Mulheres que escrevem poesia: lendo mulheres vivas

A vontade de comer a musa com arroz e feijão

Cultivando uma estante de livros de poesia escritos por mulheres

A figura da mulher na poesia esteve, por largos e longos séculos, relegada ao papel romântico da musa inspiradora. Calada, silenciosa, casta, bela, recatada e do lar. Por muitos séculos, salvo raras exceções como Safo, fomos apagadas. Estivemos em silêncio, ou melhor: silenciadas. Distantes, guardando nossos escritos embaixo dos tacos soltos da sala, como Jane Austen. Mesmo escondidas, nossas palavras se levantavam aos poucos e aos poucos deixávamos de ser apenas o objeto da poesia. Já não cabíamos mais no papel da musa intocável. Desperta aí uma vontade de comer esta musa com arroz e feijão, lamber seus dedos e colocá-la para dançar nua no meio da sala. Convidamos a musa para dançar conosco.

A duras penas, éramos uma mulher dentre vários homens. Não precisamos fazer muita força pra lembrar nomes como Pagu e Ana Cristina César, cumprindo essa dupla jornada, que ainda nos persegue, de ser ao mesmo tempo poetas e musas inspiradoras. Resistência é abrir caminho como elas fizeram. Deixar uma trilha marcada para as que ainda virão. Junto a elas, Adélia Prado, Hilda Hilst, Orides Fontela, Gilka Machado e tantas outras, em tantas épocas, com suas histórias atravessadas pela dificuldade de largar pela rua sua fantasia romântica de musa.

Orides Fontela

Na FLIP do ano passado, comemorávamos o fato de ter uma mulher homenageada, Ana Cristina César, poeta marginal (a FLIP, criada em 2003, só teve duas mulheres como homenageadas: Clarice Lispector em 2005 e Ana Cristina César em 2016). A ansiedade de tantas mulheres ao ter a chance de debater o papel de uma mulher poeta em um evento deste porte foi completamente soterrada por uma mesa composta exclusivamente por homens falando de uma mulher poeta. A disparidade entre o número de convidadas mulheres e convidados homens não foi uma grande surpresa, mas não deixa de ser mais uma pedra que precisamos ultrapassar com desgosto e força. Nesta mesa polêmica, vimos Ana Cristina César, em toda sua complexidade, ser, novamente, encaixada à força no papel de musa. Foi lembrada como uma linda mulher mais do que como uma poeta mulher. Estamos em 2016, algumas dizem estarmos na Primavera das Mulheres, mas Ana C. segue sendo vista como uma poeta lindíssima, reduzida a uma florzinha complexa e marginal.

Aguentar, resistir e ultrapassar os obstáculos impostos por um cânone machista é cansativo. A poesia das mulheres é atravessada pela solidão. Quando produzimos sozinhas, a vontade é de realmente escrever apenas para a gaveta. Como disse a poeta e teórica Tatiana Pequeno, no dia 8 de março: “depois do não, era preciso coragem para insistir: gostar de poesia não te faz poeta, garota. certo ou errado, permaneci (só)letrando. tira o vocativo desse poema. tira a palavra amor, tira esse verbo cafona. não tiro não. não tiro mesmo. o poema é meu.” Resistir ao pensamento de mulheres leitoras de poesia e transformar a poesia em um lugar de escrita é uma tarefa árdua, mas necessária, urgente. Na solidão da mesa e da cadeira, é difícil resistir. Para sobreviver, precisamos criar diálogos entre nós.

Ana Cristina César

O Prêmio Bravo, que aconteceu em março deste ano, trouxe à tona, mais uma vez, a falta de mulheres contempladas em listas de premiados. Um júri todo composto por homens premiando homens. Na contramão disso, como aponta Adelaide Ivánova, surge Micheliny Verunschk e resistindo mais uma vez cria o Prêmio Brava. É nosso papel consumir a nós mesmas. Nós precisamos e devemos ler mulheres vivas. Em uma pesquisa realizada entre os anos de 1990 e 2004, Regina Dalcastagnè chegou à conclusão de que “de todos os romances publicados pelas principais editoras brasileiras, em um período de 15 anos, 120 em 165 autores eram homens, ou seja, 72,7%”. Na carona de Elena Ferrante em uma entrevista, engrosso o coro: se escrever sobre minha vivência enquanto mulher é escrever literatura feminina, que seja.

