Mulheres que escrevem sobre mulheres

os textos são testes

Ilustração: Olimpia Zagnoli

Às quintas-feiras, coloco água para esquentar, a erva-mate dentro da cumbuca, viro a cumbuca de ponta-cabeça, fazendo um ângulo de 45 graus. Coloco a água quente na parte mais baixa do desnível, espero um pouco, coloco mais água e enfio a bombilla. Depois disso, sento à escrivaninha e fico olhando o contraste escuro das letras na tela branca.

Essa paisagem visitada à exaustão é minha pesquisa de mestrado e, mesmo quando não estou olhando para ela diretamente, ela está gravada na minha mente. Às vezes ela me consome a alma, e naqueles três parágrafos em que consegui fazer uma bela duma argumentação, ela me enche de um genuíno orgulho. Uma parte do processo é excelente e de vez em quando eu até me autoelogio — em silêncio, ou neste texto — de ter começado a pesquisa depois de três anos fora da universidade. Porque a parte difícil da pesquisa demanda uma maturidade que aos 23 anos eu certamente não teria. Aos 27, arrisco dizer, tem sido mais fácil entender que pesquisa é processo e que palavras são materiais. Por ser processo, nada estará concluído, em momento algum. Por ser compostos de matéria, os textos são testes (por vezes a matéria é como o barro, vou moldando aos poucos, secando diante de mim, mas às vezes demanda um esforço maior, como um metal denso).

Minha pesquisa é sobre três artistas. Elas são mulheres. Suas obras são principalmente pinturas, óleo sobre tela, serigrafia, desenhos. Sem o nome delas assinado ou a convivência com as formas que produziram, eu arrisco dizer que seria impossível adivinhar de antemão o gênero das artistas. E então, numa dessas quintas-feiras, fiquei muito tempo olhando para a conhecida paisagem já mencionada, pensando em como escrever sobre mulheres.

Como eu, que sou contra a essencializar gêneros e que nunca me senti participante no sagrado feminino, posso escrever sobre esse assunto sem trair a mim, às artistas, a um movimento social — esse sim, do qual me sinto participante? Eu roo as unhas como se isso fosse me ajudar a encontrar uma resposta e, quando estou perto de me machucar nesse ritual praticado desde que me reconheço como gente, movo as mãos em direção ao teclado.

Abro textos, leio pesquisas de amigas e desconhecidas (célebres, muitas vezes), esboço ideias, pergunto-me quem eu sou e se essa pergunta tem relevância científica. Pergunto até se é ciência o que faço ou se ciência é algo mais do que juntar evidências e construir explicações sobre elas. Vou escalando corpos de gigantes, e o tempo todo me deparo com a questão: como escrever sobre mulheres? A paisagem textual tem uma dimensão, mas, ao olhar meu objeto, percebo que uma dimensão é pouco, nada tem só um lado, ninguém é só uma coisa, “mulheres artistas” não explica quase nada (para não ser categórica e dizer que de fato não explica nada).

Às quintas-feiras, então, eu parto da existência de três artistas e circundo as múltiplas faces de um objeto de pesquisa. Olho dentro e fora, de mim, dele, do mundo social que esse objeto habita. Vejo contradições, e tenho certeza de que estou perdendo algo quando foco em um só ponto. Encho de água o mate, mais uma vez. Nada é simples. Nenhuma de nós é.


Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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