sobre isso em algum momento, acho que em 2012, e daí escrevi um ensaio para o jornal Zero Hora, posteriormente também publicado no Uma estranha na cidade. E a bissexualidade, a sexualidade não exclusiva, não era algo que estava na pauta naquela época, diferente de hoje. Mas não foi essa pesquisa “teórica” que me levou a retratar essa sexualidade fluida na literatura. Simplesmente aconteceu.

Tenho a impressão que O clube dos jardineiros de fumaça é um livro polifônico atravessado por muitas perspectivas. E, embora em momento algum você aborde diretamente questões de gênero, sinto que esse é um tema que está lá. Somos contemporâneas de uma nova onda de movimentos sociais que questionam os paradigmas de gênero e sexualidade e esse debate tem tido uma influência expressiva na literatura — transformando não só o tema e as abordagens dos livros, mas também nos fazendo repensar a própria história da literatura. Como você pensa e vive isso? Quais seriam os possíveis riscos e frutos dessa influência?

Concordo que é um livro polifônico, o que aconteceu de uma forma bem orgânica ao longo da escrita: as personagens femininas, Sylvia e Tamara, foram crescendo muito, a ponto de quase eclipsarem Arthur, o “protagonista” do romance, na acepção mais tradicional do termo. E essas duas mulheres, claro, são atravessadas por questões que envolvem gênero (ambas) e sexualidade (Tamara), cada uma com as particularidades das suas gerações (Sylvia tem quase 60 anos e Tamara está na faixa dos 40).

Como você disse, eu não abordo diretamente questões de gênero, e espero continuar assim, independente das tendências da literatura e das lutas políticas das minorias, que são de extrema importância, não me entenda mal. A literatura é feita de sutilezas, e um romance é uma obra estética que exige decifrações. Se você joga na cara das pessoas o “subtexto”, aquele objeto perde muito como arte. Não se trata de escrever algo indecifrável, mas sim de construir um universo ficcional complexo, que explore nuances, que teste a empatia dos leitores e, principalmente, que não dê respostas definitivas.

A internet aparece no livro de um modo orgânico. Os aplicativos, as selfies, tudo isso está no romance do como é de fato em nossas vidas em um lugar onde não é mais possível traçar um limite entre vida real e virtual. Enquanto vemos alguns escritores (na literatura e também na dramaturgia) forçando um tanto a mão para abordar esse tema, o seu romance parece muito certeiro, sem romantizar ou estigmatizar nossa relação com a tecnologia. Você também fez alguma pesquisa sobre como a tecnologia afeta nossas relações ou apenas escreveu a partir da sua realidade?

Escrevi a partir da minha realidade. E fico feliz que você tenha achado que não romantizei nem estigmatizei a tecnologia. Porque ela simplesmente está aí, na vida real, desenhando nossas relações, facilitando coisas, provocando ansiedades, polarizando discussões, etc. Então, se você escreve um livro realista, não tem muito como fugir dela. Falar em como fugir da tecnologia, aliás, já seria estar falando dela.

“Linhas e espirais” é uma das minhas crônicas preferidas do Uma estranha na cidade. Nesse texto você divide as pessoas entre as que pensam a vida de uma forma mais linear e apostam em uma progressiva sequência de conquistas e as que vivem de um modo circular, dando voltas no tempo entre passado e futuro, buscando algum tipo de satisfação no presente. Tentando entender o que unia os personagens de O clube dos jardineiros de fumaça em uma atmosfera de intimidade tão forte, cheguei a conclusão de que o que os aproxima não é uma questão de interesses ou disposições em comum, mas essa perspectiva em espiral. Sylvia, Tamara, Arthur e Dusk parecem fora de uma lógica que ordena a vida em etapas programadas. No podcast da Companhia, você também comenta sobre seu gosto por personagens outsiders. Como você vê essas pessoas que você inventou? Quanto há de inconsciente e quanto há de escolha nesse trabalho criativo?

Eu adorei a sua interpretação. Nem me lembrava direito dessa crônica, mas sim, eu tenho uma tendência a me atrair por pessoas que não seguem caminhos pré-determinados e que são menos suscetíveis a pressões sociais (em termos de carreira, sexualidade, relações amorosas, etc). Pessoas mais reflexivas, conscientes dos seus desejos. E é sobre essas pessoas que sinto vontade de escrever. Não foi algo que planejei desde o primeiro livro, mas, olhando agora para trás, posso identificar isso como uma característica forte dos meus romances.

Você tem alguma recomendação ou dica que daria para as autoras que estão começando suas carreiras?

É difícil sair do conselho óbvio: ler muito. Ler até que seu olhar comece a perceber de que forma as histórias são contadas, o que é dito, como é dito, o que é sugerido, como se cria tensão, e todas as sacadas e as imagens maravilhosas que os escritores são capazes de criar. Acho que, no início, é muito comum que a gente queira ler tudo que nos cai nas mãos, e que a gente sinta uma certa obrigação de gostar de tudo. Mas, aos poucos, o gosto vai se definindo. Se você, além de leitora, tiver a intenção de escrever, então esse gosto pra leitura talvez se molde junto com um estilo de escrita. Você pega um livro e pensa “esse aqui eu gostaria de ter escrito”, pega outro e pensa “esse eu não gostaria de ter escrito”. Então preste mais atenção no que gostaria de ter escrito.

Quem são suas influências literárias? O que na sua opinião uma escritora iniciante precisa ler?

Posso citar muitos autores que me causam uma comoção extrema quando leio. Lucia Berlin, Sam Shepard, Cormac McCarthy, Faulkner, John dos Passos, Richard Yates, Alice Munro, Ali Smith, Elvira Vigna. Mas isso tudo é muito pessoal. Não acredito que existam obras obrigatórias para escritores iniciantes. Vai depender da sensibilidade de cada uma. A descrição de uma paisagem em um livro do McCarthy pode ser absolutamente tocante para mim e absolutamente chata para outra pessoa.

O que você considera essencial para escrever? Existe alguma condição (seja com relação a local, materiais ou questões subjetivas), para que você realize seu ofício? Você tem uma rotina específica para escrever?

Eu gosto de trabalhar pensando em “projetos”. Quando estou escrevendo um romance, sou muito focada e bato ponto na frente do computador, das oito ao meio-dia e das duas às seis. Isso, claro, quando acho que estou pronta para a fase da escrita. Antes, há muita pesquisa, leitura, anotações. Caminhadas também ajudam na fase mais caótica das ideias.

Quando estou entre um projeto e outro, a rotina fica diferente. Aí posso passar semanas, às vezes meses, sem escrever uma linha. Tenho inveja de quem escreve todo dia, nem que seja porque se forçou a sentar e escrever um parágrafo aleatório. Minha escrita é muito contida. Raramente escrevo coisas soltas, que vou jogar fora ou encaixar sei lá onde no futuro. Prefiro guardar a energia criativa para quando sei onde quero chegar.

Atualmente, você também dá oficinas criativas, certo? Como é essa experiência para você?

Tenho ministrado oficinas junto com o Diego Grando e a experiência está sendo ótima. São cursos voltado muito mais a leituras minuciosas do que propriamente à escrita. O nome, “máquina desmontada: romance”, resume nossa ideia: acreditamos que mostrar como um texto ficcional opera — em termos de manejo do tempo, construção do espaço, construção das personagens, etc — é muito mais interessante e útil do que pedir para o aluno escrever um conto. Fazemos muito esse trabalho de dissecar textos (trechos de romance), mas também alguns exercícios pontuais de criação. Em abril, devemos oferecer também um curso sobre diálogo.


Esta entrevista foi publicada na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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