Partindo para uma vivência mais pessoal, tenho um livro engavetado há quase dez anos. Não apenas a falta de coragem, mas a falta de vozes que gritassem por este espaço junto comigo me fez criar em silêncio. Com poucos leitores que recebiam minhas poesias via email, me mantive assim até iniciar em 2015 uma jornada por entre mulheres que escrevem. Há dois anos lendo 99% do meu tempo escritoras mulheres, abri meu leque de poetas mulheres. Se antes eu me mantinha entre as sobreviventes Adélia Prado, Adília Lopes, Angélica Freitas e Verônica Stigger, hoje posso dizer que me esparramo entre mulheres poetas com quem posso conversar na mesa do bar. Com quem posso trocar poesias via WhatsApp, as quais posso acompanhar o movimento diário de resistência. É assim que sobrevivo e me identifico enquanto mulher e poeta. É sobre essas mulheres vivas, que se levantam em meio a tanto retrocesso, que quero falar.

Jarid Arraes

Há um movimento forte e constante de mulheres escrevendo poesia no Brasil e no mundo, mas aqui escolho falar de minhas conterrâneas. Muitas delas sequer publicaram livros, outras publicaram por editoras pequenas e independentes. Algumas apelam para o universo das zines para firmar sua escrita contemporânea. Outras escrevem sua poesia até mesmo nas paredes. Não importa o meio, o que importa é que elas escrevem, dialogam e se fortalecem. Apesar da falta de lugar para exercer nossas vozes, apesar do eterno escanteio que é ser musa inspiradora, escrevemos e muito e sempre. Uma escrita atravessada pela dor e pela força de ser mulher. Plurais, imensas e unidas por um viés em comum, as musas românticas rasgam a fantasia e se levantam nuas no meio da sala.


Adelaide Ivánova

Em uma quinta-feira à noite, chuvosa, encontrei a Taís no metrô da Carioca. Estávamos indo ao lançamento de um livro de uma poeta que eu não conhecia. Mal sabia eu a transformação que estava por vir daquela caminhada lenta e molhada pelo centro da cidade. Adelaide Ivánova publicava pelo Coletivo Garupa seu livro Martelo, uma obra completa, um tiro do começo ao fim, que atravessa nossa experiência como um prego atravessa uma parede. Conhecer Adelaide e sujar meus dedos com seu livro foi bonito e intenso. Depois daquela noite, eu era outra. Depois daquele livro, o mundo era outro.

a porca
a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.

Bruna Mitrano

Bruna chegou até mim como chegou Adelaide. Inesperadamente me choquei com sua poesia dura e crua, daquelas que arranham os ouvidos e a pele com tudo aquilo que escolhemos não ouvir. Bruna abre espaço entre os versos para a denúncia, para o grito, para resistir, para sobreviver. A poesia de Bruna Mitrano é escrita nas poças de óleo e nos buracos do asfalto, nas paredes e na pele. Em uma noite de leituras, Bruna rejeitou o microfone e, com seus pulmões inflados, recitou seus poemas com a força de quem atravessa cidades. “Não” é seu livro de estreia e foi publicado pela Editora Patuá.

quando ela fechou as pernas
a cigarra estourou de gritar
vinha de dentro
um silêncio que não se quisesse ver
um cabelo bruto
uma coisa boa macassá
quero me enfiar nele
naquele silêncio –
um bicho se olha pro outro enquanto come, é sobrevivência
não é competição.

Jarid Arraes

Conheci Jarid Arraes através de outra poeta, a Taís Bravo. Conhecida por seu elogiadíssimo projeto de Literatura de Cordel, Jarid também escreve poemas eróticos de abalar as estruturas. Também escolhi um poema dela para figurar no Regabofe das Deusas e há relatos de que foi um dos mais devorados nesse banquete. Jarid é forte e debochada, afiada em seus desejos. Seu livro de poesia erótica será lançado ainda este ano, então vamos todas juntas aguardar ansiosas.

Intensa
não te quero como cerveja
social
entre conversinhas
com uma casualidade
e uma leveza
características
te quero como vodka
pura
e quente
de efeito forte
e de repente
te quero em muitas doses
e uma ressaca
que seja,
por favor,
recorrente.

Ledusha

Ledusha é conhecida por muitos e associada à poesia marginal ao lado de Ana C., mas, como ela mesma diz “fiquei à margem da poesia marginal”. Relançada ano passado pela Luna Parque Edições, editora da também poeta Marília Garcia, Ledusha voltou à tona com seu livro Risco no Disco, publicado pela primeira vez em 1981. Ainda que muitas das poetas aqui sequer tivessem nascido nesta época, Ledusha escreve tão abertamente que é preciso colocá-la ao nosso lado. A conheci no lançamento de seu livro em São Paulo, que aconteceu no mesmo dia do lançamento da Grampo Canoa, revista onde publiquei dois poemas meus (você pode ler aqui e aqui). A presença de Ledusha é fogos de artifício e ao invés de Estela para ela fiquei sendo Estala.

Outono
afasto esse poema que vaga pelo quarto
passional com um postal
carioca
nefasto esse poema
que detesto
como detesto
os dias lindos
de maio

Marília Garcia

Conheço Marília Garcia da faculdade, estivemos juntas em algumas aulas, em algumas mesas de bar. Com seu jeito silencioso, Marília escreve sobre cidades de uma maneira única e complexa ao fazer poesia. Revirando os mais diversos tipos de escrita, é um desafio adentrar pela poesia dela e sair imune. Lembro quando peguei em mãos a primeira edição de “20 poemas para o seu walkman”, naquela edição lançada pela 7 Letras em parceria com a Cosac Naify. De fato tive vontade de ouvir a Marília tocando em repeat no meu walkman. Atualmente ela é editora e criadora da Luna Parque Edições e segue realizando um trabalho importantíssimo com a poesia no Brasil.


Natasha Félix

Quando encontrei o perfil da Natasha Félix no Facebook foi um verdadeiro golpe no meu cânone. Natasha é jovem, é fôlego, e chegou trazendo o frescor de uma escrita potente e desafiadora. Também cheguei a ela em busca de poesia erótica e descobri sua paixão descontrolada por Gilka Machado, o que me fez admirá-la ainda mais do que acreditava ser possível. Sua leitura é sempre entre risadas e dores, seus poemas uma descoberta de um mundo novo. Natasha já saiu na Revista Garupa, mas ainda não tem livros publicados por editoras, apenas uma zine feita por suas mãos que é exclusividade para poucos.


Rita Isadora Pessoa

Quando penso na Rita Isadora Pessoa me vem em mente aquele trechinho de música “seria uma sereia ou seria só delírio tropical?”. Com uma voz única, capaz de levantar em segundos aquela nossa voz silenciada, Rita usa sua poesia como o canto de uma sereia e vai nos levando por seus medos, por seus desejos, por suas vontades. Ouvi Rita no mesmo dia em que ouvi Bruna Mitrano, em um sarau na Livraria Travessa. Ouvir as duas recitarem seus poemas foi um turbilhão do qual agradeci não sair impune. Rita é uma das poetas que caminha por entre mesas de bares conosco e nossa construção é lado a lado. “A vida nos vulcões” é o primeiro livro da Rita e foi publicado pela editora Oito e Meio.

“das ruínas preliminares” ou “dos papéis individuais no fim do mundo”
aquela sou eu esperando a catástrofe
com as mãos seraficamente pousadas
 sobre o colo
a verdade é que só preciso
me agarrar violentamente
a um ponto fixo
na disco-voragem
 deste sonho
e permanecer submersa
acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa
descendo pelas minhas pernas
e devolvo delicadas ossadas
sob o signo da carnificina moderada
(uma forma de canibalismo contemporâneo?)
expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos
equilibrados sobre a porcelana
frágil do meu prato, porque uma coisa que acontece é que
o meu corpo
ele não se quebra
não quebra como se quebra um prato
ou um fêmur
não como se quebra uma linha
no fim de uma frase longa e deselegante
alinhada à esquerda
o que tenho a ser feito
pode até ser chamado de ofício
de linha e agulha
mas eu contenho hemorragias
é o que eu faço
 — deveria ter sido médica
mas me coube ser dique
: eu contenho hemorragias
com as mãos
todos os dias
 — um ofício que empresto
da pedra
para subjugar o rio

Simone Brantes

Conheci a Simone Brantes através de alguns amigos em comum. Calma e até um pouco tímida, quando peguei nas mãos em 2008 seu livro “Pastilhas Brancas”, lançado em 1999, me surpreendi. Simone entrou como pioneira em minha memória por ser uma mulher poeta ao meu alcance. Talvez ela não saiba disso, talvez até mesmo enrubesça, mas seu livro me foi um fôlego quando achei que só poderia gostar de poesia, mas não escrever. Seu último livro, lançado também pela 7 Letras, “Quase todas as noites”, mostra uma escrita mais madura, mais direta, que me fez relembrar aquelas pastilhas, aquele primeiro encontro. Quase dez anos depois, Simone estava de novo ao meu alcance, transformando minha experiência com a sua poesia.

Coisas em que um poeta vem pensando
Vou morrer
sem comer todas as mulheres
que queria
sem escrever 
todos os poemas que desejei
Pior:
vou morrer
sem ver todas as mulheres
que não comi
sem ler
todos os poemas que não escrevi

Taís Bravo

É difícil falar de quem lê nossos escritos em primeira mão. A confiança é algo que pode deturpar opiniões e é exatamente por isso que amo confiar nas poetas que me visitam diariamente. Gosto de ter minhas opiniões deturpadas pelo afeto. Descobri a Taís pela Mulheres que Escrevem e só isso já deveria se tornar um poema. Costumamos dizer que poderíamos fazer poesia sobre tudo, até mesmo sobre coisas que sequer lembramos. Taís Bravo passeia comigo pela cidade e eu passeio com ela por essa cidade que ela descreve com tanto ardor. Seus poemas falam da mobilidade, das novas formas de comunicar e dialogam com esse mundo que corre mais rápido do que nós. Taís publicou um livro pela Amazon, “Todos os meus (ex) heróis são machistas” e a zine “Possível” pela Alpaca Press.

O futuro é
quando ela fala
somos silêncio
é escolha
em cada gole gota ombro selfie
rende outra língua
atravessada por
Adelaide Ivánova
Estela Rosa
Danielle Magalhães
Marília Mendonça
Rita Isadora Pessoa
entre tantas partidas
em trânsito
não saio impune
tomo o nome do meu corpo
contra o disparo de quatro homens
não dou
o prazer do medo
encaro a Avenida das Américas
sem me comprometer
ao sentido dos sinais 
minhas pernas convocam meu rosto
entrega só desprezo
entre os dentes
a vulnerabilidade
se debate
na ponta dos dedos vermelhos
de tanto nos forçar intactas
ainda seremos possíveis

Estas são apenas algumas dentre tantas mulheres poetas que dividem conosco uma era. É urgente conhecê-las, abrir espaço na estante e colocar ali seus livros. Abrir espaço no dia e colocar ali sua poesia. Em cada palavra, uma identificação. É preciso escrever poesia, é preciso ler mulheres vivas, nossa voz se levanta e não há mais quem possa nos calar.

E você? Quem me indica a figurar na minha estante de poetas?